sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

escreverei à meia noite do poema



escreverei à meia noite do poema, 
onde se desfazem as pedras das calçadas
e os teus passos.


escolheste seguir as pedras de ontem,
e os caminhos levantaram o pó 
dos teus passos.

escreverei à meia noite do poema,
onde o vento desfez a noite, ela própria
uma ave assustada ante a imensidão
do desejo.

morrem os corpos na espera,
enquanto a meia noite do poema se declina
na cor das cerejas.

é na confluência dos dedos
que se desocultam as noites dos corpos,
entidades desejantes, meia noite das vidas
nuas, encontro sobre o leito,
ventos-sul do peito,
quando a meia noite do poema
se escreve nas peles.

Susana Duarte



quarta-feira, 28 de dezembro de 2016



nascerão, um dia, aves, nas
margens serenas dos lábios.

por agora, nascem sorrisos

Susana Duarte

revejo as imagens dos dias de antes



encontro-te em todos os recantos 
das uvas, e em todas as luas 
do meu corpo. revejo as imagens
dos dias de antes, e as fotos 
traduzem o indizível: a vida consumida 
em poucos momentos, e as velas 
frutadas do meu peito. encontro-te 
em todos os lugares noturnos,
onde as mãos conduziram o voo 
das quimeras, e as asas pernoitaram 
onde os braços perderam as plúmulas
e as dores. encontro-te, enfim, às portas
das ruínas onde romanos guerreiros 
ergueram lutas decadentes, 
como a paixão que me traz
esquecida de mim. encontro-te onde sou,
e onde não serei, nunca, o que desejei,
se tu, por mim, não dotares os braços de mar,


afundando-me, assim, nas areias 
e nas algas
de onde não mais consegui sair.

Susana Duarte

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016





o leve desmaio
existe onde grito:
nos rios sem margens.

Susana Duarte

em nenhuma rocha



em nenhuma rocha

inscreverei o nome

que as ondas gritam


Susana Duarte



barco



por entre brumas,

há um barco navegado

pelo teu nome


Susana Duarte




esperar



esperar por ti:

navegar ondas de nada


sob o céu azul


Susana Duarte


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

beijo o  vazio,
a fria ausência:
trago poemas. 

Susana Duarte


soltam-se, das aves, as plúmulas insubmissas

soltam-se, das aves, as plúmulas 

insubmissas 
que descreveram margens 
de rios outrora 
ocultos.
desfazem-se nas madrugadas
transparentes,
sonoras como os ecos
de todas as ausências 
com que me escreves 
nos ossos,
doridos e insubmissos como as plúmulas,
ocidente de todos os desejos.
soltam-se, e desfazem-se,
as plantas ocultas do voo das aves.



lá, onde o ocidente se atreve
a circunscrever oceanos,
todas as ondas não bastam

para conter a fúria 
do voo.

Susana Duarte



terça-feira, 13 de dezembro de 2016

os dedos percorrem sílabas



os dedos percorrem sílabas 
onde o verbo, exilado,
anuncia o tempo

e o tempo, silente,
revê nervuras
e as mãos.

são folhas de romã, os dias,
e palavras perdidas 
onde o tempo se esgota.

nunca mais os dias de verão 
serão as searas douradas de antigamente.
o restolhar das folhas,
e a palavra

decadente
perdem os sentidos,
onde o verbo descreve as curvas
e a idade amontoa frases 
e ilumina memórias.

Susana Duarte


sábado, 3 de dezembro de 2016

o mundo é um lugar longe,
onde as mulheres são feiticeiras
e os poetas, a alma ferida

das brumas.

o mundo é um lugar longe,
tão longe quanto as lágrimas e o medo,
tão fundo quanto as lágrimas e o medo

de amar.

amar é um lugar longe,
onde as mulheres são aves que voam
um voo estranho de derivas

anteriores.

a dor é um lugar solitário,
tão longe como os poetas.

Susana Duarte


Tu sei fatto di tempo, di incessante
Tempo. Sei ogni solitario istante.

