sábado, 22 de julho de 2017

geometrias



somos em todos os lugares 


onde fomos geometrias 


dizentes,

simetrias

de corpos adjacentes, 
nascentes de tudo



e sementes de nada


somos, em todos os lugares 

onde fomos chão,


compostura,

expiação,


procura absurda dos olhos
grandes 

que os seios
ocultam.




somos, em todos os lugares,


interditos
entre-ditos
entre dentes


flores rasas de cada manhã-
rasas como os voos longos


das asas que não me dás.


Susana Duarte 



domingo, 16 de julho de 2017

lembrei-me de ti



lembrei-me de ti,

na sala limpa de nuvens e de palavras
[sobraram pensamentos
onde impera a imagem,
a do teu sorriso,
a das tuas mãos que criam]

as mãos que as notas de um violoncelo

quiseram alinhar entre os dedos
curvos 
da minha mão.


lembrei-me de ti,
e não era a hora dos malditos,
ou a das quimeras.


era a hora vigésima quinta,
ou a das trepadeiras
e dos sonhos por inteiro.


lembrei-me de ti - visão que se impõe 
onde as palavras sussurram o corpo-
profundo e interior, o corpo- 
e o desfazem por dentro.



lembrei-me de ti
(o que fará a escrita na pele?)

Susana Duarte


quinta-feira, 13 de julho de 2017


Sofre mais quem espera sempre 





Ou quem nunca esperou ninguém?





[Pablo Neruda, O livro das perguntas]

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Who expects small things to survive when even the largest get lost?
People forget years and remember moments
-Ann Beattie



quinta-feira, 6 de julho de 2017

Non si può amare solo con la voglia di amare.
Con il voler amare.
Con il voler restare.
Con il crederci.
Con io lo amo.
Perché poi non basta.
Non regge.
L’amore non basta per amare.
Bisogna che ci sia la storia, per amare.
La vita, per amare.
Non bastano le parole, per amare.
Neanche quelle giuste, bastano.
Neanche le parole d’amore bastano per amare.
Dobbiamo fare una passeggiata.
Dobbiamo cenare insieme.
Leggere un giornale.
Andare a fare la spesa.
Fare una cosa insieme.
Che sia nostra.
Che siamo noi.
Io e te.
Non basta fare sesso per fare l’amore.
Anzi.
Ci vogliono i baci.
Ci vuole anche solo stare con la fronte appoggiata alla fronte.
Per amare ci vuole una storia. Da vivere. Vissuta.
Ci vuole tempo.
Non puoi non esserci mai.
Per amare ci vuole una storia. Da fare e raccontarsi.
Non puoi non aver voglia di parlare.
Non puoi parlare sempre.
Una storia da fare insieme.
Non puoi trovare tutto pronto.
Arrivare quando tutto è fatto.
Io amo solo chi fa la giornata con me.
Chi fa la vita con me.
Chi fa la spesa con me.
Chi fa una passeggiata con me.
Chi fa tempo con me.
Chi fa storia con me.
Non amo se no.
Amo solo chi sa stare tutto con me.
Chi parla con me.
Chi torna da me.
Chi chiama per non dire niente.
Chi mi bacia la testa, tra i capelli, passandomi vicino.
Chi mi porta i capelli indietro.
Io non le voglio le romanticherie.
Voglio le cose che sono nella mia giornata.
Voglio che sono con te.
Fatte con te.
Raccontate a te.
E poi ti racconto le cose solo mie.
Che faccio io.
Entro e esco dalla tua vita.
E tu dalla mia.
Come l’ago che cuce .
Come l’ago che per unire, entra e eSCE.

Frida Khalo

     

terça-feira, 4 de julho de 2017

procuro folhas por entre o sal
e o fogo
da existência das noites

e sei do sal e do fogo

das ausências,

como se fossem vida e morte
e toda a noite que temos dentro

ainda que dela fujamos.

sei da noite e do sal,
como sei do azul e dos teus dedos,
sabedores do sabor dos meus segredos

e das toadas e
das luzes
e das vielas

serás sempre o sal e o sol e o fogo
e todas as ruas por onde caminho

susana duarte

...da beleza, e da música coimbrã...

NEM SEMPRE





Nem sempre o amor
é uma janela aberta
ao sol dos dedos


à intensa e carregada
floração dos lábios

mas também o instante
de silabas de espanto
onde o silêncio faz cama.

