segunda-feira, 30 de março de 2020


és translúcido, 
uma fina camada de nada 
sobre a pele.

vives entre a pele e a dor,
navegando o suor
e as noites desenhadas
sobre os dedos, ou
sob a camada fina da alma.

és translúcido,
e deixas desertos de nada
onde outrora pousou
uma borboleta.

a impossibilidade é um oceano
de espuma e algaço,
debicado por uma gaivota
sem uma asa.

Susana Duarte
30/03/2019



domingo, 8 de março de 2020



o poema desorganiza-se,
observando o voo das aves trémulas.

é um poema-ave, o que se fractura
nas encostas das manhãs
seguras.


Susana Duarte

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020




há um poema que não foi escrito,
e uma flor por nascer

entre mil olhos sem palavras,
o rosto ambíguo da vida
devolve os sentidos

e as palavras sem eco

ficam, então, por dizer, os rostos
dos amantes e os dedos
das mulheres- tão ambíguas
como a vida cujo rosto
escreve poemas



Susana Duarte


domingo, 29 de dezembro de 2019

Mágoa
(ouvindo «Corpse Bride, piano duet»)

acendeste mágoas                onde os seios descansam

amas como as metáforas          das romãs,   
e sabes ainda a noite,

e sabes a dia,        e sabes às manhãs ígneas
da abertura dos olhos                 e das nuvens brancas.
acendeste mágoas, e por isso, sabes aos dias
de antes,                 e ao esquecimento, depois.

sabes às dores do peito,          incendiado pela solidão  das noites,         onde as sacerdotisas nasciam,            fluxos de terra,         e de seiva, e de luz.                               sabes a tudo,
e sabes a mágoas        acesas          pelo fluxo 
                                                   da noite.

acendeste as águas do ventre,      que depois calaste                            amas como as rubras
manhãs do desejo,              e sabes às maçãs colhidas no arco da primavera;             

revejo-te,                   obelisco erigido em mim,               

                    culto das manhãs onde te espero.

Susana Duarte


terça-feira, 17 de dezembro de 2019


preciso do silêncio,
das aves

e da solidão nomeada
pelas sílabas
largas

do vôo por fazer.

preciso da sombra que nasce
da insuspeita asa
da árvore

que traduz o ar
e perpetua a vida.
preciso, enfim, da asa branca
das névoas quando o mar 
incendeia as arribas,

derruba os fósseis
e reencaminha o ímpeto de viver.

é sobre o totem vivo
da tua vontade que me ergo.

diz-me onde estás. 

Susana Duarte


quinta-feira, 12 de dezembro de 2019



a invenção das aves
nada ensinou sobre o desapego.

trouxe consigo a lucidez das águas,
a trégua entre a nascente e a foz.
nada disse sobre a vida anaeróbia
dos sobreviventes. nada disse
sobre a perda da voz. as aves são
entidades abstractas: nomeiam
as ilusões e apegam-se


às rochas erodidas, onde o vôo
é abismo, interdito, drama
e redenção.

Susana Duarte

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

cabem todas as vozes
no peito ávido dos olhares
trilhados pelos caminhos longínquos
                                        e pelas ondas.

cabem todas as mágoas
nos olhares das aves, e todas as aves
nos olhares                      das mulheres.

no desassossego do voo,
existes tu, folha caída de uma árvore
sem raízes. existes onde as águas
desassossegam o mar líquido
do ventre, e as folhas
perenes agitam
                                              as sombras.

não existe nada, para além das aves,
e das ondas, e das sombras...
talvez existam                   as memórias,

as folhas caídas e
o que fomos ontem:.         um homem,

e uma mulher -         atraídos pelo vôo
das palavras que, por serem ditas,
soavam a                             eternidade.

Susana Duarte

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

um dia, esquecer-te-ás do meu nome:
lembrar-te-ás que nos conhecemos
no lado solar de uma estação de comboios,
 por entre passos soletrando a solidão. clamarás o nome antigo das horas passadas
no silêncio dos corpos, e serás triste
como os olhos que deixaste.

um dia, esquecer-te-ás de que fomos
um, tropeçando nos dedos como quem ri,
e nos corpos como quem tem fome 
e sede e desespero, ou a impressão 
digital de lutas antigas; ainda te lembrarás
das palavras, mas nada terá o sal e o sangue 
e o fogo dos dias tornados perenes 
num seio frio.

partiste e, como quem parte,
deixarás para sempre os lábios de outrora,
interditos como as auroras que viste
nascer; serás sombra, e pó, e o piar das aves
sem sonhos, ou um vôo sem plúmulas.

serás, enfim, a sombra do sonho e o uivo
negros dos olhos-os meus- que fechaste
numa tarde inícua, naquelas linhas escritas
a ferro, onde as lágrimas não bastaram. 