Jorge Luis Borges


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

quando chegares, não acendas a luz:
ilumina-me com o futuro liquefeito dos teus dedos
e olha-me, com a vertente solar
dos teus olhos.

quando chegares, avisa as aves:
soletra cada uma das plúmulas com que desenhaste
as ausências, essas, que fizeram de ti
o sonho apátrida
das noites.

ilumina-me, então, com o voo abrupto
dos desejos sobre os lábios;
com a sombra ambígua
das manhãs

e com o eco vago das quimeras.

quando chegares, não acendas senão o peito,
e olha em redor das mágoas:
saberás que as noites
apátridas

têm recantos onde as aves
se iluminam; onde as plúmulas desenham círculos
na madrugada, e as mulheres se entregam às brumas.

talvez saibas, então, qual dos caminhos
trilhar. no voo abrupto das aves
sem nome.

Susana Duarte


"We leave something of ourselves behind when we leave a place, we stay there, even though we go away. And there are things in us that we can find again only by going back there."

Pascal Mercier, "Night train to Lisbon"

terça-feira, 29 de novembro de 2016

De Freud (1856-1939)




Quando Chega uma Carta Tua

Quando chega uma carta tua todas as divagações acabam, e acordo para a vida. Todos os problemas estranhos deixam de ter importância, os misteriosos quadros de doenças se desvanecem, e acabam-se as teorias vazias «de acordo com o estado presente da ciência», como elas são chamadas. Então o mundo fica tão acolhedor, tão alegre, tão fácil de compreender. A minha doce querida não é uma ilusão, ela não tem que ser comprovada por testes químicos; de facto ela pode ser observada a olho nú. Ainda bem que ela não tem nada a ver com doenças – e espero que continue – excepto por ter sido suficientemente imprudente para tomar um médico para amante. Oh Marty, é muito mais gratificante ser um ser humano em vez de um armazém de certas experiências monótonas. Mas ninguém se pode permitir a ser um ser humano por uma hora a não ser que tenha sido uma máquina ou um armazém por onze horas. E aqui chegámos, onde começámos.

Carta de Sigmund Freud a Martha Bernays, 9 de Outubro 1883 (excerto)

terça-feira, 22 de novembro de 2016



“Como a doença se dá no corpo, assim a tristeza se dá no espírito.” 
Séneca

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Un uomo passeggia, guarda la luna e si mette a piangere. La luna sentendolo gli dice: "uomo perché piangi? Non sei felice?". L'uomo si fermò. Rispose alla luna: "tu sei mai stata senza le tue stelle, o luna?". La luna rispose: "no, sono sempre con me." L'uomo riprese a camminare, per un attimo si volse al cielo: "Allora non puoi capire".

Marcantonio Pindinello


Per colmare un vuoto devi inserire ciò che l’ha causato. Se lo riempi con altro, ancora di più spalancherà le fauci. Non si chiude un abisso con l’aria.

_______________
 Emily Dickinson

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

"Não somos malucos. Somos humanos. Queremos amar e alguém tem de nos perdoar pelas escolhas que tomamos para amar, porque os caminhos são muitos e negros, e somos ardentes e cruéis durante a nossa viagem."

Leonard Cohen


domingo, 6 de novembro de 2016

Escrita 

escrevo suor em folhas de papel
e detenho as cores nos olhos de mar

derreto águas sobre o papel dos sonhos
e reajo ante a sonora invasão
dos rios agitados

onde a alma se revê, 
renasce, 
escreve, 
habita, 

é.

derreto as névoas intemporais do sonho
e habito-te, na serena calada da noite, 
véspera de todas as manhãs, amplitude 

de todas as cores

que me serás no peito.

