quinta-feira, 15 de novembro de 2018



eras tu, a árvore da minha vontade
de voar para onde as aves
falam de naufrágios 
e de arribas 
escondidas


pela erosão fácil da alma.

perdi os dias a falar com as ondas,


e as noites à procura do ar
lento que as aves
soletram,

apátridas

como as almas que deambulam
ao largo, onde o sargaço se move
e a praia é um lugar longe.

longe de ti, longe de mim 
e do mundo das pessoas,
procurei ainda a sombra
azul das águas

entristecidas

pelas marés estranhas do ser.

não soube ir além da foz e, todavia,
eis o sorriso fácil da árvore
da vida, nascido
dos teus olhos
e derramado
como luz sobre a maré

onde, outrora, me uni 
às arribas fósseis da vontade
de navegar,

para, em ti, ser soluço,
voz de ave,

maré indissolúvel.

Susana Duarte


sábado, 3 de novembro de 2018

quando vieres, traz os dedos
 da aurora,

e amanhece nas dobras cegas 
do pescoço
onde, ontem, navegaste 
os trevos 
do dia longo
[anterior às mágoas]

florescidos dos teus dedos,
esquecidos dos segredos

[onde as horas não chegam
e os teus olhos me faltam]

Susana Duarte
2017


sexta-feira, 12 de outubro de 2018



aconchego o silêncio
nas palavras sossegadas
pelas lágrimas da noite

encontro-o, cartografado
nas linhas vorazes do voo
sempre que escreves


vozes sobre a pele

Susana Duarte
2015




entre os muros e as heras,
escolho os silêncios 
com que norteias as gárgulas.

entre os muros e os dias, 
antes as marés vazias de palavras.


Susana Duarte

segunda-feira, 24 de setembro de 2018





há um poema por escrever 
onde a vida alucina e uiva,

onde as ondas são marés 
ruivas de desalento, e o poema


decadente
se inscreve nas veias 
azuis de todos os dias.

onde mora o poema, 
demoram-se as aves

apátridas
e os sonhos dúbios
das mulheres. são sempre dúbios,
os sonhos das mulheres.
são azuis e são negros 
e são brancos 
e vermelhos,

os sonhos das mulheres.
como os poemas por escrever,
as mulheres demoram-se
nos beirais dos dias. esperam

pelas aves, pelas palavras, 
pelos filhos, e por serem apenas

isso: mulheres, poemas por escrever,
apátridas como as noites
onde gatos ciciam diálogos

incompreensíveis, e caminham 
sós pelas ruas de antes.

Susana Duarte 

terça-feira, 14 de agosto de 2018

há ondas devassadas
pelo silêncio
das areias,

onde as vertentes úmbrias
derrotam as névoas
e as mulheres
içam memórias

à altura dos seios
inanimados.

as ondas devassadas
falam de gaivotas
perdidas,

voo disperso,
fendido
pelas rochas,

salgada a procura, e
longínquas as asas.

Susana Duarte

domingo, 8 de julho de 2018



(...)

fosses próximo da lava,                                                         e seriam de fogo,
as tuas palavras.                         mas elas são do vento que ondula os oceanos, 
e flui, invisível,                           como invisíveis são as memórias, e, do vento, 
                                                                                  são as palavras. as tuas.

no vento das palavras,                               morrem arribas: encostas do ventre. 
        
                                                                                               fósseis, e nuas.


Susana Duarte
Excerto de Arribas

segunda-feira, 25 de junho de 2018



eis a noite ensimesmada
das bruxas 
e as quimeras vivas:

talvez haja um poema,
ou a sede por escrever.

talvez tu sejas a sombra 
navegante das asas perdidas,
ou o esquálido 
e angustiado nó
deixado vivo nas noites outrora 
agitadas pela ode marítima 
com que me beijavas 
a madrugada.

eis as noites das quimeras,
gárgulas perdidas
onde os nós se desatam,
sedentos, talvez, de deixar
nas pedras as sombras
originais. eis os nós, e as pedras.

eis o ser que se transforma,
e a mulher-rocha das marés.