Joaquim MONTEIRO
2017-06-30
(© todos os direitos reservados)

https://www.facebook.com/joaquim.conceicaomonteiro?hc_ref=NEWSFEED&fref=nf



segunda-feira, 26 de junho de 2017



Caresser quelqu'un jusqu'à le débarrasser de son angoisse, pour toujours.

Peter Handke

domingo, 18 de junho de 2017


dizer os nomes
e as memórias onde,
vivo, o grito sobe


as encostas 
e os braços,


na procura do oblívio


sexta-feira, 16 de junho de 2017

eis o grito, a laceração
da voz, onde a alma
demora o uivo

eis o grito, indiviso,
rocha onde a voz
quebra o riso

eis o grito, o uivo
que repele
a noite


Susana Duarte


quinta-feira, 25 de maio de 2017

"I don't need to manufacture trauma in my life to be creative. The world give me a reservoir of sadness or emotional trauma"

|Sting|


quarta-feira, 17 de maio de 2017

há um poema por escrever onde a vida alucina e uiva



há um poema por escrever 
onde a vida alucina e uiva,

onde as ondas são marés 
ruivas de desalento, e o poema

decadente
se inscreve nas veias 
azuis de todos os dias.

onde mora o poema, 
demoram-se as aves

apátridas
e os sonhos dúbios
das mulheres. são sempre dúbios,
os sonhos das mulheres.
são azuis e são negros 
e são brancos 
e vermelhos,

os sonhos das mulheres.
como os poemas por escrever,
as mulheres demoram-se
nos beirais dos dias. esperam

pelas aves, pelas palavras, 
pelos filhos, e por serem apenas

isso: mulheres, poemas por escrever,
apátridas como as noites
onde gatos ciciam diálogos

incompreensíveis, e caminham 
sós pelas ruas de antes.

Susana Duarte

terça-feira, 7 de março de 2017

os afluentes da noite são ecos
soltos sobre mim. de ti, nada mais resta,
senão a imagem que guardei no corpo.
os rios que me navegavam eram, apenas,
ecos das águas, e o meu corpo
guardou-te, para te perder depois.

sobram ecos esquálidos das vozes
com que me preenchias. não ficaste e,
 todavia, esperei por ti. lívida, cadáver vivo
que se desfaz em cada uma das tuas palavras,
eco adiado dos meus anseios. os afluentes
da noite são rios sem voz. perdeste os meus gritos. perdeste a foz.

nada te resta, senão olhar-me de longe.
sabes que habito outro plano, o do dia
e da luz com que prossigo, todavia,
sobre as flores submarinas. nada te resta, senão as lágrimas e o arrependimento. talvez possas ressurgir, noutras vestes,
noutros seixos. mas serás sempre a sombra,
a vida incompleta que se declina
nos lugares que já não procuro.

Susana Duarte

quinta-feira, 2 de março de 2017

de todos os momentos que foste, talvez não saibas ainda que o mais belo foi o momento que antecedeu o beijo. foi o momento que antecedeu, e não o beijo, que mudou de lugar as madrugadas, moveu o ar das noites e o luar das minhas manhãs. de todos os momentos que foste, o mais belo foi a antecipação do futuro, ainda que, depois, se tenham perdido todas as madrugadas das mãos. de todos os momentos que foste, o mais belo foi aquele em que o abraço antecipava amoras, e as amoras eram beijos rubros tingindo a manhã. de todos esses momentos, foste apenas um raio de sol perdido entre os meus olhos. nada mais foste, pois não soubeste raiar de luz as escolhas da tua vida. de todas elas, a mais fácil foi partir. de todas elas, a mais imperdoável, foi partir. dos teus dedos, nada mais ficou dos momentos que antecipavam o beijo, senão a mágoa das noites sem dia, e dos dias em que te foste. de todos os momentos, a maior mágoa é não teres sabido ser. de todas as madrugadas, esta será a mais triste.