Susana Duarte

sábado, 5 de novembro de 2016

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

"gostava que este amor morresse
e que chovesse sobre o cemitério
e sobre as ruas onde caminhando
eu choro aquela que julgou amar-me"

                                              Beckett

sábado, 29 de outubro de 2016

“Now I know what a ghost is. Unfinished business, that's what.”
― Salman Rushdie, The Satanic Verses



-Foram dez, os lugares do amor…-pensou ela.
A estação dos comboios foi, de todos, o primeiro e, de todos, o derradeiro. As portas do ocidente abriram-se-lhe,  olhos postos no sorriso que anteviu e no encontro que –temia- poderia nunca acontecer. O encontro, afinal, aconteceu, e teceu-se com as mãos que anteciparam os beijos, as madrugadas claras, e o suor dos corpos reencontrados.
Refém de si mesmo, e dos cabelos negros que abraçava, ele libertava anos de procura, ao mesmo tempo que, dos seus olhos, saíam névoas preocupadas: tudo mudara e, no entanto, tudo tinha, ainda, que mudar.
- Este é o segundo dos lugares do amor…-pensava ele, mãos dadas sobre o leito, sorrisos postos no futuro que antevia.
A vida acontece inesperadamente. Confronta. Exige respostas e capacidade de ajustamento. Acontece. Ao acontecer, traz consigo o cheiro de todas as infâncias, o eco de todos os receios, e a inevitabilidade das decisões. Ele intui que, a partir dali, outros serão os lugares do amor. E sabe que, a partir daquele encontro, tudo mudou e, no entanto, tudo terá, ainda, que mudar.
Os dias sucedem-se, e os lugares do amor são vividos com a respiração ofegante de quem quer viver a vida toda nos dias que lhe são dados, um de cada vez, hora a hora, segundo a segundo. E, inevitavelmente, acabam.
O rio, navegante incansável, escorre ali mesmo, entre as margens que o delimitam e são, simultaneamente, todas as suas possibilidades de progresso e caminho. O rio foi o nono lugar do amor. Sobre ele, fluíram marés originadas por aquele encontro. O mundo tinha mudado a lógica das coisas. A inevitabilidade do encontro, também mudara tudo o que conheciam. Os corpos transpiraram marés, por sobre o fluir do rio, e por sobre o fluir daquelas duas vidas.
-Este deveria ser, apenas, um dos lugares do amor-pensavam eles-, mas o derradeiro será aquele que apartará os corpos.
Se sonharam, nessa noite, sonharam com as flores colhidas, após as sementes deixadas na terra, numa sucessão de estações que viveriam juntos. Sonharam, talvez, com as noites, e os dias, e o devir. Sonharam, talvez, que tudo o que ainda tinha que mudar, já estivesse mudado, portas abertas, a ocidente, para todos os lugares do amor. Sonhar os luares do amor era a única forma de não ficar só. a solidão da separação, após ter tocado o amor, é escura, e fria, e dolorosa, e inevitável e, aparentemente, eterna. Escrever a vida, trilhando caminhos sem dar as mãos, depois de conhecer os lugares do amor, é aprender a caminhar numa noite longa e fria. Acordar, pois, é antever a ferida aberta no íntimo do corpo, e descobrir o frio na aparente invencibilidade com que se acorda em cada dia.
Ele, e a metade de si, separar-se-ão naquele que foi o primeiro-e será o derradeiro-lugar do amor, aquele onde se olharam nos olhos e deixaram as lágrimas soltar a noite de chuva que viveram, dias antes, os dois, de mão dada a enfrentar as intempéries-todas-, que acreditaram poder vencer.
Ficarão ligados, para sempre,  aos dez lugares do amor. Abraçar-se-ão em cada sonho, em cada recanto de cada palavra. Saberão da inevitabilidade do reencontro. Até lá, reaprenderão a vida, e a morte, e a saudade, e o amor, e a ternura, e a ausência, em cada primavera antecipada, em cada estação que, todavia, os separar ainda.
- O décimo-primeiro lugar do amor, terá que ser aquele onde perdemos as mãos, porque o outro as levou consigo- pensou ela.
Ao mesmo tempo, ele pensava que as mãos que deixou, voltarão a si, no momento em que devolver aquelas que, consigo, em si, levou. Porque sabe, desde já, que se encontrarão no abraço, aquele que será dado no décimo-primeiro, talvez último,  lugar do amor.