Susana Duarte

sábado, 9 de junho de 2018

passam os dias nas onomatopeias 
da raiva,
do cansaço,
da exaustão;
por entre os fios ténues

do pensamento à beira do vómito.

povoam os sonhos aves negras 
da raiva das máquinas 
em que nos tornaram, 

céleres, resolutas,
deus ex-machina
omnipotentes, omnipresentes,
desligados da vida

e, sempre, à beira do precipício
profundo das alas da mente
onde a luz não penetra 
e, sombrias,
se insinuam as dúvidas

que as fiandeiras tecem.

Susana Duarte

sábado, 26 de maio de 2018



talvez as ondas

tenham despojado de luz

as estrelas nelas espelhadas.



talvez fosse apenas 

a noite, soprando o mar 

para além do horizonte.



se fosses tu, preencherias

a noite de luz. a não ser que a aurora

se demorasse, a cavalo na noite,

ensombrada pelo receio

de ser um dia novo,



onde os homens têm medo.




talvez as ondas segurem

as estrelas para além do céu, 

quando a noite se demora.



talvez o calor nos devolva o dia, 

e nos dê a exata medida dos sonhos.



talvez tu, na sonora imensidão

das ondas, sejas a espuma 

que delas nasce,



etéreo,


apenas sonho.





Susana Duarte


quarta-feira, 16 de maio de 2018



"What is the Heart? A flower opening.”

Rumi 🌺

domingo, 6 de maio de 2018



por sobre as flores-da-lua
um corpo fascinado
flutua sem pensamento

Matsuo Bashô

.

domingo, 8 de abril de 2018



as aves solitárias
moram na bainha das folhas,
e migram através das nervuras,
e desfolham-se no limbo.
atravessam pecíolos, 
e navegam ondas de som
desfocado. as aves solitárias
moram nos espinhos achatados,
mas almejam a endoderme 
do sonho. moram 
na endoderme do sonho.


Susana Duarte

terça-feira, 3 de abril de 2018



segmentas a noite
traçando caminhos dúbios
onde se sagraram primaveras,

elas próprias desprendidas
do hálito das flores. talvez 
sejas a lua, talvez a noite
-ela própria fracturada-
que se desvia das manhãs


e procura a fresca linha 
radial dos encontros

dos olhares.




vou sentar-me sobre as costas
dos teus olhos, 
e ver-me através deles, sedentos 
das névoas 
das minhas madrugadas.


vou sentar-me sobre
os teus braços e, através deles, 
rever encostas
onde os seios te abraçaram,
e foram eternas
as inermes mãos sobre o dorso.

vou sentar-me
sobre as dobras da tua voz, 
onde o silêncio
me chama e a língua me conquista. 
sobre ela,
desfazer as névoas que, junto ao rio, 
pairaram, no instante do atrevimento.

a língua de fogo
dos teus dedos, sobre a língua de fogo
da água que sobre ti se deita, 
exclamando 
todas as noites
de todas as idades, 
desfiguradas pelo silêncio 
que, sob a chuva, se abateu, pronto 
que estava o sorriso dos lábios, 
pronta a boca
para, sobre ti,

pairar e, ali,

depositar o dia.

Susana Duarte




segunda-feira, 26 de março de 2018



"O cansaço é nascente como o sol"
Gastão Cruz


they leave 
and act like it never happened 
they come back 
and act like they never left


-ghosts

Rupi Kaur
The sun and her flowers

domingo, 18 de março de 2018



poemas são transumâncias
de deuses

pastam nos versos
a infinita criação


valter hugo mãe 
publicação da mortalidade
Assírio e Alvim




se alguma vez me vires em sonhos
sacode-me a terra ao coração




valter hugo mãe 
publicação da mortalidade
Assírio e Alvim

sábado, 17 de março de 2018



invocar o nome ausente
é libertar as asas para um vôo
ao centro das memórias,

onde se arrastam espectros
e pronunciam palavras mortas.


libertar as aves no centro da terra,
quando se invoca o nome ausente,
convoca as dores antigas 
das mulheres ensimesmadas.

são as mulheres que movem
as asas da humana condição.
habitam-nas as estórias 
do amor e do fel, e os cabelos
perdidos, e os dedos suspensos, 
e os corpos dilatados 
de todas as paixões.

