domingo, 14 de dezembro de 2025

 (sobre uma foto do amigo William Bigorna, e sem autorização prévia), escrevo:


há aves que pousam, silentes,

nos ombros da madrugada 

(tão ensimesmados quanto eu,

     tão capazes de voar, ou de ficar, quanto eu,

             ou tão perdidos, quanto eu ou as casas


           derrubadas

                   das aldeias onde cresci).


crescer foi a criação do sol, ave solta

sobre os braços dos seres que me elevavam

         à divina aspiração do futuro


(onde aves piavam, solares umas, 

       nocturnas outras, solenes todas,

                  onde o compasso da procissão 


  transfigurava os rostos de fé, 

                                  ou de dúvida).


o amor não era solene, 

era apenas e só amor, vôo, direcção, 

      caminho seguro e chão de uvas maduras,

               o mosto e a vida pisada no lagar 

    da minha infância. 


a infância não era solene, 

ainda que cheia de solenidades (era só um lugar

seguro, onde aves soltas 

      e bandos de estorninhos 

            sobrevoavam a quinta de Horta 


ou a ribeira da Curia ou a casa da Ti Ana

    ou a loja dos avós). crescer foi a ave solta

sobre as madrugadas, todas as madrugadas,


que me conduziram aqui. amanhecer 

      menos povoada de abraços antigos 

(amanhecer nas memórias dos rostos 

        e dos caminhos e dos corações, dos latidos

           e dos sons e das vozes guardadas 

               e das pessoas que recordo e queria ter).


de aves belas e livres

e de aves lúgubres sentadas sobre os ombros 

      das madrugadas, se fez manhã, hoje, 

             por entre névoas e o desconhecido.


Susana Duarte 

Aldeia de Horta

(podia ser a Curia)

10/12/2025


Autor da fotografia: William Bigorna


 (sobre uma foto do amigo William Bigorna, e sem autorização prévia), escrevo: há aves que pousam, silentes, nos ombros da madrugada  (tão e...