Susana Duarte


quinta-feira, 27 de outubro de 2016



"O céu está vazio.
Há anos que amo este homem.
Um homem a quem ainda não dei nome.
Um homem que amo.
Um homem que me abandonará.
O resto, diante, atrás de mim, antes e depois de mim, é-me indiferente.
Amo-te."


Marguerite Duras



domingo, 23 de outubro de 2016

Antítese

Antítese
(ouvindo Aesthesys, “Dreams are only real as long as they last”)










sou a antítese dos mares.                                            escondo-me das flores onde a luz não chega,
e da luz,  onde as flores desmaiam ante o bater de asas das borboletas azuis.           escondo-me
onde as luas me navegam.                              sou um exoplaneta frutado de luas sonoras, e a veia
onde os teus passos criaram a sede.          sou a antítese de mim  mesma, e o contrário de tudo.

persigo  as ondas onde os mares se afundam em areias prístinas,                e acendo os grânulos
de silício das praias com os passos dados em auroras distantes.                     nessas auroras vives
tu, ser flávio das noites antigas.                          és a antítese de mim, e aquele que me completa.



interrogas-me onde a estranheza se instala.    escondes-me de mim onde me perdes e me tens.


é  por ti que sou a antítese do ventre,    e a demora das manhãs  frutadas,     e das noites  vivas.


Susana Duarte
Do livro "Pangeia", a lançar 

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

HO INDOSSATO


Ho indossato i pensieri più belli
per vedermi almeno una volta
specchiato nei tuoi occhi,
ma la densa nebbia delle mie paure
mi ti nasconde ancora.

Gianni Bianchi


"Through your heart passed a boat, that without you still follows its course"

Sophia de Mello Breyner Andresen



Non sai mai quanto sei forte, finché essere forte è l’unica scelta che hai.

Chuk Palahniuk




segunda-feira, 17 de outubro de 2016

e a ausência faz-se voz

em mim
e nas flores que percorro.

na ausência me cerceio
e na ausência me morro.

Susana Duarte


sábado, 15 de outubro de 2016

.
Subir
até ao teu mais fundo
céu,
.
Livre
dos sentidos
celeste
de afectos.
.
Criar
essa tua vontade
este pecado do homem
unido a ti
ao sabor do vento.
.
Feliz
te guardo o nome
alento único desta minha vida
que sem ti nada é.
.
.
antónio carneiro
.
.


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

existe a mulher, 
e existe o homem.

entre eles, a demora
e o abraço suspenso
onde os olhares 
não se encontram.

existe a mulher,
e existe o homem.

da sua paixão,
sabem as paredes
que testemunharam
o encontro breve
das mãos.

existe uma mulher,
e existe um homem,
concretos e indefinidos,
incongruentes 
como os beijos,
testemunhas 
da sua própria morte,

sempre que a mulher,
e o homem,
se fazem algaço 
nas praias de um tempo
que não existe.

Susana Duarte 



De Maria do Rosário Pedreira


domingo, 2 de outubro de 2016

"Solo gli inquieti sanno com’è difficile sopravvivere alla tempesta e non poter vivere senza. "

 Emily Bronte


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

"Mas um dia vi-te num curto silêncio, e compreendi a partilha, e decidi renascer"

Manuel Cintra



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

talvez o poema só nasça
depois de ter sido escrito na pele,
demorando-se sobre os cílios

e as curvas lentas dos braços
-depois de, neles, ter residido a aurora,
madrugada de sal.

se o poema nascer
depois de uma aurora de sal, talvez 
saibas, então, da ausência

dos homens,
e das vidas esgotadas
das flores azuis
que enchem prados anónimos.

o poema poderá nascer das raízes
onde, ocultas, se entranham 
as inverdades que, no íntimo,
repetimos aos olhos

e, depois, decalcamos nos poros
sedentos
de toda a pele,

onde queremos ver escritas
as palavras
húmidas e sedentas (talvez
as mais raras), da boca

onde, então, calamos 
toda a angústia.