Susana Duarte

domingo, 27 de outubro de 2019



o corpo pobre em poemas
desfaz a água caída
sobre o ventre,
conduz as luas à queda


abrupta

sobre as vertentes úmbrias,

e liquefaz as certezas,
transformando-se em algoz

de si mesmo,
isolado, desolado, perdido
e naufragado nas palavras
ausentes

Susana Duarte

sábado, 28 de setembro de 2019

és como as flores ausentes
de todas as primaveras 
anteriores: o mar de pétalas 
que desconheço. és, ainda,
a vaga impressão digital
sobre os ombros - a trémula
navegação do frio sobre
a pele incerta que me cobre
os dias. és a névoa húmida
que percorre os olhos, nos dias
ávidos de saber o nome
das entranhas, dos poros
e da celeridade das noites.

Susana Duarte


segunda-feira, 23 de setembro de 2019

i felt like you threw me
so far from myself
i've been trying to find my way back ever since

Rupi Kaur


domingo, 1 de setembro de 2019



o poeta é o silêncio 

com que ele próprio se escreve

diante de um espelho,


a alteração à norma

e o anátema com que descreve

a palavra proibida:


lúmen.






Susana Duarte

segunda-feira, 19 de agosto de 2019



deixar os dedos onde as árvores falam

e as aves calam memórias, mantém vivos 

os nós dos dias e a imprecisão dos sonhos.




não sei de onde vêm as absurdas imagens 

que persistem nas veias, ou as fotografias

tiradas sob a luz esmaecida dos tempos.deixar

as aves calar as memórias, desabita a retina 

e deixa vítreos os grãos de areia- outrora 

revolvidos por mãos ansiosas, ágeis,

descomedidas nos toques e na procura 

dos corpos; outrora absurdas, as veias

ondulantes, mulheres desmedidas e intensas 

na avidez dos olhares. mulheres. grãos de 

areia nos corpos amantes, vítreas nos olhares

com que se estendem, aves elas próprias, 




na ignomínia dos abandonos.




Susana Duarte

2016

quarta-feira, 14 de agosto de 2019



as casas feitas de silêncios

são sombras das memórias,

espectros vivos

das fendas

e das cisões.




ofuscam as ténues linhas

que, outrora, ligaram corpos

geométricos,

adjacentes na procura

do sal e do suor.




as casas feitas de luz 

são ecos distantes das vozes

onde se aprofundam solidões.




Susana Duarte

2018


segunda-feira, 12 de agosto de 2019



antevi as mágoas, por entre as palavras:

o vôo raso das aves entreteceu os dias

sobre a pele gasta. antevi as névoas

entre os momentos sombrios da tua boca.




não antecipei, todavia, a partida, 

a morte lenta das frases, o poema 

quebrado na raíz das árvores, 

as areias dispersas da tua vontade,

ou o rumo sem rumo dos corpos;

a vontade etérea da tua boca, a palavra

dispersa do pensamento, e a vaga 

sombra que terminava o teu sorriso.




o vôo raso das aves espalhou a sombra

breve sobre os meus braços, e a vaga

que daí nasceu sobressaltou-me 

as pernas, emprisionou-me os braços,

deteve-me as palavras. assisto, sombria,

ao que dizes. estranho-te o vôo. nada 

sei de quem foste. de quem és. de quem

terias sido, caso o vôo fosse aberto, 

levado por vagas de ar, por ondas

ou por totens localizados no peito.




Susana Duarte


domingo, 11 de agosto de 2019



é breve o sussurro, 

tanto quanto a gota de chuva que invade

a noite.




é breve a noite das mulheres,

e as suas asas são tão curtas

como as horas




e as tréguas.




Susana Duarte
Agosto 2019





surpreendes as memórias,

num presente anunciado:

todo o tempo é terreno,




todo o mar salgado

é uma ave rara




por cumprir. 




surpreendes, todavia, as memórias

e acordas as navegações

de um ventre oculto




onde as palavras mortas

recuperam a água

e renovam o vôo.




são águas novas,

as que se sobrepõem à morte.




são vôos novos,

de aves antigas. são vôos

delicados de aves temerosas.



são os dias

de agora. são os dias 

das deusas e das estações.

são os dias das quimeras,



onde as aves atrasam o vôo

e as mulheres se entregam às nébulas,

tao rarefeitas como elas




Susana Duarte

2017

quinta-feira, 18 de julho de 2019

“Peace is always beautiful.” 
― Walt Whitman, Leaves of Grass


domingo, 14 de julho de 2019

agora que o silêncio permite ver
o tamanho das mágoas, 
segue-se uma nova 
madrugada.

foste a aurora prometida, onde 
hoje reside apenas a memória.
foste a abertura dos olhos,
onde as aves dispersas
pediam voos novos;

foste, na manhã, a promessa 
antiga. ao silêncio de hoje,
entrego as promessas 
e os passos perdidos.

agora que o silêncio permite ver
o tamanho dos corpos,
sigo o caminho 
desenhado pela deserção 
dos braços. permaneces onde 
as sombras caminham. 

desapareces dos dias 
como, nas noites, transformaste
a tua presença na névoa
ambígua das bocas 
sem voz. o silêncio
de hoje desenha a amplitude
de um céu novo-

quimera desenhada 
num corpo por cumprir.