é delas, o mundo.

[é delas, o mundo 
a que não pertencem,
nunca, os amores
possíveis],

porque as mulheres são 
impossibilidade,
presente e futuro, 
e as memórias todas
de todas as aves. e todos 
os nomes ausentes
sobre a pele salgada

de ontem.

Susana Duarte




partiste,
e ficaste no recanto escuro 
do teu inferno
sem asas.


não ouses voltar 
a tirar, das flores,
as pétalas.

não ouses roubar 
as asas das borboletas.

Susana Duarte




entre o medo e a sombra, 
a luz lenta
dos braços

(curvos sobre os poros,
e ocultos pela maresia:
algaço
despovoado de ondas)


entre a luz e o nada,
a sombra inequívoca
dos braços,

onda nova sobre a pele,
onde escreves mar 
e desenhas

espaços de sono e de sonho
(e a mulher é
um rifte)

onde inscrevo as pedras

e vou

Susana Duarte


segunda-feira, 5 de março de 2018



“(…)

RAOMOMAR



amor confuso, amor repetido, amor esotérico,

[amor mágico.



– MAR



mar perdido de conchas no meio do mar

mar de marés justapostas de amor num mar

[de marfim.

perdido no teu joelho de marfim.

mar de bosques que anuncia ao estrangeiro

[terra perfumada

oceano no teu oceano de olhar

Isís a mulher de Osíris ? – a realidade misturada.

no MAR.

mar que te apontei do alto da torre coberta

[pelo nevoeiro

pelo avião que atravessa o espaço

pelo incêndio que percorre o mundo

[num autocarro

pelo soerguer do teu corpo semi-quente

[na madrugada



mar azul-vermelho queimado de arestas

mar de dedos frios, de velas sibilinas na noite

[de cristal

mar de sonâmbulos esquecidos a medir o espaço

[com fitas de estrelas

mar de passageiros estranhos e abismados

mar de casas altíssimas onde habitam as cidades



MAR para que não me chegam os olhos

Mar branco de nuvens sobrepostas para lhe

[podermos passar por cima

Mar de esquecimento, de objetos sensíveis

[e distintos

Mar onde guardei o aquário azul que trouxe

[até hoje na memória

e só hoje te espalho para o mundo MAR

onde é possível e provável o envenena

[mento total da espécie.

onde descanso a minha mão esquerda

[sobre uma pantera negra

e todos os dias mergulho em fogo



Amor sem nexo, amor contínuo,

[amor disperso – MAR



mar com uma bala direita no cérebro

mar sem apoio em nenhum ponto do espaço, mas

preso apesar de

tudo numa enorme teia diabolicamente construída

para conseguir

ser livre

mar de submarinos insondáveis que navegam o

infinito do mar

mar espacial de sons, de cores, de imagens, de mil anos passados

que percorremos



MAR que flutua no MAR abusivamente medonho



amor esquecido, amor distante, amor insolente

RAOMOMAR

(…)


António Maria Lisboa (Lisboa, 1/8/1928 – Lisboa, 11/11/1953)
Poeta.

domingo, 4 de março de 2018

Maçãs rubras


Maçãs rubras
(ouvindo Françoise Hardy, “On se quitte toujours”)









as rubras maçãs do sorriso                e as névoas indistintas da memória                 fundem noites
no sangue          púrpura                    do corpo.                             as rubras noites do desejo são riso
e são sombra      e são glória           das costas que se erguem sob o peito obscuro do rio.  noites
brancas do sangue.                corpo exangue  sobre o leito azul.            as rubras maçãs do sorriso
eram manhãs elevadas à eternidade                          dos corpos         dos amantes. os sonhadores
serão sempre a caixa vazia da realidade,             frugal,          desnecessária,         risível,   do leito
                                                                                                                                                                vazio.






escrevi-te nos recantos purpúreos,                     carnosos,                           do corpo e da memória,
onde extingues a vida                       com a ausência das mãos.                               sobra, sobre nós,
                                                                                                                                                              o rio.


Susana Duarte