Susana Duarte





saúda-me a tristeza, a partir das janelas de onde, antes, brilharam estrelas de vida, ante a visão de ti e das tuas carícias. saúda-me, e eu deixo. saúda-me a saudade, e eu deixo. saúda-me a vida que tive dentro, quando contigo sonhava. e eu deixo. saúdas-me tu, no abraço demorado que me deste e, todavia, me prometes. e eu deixo. saúda-me a tristeza, mas não te deixo partir. saúda-me a vida antes de mim própria. e eu deixo. saúdda-me o brilho dos teus olhos. e eu deixo. neles vivo. neles morro. e eu deixo que a vida me preencha de vida. e eu deixo que a vida me preencha de morte. e eu deixo. mas deixo sobretudo que o sonho não morra. deixo que me vivas. deixo que me habites cada movimento das pálpebras. deixo que me sonhes. deixo que tenhas saudades de mim. mesmo quando a tristeza me habita. mesmo quando a saudade me desespera. habitas-me. não sei ser sem ti.


Susana Duarte


domingo, 25 de setembro de 2016

http://www.deezer.com/album/11154432

sábado, 24 de setembro de 2016

domingo, 18 de setembro de 2016

“There is no Greater Agony… 
Than Bearing an untold Story inside You…” 

Maya Angelou (1928-2014)


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

NÃO O SONHO



Talvez sejas a breve 
recordação de um sonho 
de que alguém (talvez tu) acordou 
(não o sonho, mas a recordação dele), 
um sonho parado de que restam 
apenas imagens desfeitas, pressentimentos. 
Também eu não me lembro, 
também eu estou preso nos meus sentidos 
sem poder sair. Se pudesses ouvir, 
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos, 
animais acossados e perdidos 
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim, 
desamarraram-me de mim e agora 
só me lembro pelo lado de fora.



MANUEL ANTÓNIO PINA, in ATROPELAMENTO E FUGA (Ed. Asa, 2001)



sábado, 3 de setembro de 2016

"Nalgum lugar"



nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
*
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente)a sua primeira rosa
*
ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
*
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
*
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas
.
[e. e. cummings: tradução de Augusto de Campos]


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

UMA MULHER ESPERA POR MIM-WALT WHIMAN




Uma mulher espera por mim, ela tudo contém, nada falta,




No entanto, tudo ficou faltando se o sexo faltou, ou se o orvalho do varão certo estivesse faltando. 









O sexo contém tudo, corpos, almas,


Significados, experiências, purezas, delicadezas, resultados, promulgações,


Canções, mandamentos, saúde, orgulho, o mistério da maternidade, o leite seminal,


Todas as esperanças, benefícios, doações, todas as paixões, amores, belezas, deleites da terra,


Todos os governos, juízes, deuses seguiram pessoas da terra,


Estes estão contidos no sexo como partes de si mesmo e justificativas de si mesmo.










Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura a delícia do seu sexo,


Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura as suas.










Agora vou dispensar-me de mulheres frias,


Vou ficar com ela que espera por mim e com aquelas mulheres que são apaixonadas e me satisfazem,


Vejo que me compreendem e não me negam,


Vejo que são dignas de mim, serei o marido vigoroso de tais mulheres.










Elas não são em nada menos do que eu,


Têm a face curtida por sóis luzentes e o sopro dos ventos,


A sua carne possui a velha divina maleabilidade e energia,


Sabem como nadar, remar, cavalgar, lutar, atirar, correr, golpear, recuar, avançar, resistir, defenderem-se,


São irrevogáveis quanto a seus direitos – são calmas, claras, seguras de si próprias.










