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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

 chama pelo meu nome,  quem me dera ouvir-te chamar pelo meu nome            como chamaste 

as aves sem céu,             as aves perdidas 

sobre o vôo lento das ondas, as aves em mim contidas e em ti nascidas,      as aves, as flores


tantas flores, as tuas amadas flores, 

as tuas amadas aves, em cada uma das manhãs 

    reclamadas pelo sangue

        dos dias, recompensados pelo encontro 

 e pela suavidade de terminar, nesse encontro,

          a tua solidão diária, eterna, só como o meu nome, que me deste e que é teu


chama-me pelo nome, chama-me, em sonhos talvez...chama-me, ouve-me as súplicas e olha para mim.                  em todas as auroras

percebidas e, sobre cada uma 

das manhãs antecipadas pela lágrima 

    chuvosa da ausência,    constrói-me os dias 

      

              da redenção. constrói -me os dias, fala comigo, diz-me que sabes que mudou tudo 


e oprime as lágrimas, as minhas. 

       devia oprimi-las, por te saber serena, sorridente, saudável, plena como eras

antes dos dias, 


daqueles dias, 

dos anos roubados pelo medo e pelas veias e pelas tonturas, antes desses dias, eras feliz e    

               

             sorrias.


digo o teu nome, e corre por entre as ruas

             a sombra  da sombra do meu ser antigo,

aquela que eu era, sem saber o que era, 

e agora sei o que queria, só agora que não te tenho perto, nesta maldita segregação dos  

   corpos 


e dos olhares. movo-me 

     sobre a lâmina fina da tristeza, onde me dizem que não posso, que o tempo, 

        que o tempo.....o tempo, nada! o tempo não sara, não cura,       não aquece


o tempo, nada! 

parem de me dizer que o tempo

o tempo

o tempo


quando o tempo...nada! 

o tempo rouba, roubou-me a alma 

      escrita numa noite 

    número sete, quase 8, de um dia roubado ao tempo que me dizem ser a cura. a cura de quê? 

a cura? voltas? voltas desse dia 7, desse dia quase 8, morte prematura no dia nascituro 


de um destino que eu não quis, 

que eu não quero?


sabes onde estou, porque caminhas

    por entre os ares e as luzes e as gotas 

das águas desafiadas         pela conjunção das imagens

        que nos povoaram             os dedos

e que, agora, me deixam por entre flores 

     solitárias e aves que oiço a querer 

que as ouvisses. e não te oiço, e desespero


e quero-te aqui, aqui, por entre os vasos 

que multiplico desejando que os vejas


e apenas os dedos multiplicam

      manhãs novas e gritos lúgubres na pele de ser ave que não te vê.


chama-me. chama-me.


Tua filha, para sempre.

domingo, 20 de setembro de 2026

 não sabia que se podia morrer assim,

            pausa                     num traçado ondulante


onde um coração deixa o mundo suspenso

         -suspensa eu num segundo eterno-

e suspende o ar que os outros 

                    respiravam


sem saberem que se podia morrer assim,

numa queda desamparada

num segundo desamparado

numa alma desamparada pelo medo 


de morrer assim,  


desamparada        como uma ave caída,

queda surda num chão inexacto e diagonal,

surda como o espaço ao lado        onde

ouvidos não ouviram 

sentidos não sentiram 


mas os olhos viram    como é morrer assim


     desamparados que ficam os braços 

no desalento de perceber 

que se pode                   morrer                assim


[eu não queria saber,    eu não queria ver,

     eu não podia perder quem me ensurdeceu

o coração        por morrer assim]


Susana Elisa 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

 esquece o mundo


e acomoda a respiração no seio da noite

    que perdura.


esquece a noite, desfaz os nós 

    do silêncio com que passaste e habitar


as minhas veias,

e visita-me em sonho;            visita-me 


e sussurra as palavras que me dizias

quando os dias pareciam tão infinitos 

                 como o tempo de te ter comigo


      diante dos silêncios 

que a vida me impôs.


esquece o mundo e chora,

   acomoda a respiração de que já não és capaz


e diz-me que tudo isto é tão irreal

quanto as aves                no inverno

ou as flores de açafrão -bravo     na primavera.


esquece o mundo


       e dá -me ar.