Susana  Duarte

quarta-feira, 1 de março de 2017

[silêncio]


os sons da pele
sonham mãos
que dançam

(silêncio)

nos cílios
adormecidos
volteiam mãos
(inertes)


as mãos todas
sobre a pele


(outrora)

viva 

Susana Duarte




domingo, 26 de fevereiro de 2017

o silêncio nos corpos

(e os corpos em silêncio)

demora as aves
e a floração das rémiges.

o silêncio das asas

decompõe as margens
por onde, silentes,
se cruzam os corpos

(talvez amanheça)



Susana Duarte

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017



"Acima de tudo devemos recordar o seguinte: a magia pertence tanto ao coração como à mente e tudo o que é feito deve ser fruto do amor ou da alegria ou da justa cólera. (...) iremos descobrir que a nossa magia é bastante maior do que a soma de todos os feitiços alguma vez ensinados. Assim, a magia é para nós o que o voo é para as aves, porque deste modo a nossa magia provém do coração, sombrio e sonhador, tal como provêm do coração o voo de uma ave. E ao praticar essa magia, sentiremos a magia da ave quando se lança no vazio, saberemso que a magia faz parte daquilo que é um homem, tal como o voo faz parte daquilo que é uma ave (...).





Livro de Lady Catherine Winchester- 1209-67, in "As Senhoras de Grace Adieu, de Susanna Clarke


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

PEDRAS

não posso escrever sobre as pedras

escreverei sobre a pele: a pele dada
em noite de brumas, vivida em solos de
espumas, brancas, da maré que em ti fui.

não posso escrever sobre as pedras

escreverei nos teus olhos as noites
serenadas sob mãos cansadas dos dias
e sôfregas de noites claras. em ti, ainda,

a avidez solitária do lobo que caminha
e devasta desertos de ervas poeirentas,
delas afastando as pedras, piroclastos
da existência, quando, inesperadamente,
a vida nos deixou escrever sobre o pó.

não posso escrever sobre as pedras

antes a luz clara do papel dos teus olhos,
a luminosa sabedoria das palavras
silenciadas no beijo claro que me deste.

escreverei esse beijo em cada olhar
dirigido ao céu que miras, aí, a oriente,
perscrutando o sonho e glorificando
o que antevês em cada movimento,
e nas pegadas de caminhantes invisíveis.

não posso escrever sobre as pedras
caídas dos teus olhos sobre o ferro duro
da existência. mas posso escrever no peito
as noites infindas da memória, tornando-as
sal da existência, caminho onde caminho,
as noites todas da minha vida, e a indefinível
paixão com que delimitas o espaço onde existo.

Susana Duarte

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Camminavamo senza cercarci, eppure sapendo che camminavamo per incontrarci.

Julio Cortázar


domingo, 12 de fevereiro de 2017

falo-te de ti, e falo-te de mim



falo-te de ti, e falo-te de mim. 
falar de ti, é falar das noites claras da procura, e das luzes incendiadas pelo retorno. 
falar de mim é falar do sabor e do saber feito de dores paridas pelos joelhos da solidão. falar das sombras desfraldadas pelas flores, é procurar, nelas, as vozes que são tuas, as vozes que são nossas. e é percorrer amargas colinas de amendoeiras cujas flores ficaram aquém das aves. 
falo-te de ti, e falo-te de mim. 
e nomeio as luzes das coisas estranhas. nomeio as levadas de águas fugidas do musgo onde deitei os braços. agarrei-me ao invisível, ao sagrado, ao noturno, para reencontrar as linhas de ferro de todas as partidas. falo-te dos prados e das ruas ascendentes do esvozeamento da voz. e do enchimento da mágoa. e do espanto sereno de te procurar sempre, nas ruas desavindas dos espectros e dos saberes das feiticeiras. 
saberes dos dias, nada te ensinou sobre as noites. saberes das noites, nada te iluminou os dias. permaneceste água fugidia e mar revolto em contradança. 
os passos das bailarinas são vozes sem cor. entregas-me as mãos. de súbito, tremem as nozes no ventre da terra. e voam aves ao núcleo do sagrado. depositas flores nos lábio, e entregas lábios ao vento. vento. voa. sê. desflora as florestas encandeadas por tremores ocultos de outras eras. 
falo-te de ti, e falo-te de mim. não sabes que a cor dos olhos é a mesma das dúvidas. não sabes, ainda, que a cereja que comes, é a rubra transição do sangue sobre mágoas milenares. mas sabes que as noites, e os dias, sucedem-se na imensa perturbação do tempo, e na perpétua vontade de sermos aves, e na inscrição deixada nos nenúfares, e no sol de todas as palavras que, antes, dissemos. palavras. estranheza no ventre. desassossegada inevitabilidade. sofreguidão dos dias de sol. ser, em cada um de nós, o som de todas as primaveras anteriores.