Trago-as para perto de mim, vocês mulheres,


Não posso deixá-las ir, faria bem a vocês,


Estou para vocês e vocês estão para mim, não apenas para o nosso bem, mas para o bem de outros,


Envoltos em vocês adormecem os maiores heróis e bardos,


Recusam-se a despertar ao toque de qualquer homem, a não ser eu.










Sou eu, mulheres, faço meu caminho,


Sou duro, amargo, grande, indissuadível, mas amo-as,


Eu não as faço sofrer além do necessário para vocês,


Eu verto a substância para encetar filhos e filhas aptos para estes EUA, pressiono com o músculo rude e lento,


Eu me abraço efetivamente, não escuto súplicas,


Não ouso me afastar até que deposite o que, há muito, estava acumulado dentro de mim.






Através de vocês faço escoar os reprimidos rios de mim mesmo,


Em vocês contenho mil lágrimas progressivas,


Sobre vocês eu enxerto os enxertos do mais amado de mim e da América,


Os pingos que destilo sobre vocês farão crescer moças impetuosas e atléticas, novos artistas, músicos e cantores,






As crianças que eu gerar sobre vocês hão de gerar crianças por sua vez,


Hei de exigir homens e mulheres perfeitos do meu consumir amoroso,


Espero que eles se interpenetrem com outros, como eu e vocês nos interpenetramos agora,


Vou contar os frutos das ejeções abundantes deles, assim como conto os frutos das ejeções abundantes que eu agora dou,


Vou aguardar as colheitas de amor, desde o nascimento, vida, morte, imortalidade, do que planto tão amorosamente agora.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016


"Regressamos sempre aos velhos lugares onde amávamos a vida e só então compreendemos que não voltarão jamais todas as coisas que nos foram queridas. O amor é simples e o tempo devora as coisas simples"

José Eduardo Agualusa


https://m.youtube.com/watch?v=YQKqzF7En_s

terça-feira, 30 de agosto de 2016

despedi-me dos teus olhos
na clara manhã, lá onde as mãos 
se tornavam líquido incandescente

sobre os seios. foi aí que me despedi
de ti. absorta desde então,
aprendi a iluminar as veias 
com os breves sorrisos imaginados,
rasgados
pela falta dos pés,

os teus,
suspensos da vontade.

despedi-me dos teus olhos
na clara manhã dos silêncios 
sussurrados entre os corpos já distantes.

as manhãs nunca mais foram claras.
as tuas mãos não mais trilharam o caminho.

o corpo fez-se estátua de areia,
retida no tempo,
salgada e inerte,

como a tua viagem.




quarta-feira, 24 de agosto de 2016

"Existes; não existes; és talvez
a memória da memória da memória,
um pensamento apenas, uma asa,
que de tão leve e cega, cega a água."

Do meu primeiro Joaquim Pessoa, "O Amor Infinito", Moraes Editores



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

é no silêncio das vozes que se ouvem as palavras,

e é nelas que habitam as paixões.

no seio dos silêncios, ocultam-se memórias
e criam-se mitos. no silêncio dos mitos,
olhos vívidos destroem impossibilidades
e recriam vidas-vividas-sonhadas-rarefeitas
pelas geografias, ou pelos limites humanos,

ou pelo excesso de palavras interditas.

[silêncio]

Susana Duarte





terça-feira, 16 de agosto de 2016



deixar os dedos onde as árvores falam e as aves
calam memórias, mantém vivos os nós dos dias
e a imprecisão dos sonhos. 

não sei de onde vêm


as absurdas imagens que persistem nas veias, 
ou as fotografias tiradas sob a luz esmaecida 
dos tempos. deixar as aves calar as memórias,
desabita a retina 

e deixa vítreos os grãos de areia


outrora revolvidos por mãos ansiosas, ágeis,
descomedidas nos toques e na procura dos corpos.

outrora absurdas, eis as veias ondulantes, mulheres 
desmedidas e intensas na avidez dos olhares.
mulheres. grãos de areia 

nos corpos amantes,

vítreas nos olhares com que se estendem, aves
elas próprias, 

na ignomínia dos abandonos.