Susana




sexta-feira, 14 de agosto de 2026

 





🤍

as casas feitas de silêncios

são            guardas das memórias,

espectros vivos

  de amores infinitos


      de  fendas      

           de cisões   


                 e  das alegrias 

contidas nos gestos simples 

      com que se construíam os dias


🤍

as casas, e os seus silêncios,

      ofuscam as ténues linhas


que, outrora, ligaram corpos

    geométricos

         adjacentes

              laterais a si mesmos onde as quedas


prenunciaram a queda do corpo

           

                          no invisível 


🤍


as casas,           feitas de luz 

         quando as sombras as dominam 


      

         são ecos distantes das vozes

de outrora.


é aí, nas casas prenhes de memória, 

  

            que se aprofundam solidões.


🤍


Susana Duarte



sábado, 25 de julho de 2026

 quantas mortes cabem 

no coração dos pássaros? quantas mortes?


quantas vidas esmorecem 

em cada vôo? quantas? quantas plúmulas há 

no vôo errático de cada ave


lançada, como semente, nos dias

pardos da existência? quanto negro veste 

os dias, quando o negro veste o peito das aves?

quanto negro?


quantos dias temos por contar?

quantos meses, quantos anos, 

se o que sentimos é eternidade e vida e sangue

nos passos que damos?


quantos sorrisos sobejam,

quando as tristezas nos vestem de cumplicidade 

ante a finitude? quantos?


quanta vida nos sobra

para sentir cada raio de sol sobre o rosto?


quantos corações têm os pássaros?


Susana Duarte 


quarta-feira, 22 de julho de 2026

 Maria Elisa Ribeiro 🙌 🤲 ✨ 


a Palavra Mãe beija-me os olhos:


eis as lágrimas fugidas dos rios 

desviados da voz que não ouço; eis as palavras que não me devolvem o Tempo 

de semear cerejas 

e colher Alegria.


nas batidas cardíacas do dia, procuro

o Olhar do Reencontro, a luz, o abraço terno 

que de ti nascia, garça verde 


que se alimentava de água, bebendo nas gotas 

da noite a Palavra que celebraria 

em cada Lua Nova.


queria  semear as tuas palavras

na voz do vento, para delas me nutrir

e  encontrar Alento. queria ouvir a tua voz.


é no teu nome que adormeço, silente,

onde o sal dos olhos me entristece os dias.


a Palavra Mãe beija-me os olhos:


cegos,

escassos, desconhecedores 

da imensidão do que antes me era ignoto-

a tristeza de não te amparar os passos. 


na hora da partida,

o ser humano que mais dificilmente perdoamos 

é a nós próprios. somos vãos. 


não somos nada, quando os lábios 

da Mãe deixam de nos beijar

os olhos sedentos.


Susana Duarte 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

 sei das rosas que amavas

e da delicadeza do toque,

ainda que as memórias 

obnibuladas pela dor,

se ausentem de mim.


soubesse eu de ti, e dar-te-ia

as mãos e os abraços 

e os sorrisos e as carícias  

a que, ainda ontem, assisti 

na missa sagrada: uma mãe,


mão dada com a mão da filha:

movimentos carinhosos 


e as lágrimas dos meus olhos


ora acesos,

ora apagados,


tristes olhos, os meus, sem ti

triste persona, a minha, sem ti.


perdoa-me, filha, 

por querer ser mãe e sentir tanta falta

da minha. nos abraços que me dás 

e me completam, 


               incompleta que estou


sem os braços de quem me chamava 

filha, oh filha, Susy, sinto -me tão só,

assim me sinto eu, a tentar a alegria


na ausência excruciante da tua voz.


Tua filha

☄️Minha mãe, minha estrela 🌟 no céu infinito que te acolheu ✨

 chama pelo meu nome,  quem me dera ouvir-te chamar pelo meu nome            como chamaste  as aves sem céu,             as aves perdidas  s...