quarta-feira, 27 de novembro de 2013

(...)





“There was a beautiful time...” 

― Sylvia Plath


Foto pessoal, tirada na Casa de Fado de Coimbra àCapella

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Identidade





são etéreas, as memórias.
talvez, apenas, ilusões,
talvez, apenas, estórias
de abraços desabituados dos corpos.



são névoas, as canções.
talvez fossem sorrisos,
memórias de abrigos e de corações
interrompidos, navegados, ou...mortos.


a morte da memória é o esquecimento,
e o apagamento da sombra das mãos:
aquelas que, outrora, foram tuas, impressas
num ventre oculto, navegadas elas pelo ventre,
demente, talvez. esquecido. doente


de abandono.


[quem és? quem foste?]

Susana Duarte

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Filha da terra.

http://www.tvi.iol.pt/escolhaportugal/centro-de-portugal/1496171

Atitudes, não apenas palavras.

"O encantamento vem com o compromisso. E o encantamento só se recupera com maior compromisso. Esta é a lógica do amor." 
(P. Vasco Pinto Magalhães, sj)




Imagem retirada da net, e cuja autoria desconheço

(...)

"(...) a solidão é muito maior do que julgávamos"



Al Berto



domingo, 24 de novembro de 2013

OPUS




obra, 
sabedoria prenhe de gazelas
sobre folhas caídas do peito

obra imperfeita, perfeita, inacabada e acabada
mantida nas pálpebras,

sobre o chão de folhas
da alma:
inverno nú, ave rasteira à terra

____ave entre as pernas da noite_____

obra acabada. solidão imperfeita:
olhos de água, rasos de auroras 
nunca mais acontecidas.

flores do meu dorso,
em alvoradas desmedidas. 
alvas estrelas de som, em noites imperfeitas

que, na hora de todas as quimeras,
se apoderam de todas as luzes do ventre 
e me tolhem da quieta mansidão do sono.

hibiscos rosa. claridade do sonho:
habitas-me todas as utopias.

desagrega-me. agrega-me à areia do teu corpo.


susana duarte


" Estar privado da esperança não é desesperar. As chamas da terra valem bem os perfumes celestes. " 

Albert Camus


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)



Deita-te aqui - esta noite, dentro de mim,
está tanto frio. Se fores capaz, cobre-me de
beijos: talvez assim eu possa esquecer para
sempre quem me matou de amor, ou morrer
de uma vez sem me lembrar. Isso, abraça-me

também: onde os teus dedos tocarem há uma
ferida que o tempo não consegue transportar.
Mas fecho os olhos, se tu não te importares, e
finjo que essa dor é uma mentira. Claro, o que

quiseres está bem - tudo, ou qualquer coisa,
ou mesmo nada serve, desde que o frio fique
no laço das tuas mãos e não regresse ao corpo
que te deixo agora sepultar. Não sentes frio, tu,

dentro de mim? Nunca nevou de madrugada no
teu quarto? Que país é o teu? Que idade tens?
Não, prefiro não saber como te chamas.

sábado, 16 de novembro de 2013

...

A me piace sentire le cose cantare. Voi le toccate:
diventano rigide e mute.
Voi mi uccidete le cose.
Rainer Maria Rilke

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Voo

rolam céleres, sobre o rosto, as lágrimas 
que, do ventre, nascem: auroras escarpadas
dos meus dedos, onde a vida se tornou mar
revolto, temporal nas veias, tentativa de olhar
de frente as aves, do seu voo saciadas.



Susana Duarte
Foto pessoal
arte 

sábado, 9 de novembro de 2013

Genciana

GENCIANA

queria uma palavra azul para te descrever as sílabas que, de ti, vejo sair,
como aves que exploram o infinito. trémulas, no início, inseguras da paixão;
seguras quando, eternas, se deitam na minha mão e atingem o seu devir.

                                                                                                        eu e tu somos uma flor gamopétala.

descreves em mim linhas. voas-me nos dedos das pálpebras dos sonhos
e procuras-me, no rosto, o sorriso crescente da estranheza-encantamento;
seguras-me as mãos quando navego à procura de sílabas e de medronhos
que descasco, um a um, nas mãos que ocupo com a imagem do teu lamento
quando a vida, por breves momentos, tolheu de nós as palavras e os voos.

                                                                                                     eu e tu somos uma flor gamopétala.

escrevemos páginas de sonhos em folhas de flores azuis e em sombras
de noites irrequietas. Sábias são as cores místicas do sonho – horizonte
onde as asas encontram as sílabas e as sílabas se tornam o teu nome…
és a palavra que nunca se esconde,  a floresta de árvores sem penumbras
onde me deito, aliada das asas de um anjo como se o anjo fosse a fonte
da vida quem em mim almejas. em mim, tiras a sede e matas a fome.

                                                                                                         eu e tu somos uma genciana azul.

do  azul-maravilha e espanto, nasceu uma ilha e a terra de uma sonolência
serena, que nos transformou na etérea luz de uma sombra chinesa, onde
nos escondemos para viver  a esplendorosa cor azul-onírico de palavras-sonho.

Eu, e Tu, somos o Sonho consubstanciado no encontro das marés,

e na confluência dos toques,


e nos remos.


Susana Duarte
Pescadores de Fosforescências
Alphabetum Edições Literárias
Dezembro de 2012
ISBN: 978-989-8590-02-2


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

...em vão...

"Em vão procuramos a presença deste ausente
Sabemos que se ele se manifestasse o mundo não seria o mundo
e a sua presença seria um excesso que anularia a nossa liberdade
Não há contrapartida para o desamparo não há consumação
para o que no existir é a crispada urgência
e a morte é sempre extemporânea"


António Ramos Rosa, excerto


sábado, 2 de novembro de 2013

Solidão


Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"