Susana Duarte


"O encantamento vem com o compromisso. E o encantamento só se recupera com maior compromisso. Esta é a lógica do amor." 
(P. Vasco Pinto Magalhães, sj)



segunda-feira, 15 de agosto de 2016

domingo, 7 de agosto de 2016

leve solidão dos ombros
que percorres 
como num desmaio:

grito.

Susana Duarte


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Alegria



Já ouço gritos ao longe 
Já diz a voz do amor 
A alegria do corpo 
O esquecimento da dor 


Já os ventos recolheram 
Já o verão se nos oferece 
Quantos frutos quantas fontes 
Mais o sol que nos aquece 


Já colho jasmins e nardos 
Já tenho colares de rosas 
E danço no meio da estrada 
As danças prodigiosas 


Já os sorrisos se dão 
Já se dão as voltas todas 
Ó certeza das certezas 
Ó alegria das bodas 


José Saramago, in "Provavelmente Alegria"


quarta-feira, 3 de agosto de 2016




" Niente è più inabitabile di un posto dove siamo stati felici "




Cesare Pavese






quinta-feira, 28 de julho de 2016

onde te escondes, quando a noite cerca as sombras
e as desfaz, tornando-as nébulas no olhar, e densidade
negra por sobre as espáduas e o ventre?

onde te escondes, sempre que a noite vigia os incómodos
sussurros dos amantes, mitigados pelo raiar da lua que, sobre 
os corpos, se declina em invulgares contornos, de corpos 
redondos e interstícios onde as peles se não encontram?

onde quer que estejas, és o olhar que se estende sobre os dedos
que movo no ar, incógnitos bailados do pensamento, 

onde tanto se diz, por entre aquilo que se procura.

Susana Duarte




terça-feira, 19 de julho de 2016

quando chegares, não acendas a luz:
ilumina-me com o futuro liquefeito dos teus dedos
e olha-me, com a vertente solar
dos teus olhos.

quando chegares, avisa as aves:
soletra cada uma das plúmulas com que desenhaste
as ausências, essas, que fizeram de ti
o sonho apátrida
das noites.

ilumina-me, então, com o voo abrupto
dos desejos sobre os lábios;
com a sombra ambígua
das manhãs

e com o eco vago das quimeras.

quando chegares, não acendas senão o peito,
e olha em redor das mágoas:
saberás que as noites
apátridas

têm recantos onde as aves
se iluminam; onde as plúmulas desenham círculos
na madrugada, e as mulheres se entregam às brumas.

talvez saibas, então, qual dos caminhos
trilhar. no voo abrupto das aves
sem nome.

Susana Duarte

segunda-feira, 18 de julho de 2016

"(...) e, às vezes, tenho a sensação que se disser mar em voz alta, o mar me entra pela janela (...)" 



Al Berto


Foto de Susana Duarte

sábado, 16 de julho de 2016

procura.

trago-te em mim, como trago as nódoas das outras vidas e as partidas todas, de todos os portos do mundo.

revejo-te, como a uma mirabolante caminhada sobre as traves de madeira dos ossos, e neles inscrevo a tua presença, anónima, arqueada e inocente.

 trago-te em mim, todas as noites, aceso como as luzes e os sons que já povoaram a terra, castanha e húmida como as nozes da existência feminina.

és, de todos os motivos, o mais perecível, e o mais eterno, como as maçãs perpetuadas numa tela.  as maçãs, são os seios que seguras na linha que antecede a noite, e o perímetro dos sonhos onde encontrarás, de novo, a realidade e o ser.

perdes-te, tragicamente, onde se agitam as nuvens. a nesga de céu que abominas é a mesma onde me passeio, despida, sôfrega de sol e de vento, aurora desfolhada de todas as luas que me nascem dentro.

e permaneces cera, e permaneces voo antecipado, Ícaro naufragado com a força das asas sepultas.

procura. serás a mão que antecipa as marés.

susana duarte