susana duarte



saltei pontes navegando rios de nuvens
e flores de estrelas gastas 
e átomos de momentos sós. 
fui noite na lágrima escura da ausência
e mar revolto nos momentos da tempestade
de uma lua inquieta. saltei ribeiras 
na procura de diamantes 
e flocos de neve escondidos 
sob a areia dos elementos:nós.
serei, ainda, por momentos, a chuva
por cumprir, e o ar dos dias que passei, 
e a evidência da procura das mãos
e dos rostos. sós. procuramos arco-íris 
na calada da noite e, atrás de cada um, 
vislumbramos a serena agitação da paixão.
procuramos diamantes residentes
na praia de areais revoltos pelo vento
do olhar. somos. somos a ânsia do repouso 
no olhar de cada um e a precisão do relógio
da vida que nos cruzou e decidiu.
serei sempre aquela mulher
que salta pontes sobre rios de nuvens,
e flores de estrelas gastas, e átomos
de momentos dispersos na eternidade.
nesse ser, serei procura.
encontras-me onde os olhos te dizem 
do meu olhar, e onde as nuvens 
me cobrem por inteiro; onde gatos 
passam nas ruas e se cantam fados
e mulheres nuas se revelam 
dentro dos corações íntimos da noite.



Susana Duarte


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Dandélio, Coimbra

O Colégio Dandélio resultado de uma iniciativa da APPACDM, disponibiliza à comunidade local um novo espaço dedicado ao desenvolvimento infantil, que se pretende pedagogicamente diferenciado, acolhendo uma creche e um jardim-de-infância.
O edifício está construído em terreno urbano, numa encosta da cidade de Coimbra e o seu desenho procura compatibilizar a resposta ao programa funcional com o respeito pela morfologia envolvente, embora sugerindo novas regras arquitectónicas. As restrições orçamentais foram também determinantes, resultando numa estrutura modular que se reflecte na própria fachada. A acessibilidade universal é especialmente importante neste âmbito e, nesse sentido, eliminaram-se quaisquer barreiras físicas que constituíssem obstáculos à livre circulação de todas as crianças, garantindo que, apesar do projecto se desenvolver em dois pisos, se reservavam ao piso inferior áreas de serviço como balneários do pessoal, lavandaria, arrumos e garagem coberta libertando-se o piso térreo para reunir as principais áreas funcionais do programa.
A organização cruciforme da planta permite que o átrio comunique directamente com as áreas comuns – salas de professores, administração e instalações sanitárias acessíveis – bem como com a creche e jardim-de-infância. A Creche, destinada a crianças até aos três anos de idade, inclui um berçário, copa de leite, zona de higienização, sala-parque e duas salas de actividades. À excepção dos sanitários dedicados, todos os espaços comunicam entre si e permitem a observação e controlo permanente. Por sua vez, o jardim-de-infância reúne duas salas de actividades, instalações sanitárias, sala de refeições e sala polivalente, sendo que estas duas últimas são espaços partilhados que, através de divisórias amovíveis, permitem a sua utilização autónoma ou em conjunto, beneficiando ainda de uma relação directa com o espaço de recreio coberto.
No interior, o pavimento vinílico azul e a cor natural dos elementos de carpintaria destacam-se dos restantes materiais cuja predominância do branco pretende criar uma plataforma neutra interactiva apropriável pelas crianças. O recreio exterior apresenta-se vedado pela arquitectura do edifício e pelos muros que delimitam o lote. Tem exposição solar privilegiada, acesso directo a partir das salas de actividades e, através de uma rampa, dará acesso a um segundo espaço de recreio, a localizar à cota baixa do logradouro, que incluirá as hortas pedagógicas que complementam as actividades lúdicas no exterior.
A Criança está no centro de todas as decisões relativas a este processo, e esse cuidado manifesta-se quer na atribuição da melhor exposição solar, ventilação natural e contacto com o exterior às salas destinadas à estadia das crianças, quer em momentos arquitectónicos singulares, como a dupla escala dos vãos exteriores, que resulta na imagem de marca deste empreendimento.







Fonte: Do mal o menos, blog de Arquitectura (http://www.domalomenos.com/)