Susana Duarte


sábado, 13 de julho de 2019



escrevo a sede sobre a pele,
onde desenhaste água e frutos.

não sei onde estás,
fendida a rocha de onde nasciam
as águas, e as manhãs
do corpo


(onde?)

escrevo a sede nos meus lábios,
e procuro a barca da aurora
que me prometeste.

a madrugada cessou 
onde a água caiu sobre os ombros 
(nus) de uma noite qualquer.

tu não voltaste,
deixando acesa a sede 
e o fogo, a água e a noite,
a madrugada
e os ombros.

escrevo a sede sobre a pele
rarefeita, onde a água
se desvia e a noite 
atravessa o ar

decomposto
das almas insaciáveis.

Susana Duarte

sexta-feira, 14 de junho de 2019



és inconstante como as nuvens,

e discreto como as aves. és 

a solução última das águas,

que se apartam quando as rochas

fendem os futuros e alienam

os rios. queres o meu silêncio,

tanto quanto queres o meu grito.




não sabes, ainda, para onde vais.

és inconstante como as nuvens,

e belo como as ondas. talvez

caibas onde não cabem sonhos.




sei que permaneces navegável,

apesar da distorção da rota, 

e que as rotas são como veias,

esculpidas, improbabilidades

de um peito desenhado, vermelho

e áspero como as noites frias

de um inverno qualquer.




és inconstante como a maré

jovem que te trouxe até mim,

e improvável como as manhãs

que habitei nos dias de antes.




talvez saibas onde me encontrar.

eu ainda não sei qual foi a maré

que me trouxe aos dias que habito.




Susana Duarte

terça-feira, 11 de junho de 2019



vou esquecer os sonhos de ontem,
como a madrugada desoladora 
se despede da noite:

deixando os pés onde os passos 
são perdidos, e os corpos
se apartam da pele.


vou esquecer a madrugada
como a ave se despede da primavera:
também eu migrarei

para o lugar do oblívio,
onde me deixas a cada palavra.

Susana Duarte


segunda-feira, 10 de junho de 2019



ESPELHO

Iças-me o corpo 
na noite rubra 
do desejo.


Iço-te o desejo 
na noite rubra 
do corpo.

Susana Duarte

domingo, 9 de junho de 2019

a antecipação do beijo teve o sabor
das cerejas rubras dos teus lábios.
é nos teus lábios que penso,
quando falo de tardes encantatórias
e do acordar das mãos.
são tuas, as mãos que ladeiam
os lábios e encantam a língua
que, fresca, amanhece
o corpo.

a antecipação do beijo é, ainda,
a manhã clara do teu nome. tem a cor
encarnada da paixão com que soletrei
a chegada do teu sorriso. não sabes ainda
das ondas convulsas que o nome
convoca, nem das águas detidas
no olhar, quando penso em ti.
tu, nascente dos dias descerrada
da pele, escreves na minha boca
o nascer radioso do dia.

raiaste de vermelho o florir do corpo,
apenas porque antecipaste o vôo
das mãos quando, de súbito,
me colheste o sorriso.

Susana Duarte

domingo, 19 de maio de 2019

não sei do que falas, quando falas de mim.

talvez fales de um tempo perdido,
ou de nuvens lenticulares.
talvez fales de uma ave perdida sobre a espuma
das ondas marinhas,
ou sobre as ondas do ventre onde te moves-
e essas ondas são-me desconhecidas,

como a lentidão dos dias.
não sei do que falas,
quando falas dos dias anteriores a ti.
se falasses de mim,
não escreveria sobre a chuva,
ou sobre os gatos nas balaustradas; 
não escreveria palavras de dor,
ausência
e saudade.

não sei do que falas. não sei, sequer, 
se tens um nome-
 pareces ser feito da mesma matéria
de que são feitas as quimeras,
ou as ondas que me percorrem quando,
despida de mim, me deixo enredar pelo algaço
e pela areia.

talvez nem existas. 
exististe, todavia, onde o meu corpo 
deixou de ser meu por um breve,
intenso (talvez fantasmático)
momento.


Susana Duarte