sexta-feira, 27 de maio de 2022

 Mulheres


(caminham por entre névoas

e sucumbem sobre as palavras 

ciciadas  pelos dedos. por entre 

as plúmulas leves dos sonhos

eis as sombras antigas

das aves).


escondo, nas palavras sussurradas 

por aves antigas, o sono leve 

das águas


(e durmo).


Susana Duarte

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

 Tenho nos olhos a veia côncava da vontade

de erguer sóis


onde o nada se agiganta.


Susana Duarte

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

 não consegues respirar:


          gritos silenciosos   

                  invadem o peito

                      cheio de lugares ocos.


não queres ouvir os ruídos 

                  que se propagam.


encontrar a luz: 

                               onde?


onde guardas os gritos 

                  que falam por ti,


junto às portas das gárgulas 

               que desenhaste nos ossos?


Susana Duarte


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

 Caminhos

(ouvindo Laura Fygi, “Les feuilles mortes”)


da raiz à pedra, constrói-se um caminho,          semelhante ao percurso entre as mãos e o peito,

entre as folhas dos dedos e as grutas da boca,                                     e entre os desejos e o corpo.


os caminhos do desejo são construídos nas mãos,     e nos olhos,     e no cruzamento das peles.


entre mim e ti, a presença etérea da volatilidade das palavras.          escreveste-as onde não sei,

e acedes a elas através de memórias que não partilho.            o caminho é o do inevitável adeus

às lágrimas sussurradas nas noites vãs.   o caminho é o das névoas azuis dos sorrisos roubados,

entre as raízes dos jardins das mãos,                                      e as noites sublinhadas pela viagem. 


somos mónadas, e o caminho da evolução das folhas.


Susana Duarte

do livro Pangeia, não publicado


Caminho rente ao chão

 caminho rente ao chão

e não movo o tempo


ou as aves paradas cujos ossos

determinam o movimento 

do mundo.


caminho. destino-me ao tempo,

ao mundo e à incerteza 

dos passos.


Susana Duarte

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

 a invenção das aves 

nada ensinou sobre o desapego.


trouxe consigo a lucidez das águas,

a trégua entre a nascente e a foz. 


nada disse sobre a vida anaeróbia

dos sobreviventes.  


nada disse sobre a perda da voz. 


as aves são 

entidades abstractas: nomeiam

as ilusões e apegam-se


às rochas erodidas, onde o vôo


é abismo, interdito, drama


e redenção.


Susana Duarte

2019

sábado, 6 de novembro de 2021

 a impossibilidade de ser água


anuncia as mãos apartadas 

dos braços, antecipando 


madrugadas de raiva e suor.


eis as mãos onde as águas

despertam  lágrimas ocultas

que se prolongam, manhãs

de chuva que nos devolvem 


ao mar.


Susana Duarte




domingo, 24 de outubro de 2021


quero de ti um poema de osso
e de asas, de rémiges 
escritas nos dedos

e de navegação da pele
sobre as mágoas antigas.

do voo, nada digas:

sobrevoa as costas 
das memórias, e transforma 
o poema na escrita da carne.

Susana Duarte

sábado, 2 de outubro de 2021

Destino


 há um destino em cada palavra.


evidenciado pelas manhãs rubras

das vozes antigas,


encerra uma novena,

uma prece dirigida aos cadavres-exquis

que povoam a mente lúcida.


houvesse apenas desconhecimento,

e o riso sobressaltaria a noite.


há um destino em cada palavra,

e nenhuma me conduz a ti.



Susana Duarte


Susana Duarte




sexta-feira, 2 de abril de 2021

A aldeia

 a aldeia permanece-

      muda como dantes,

      e como dantes, cheia de vida

                  nas sombras verdes das ruas


antigas. são empedradas e duras,

      como as rugas antigas das vidas 

              que conheci, quando as luas por viver 


eram suaves e tantas.


a aldeia suaviza as memórias,

             antecedendo as perdas

        e guardando, nas pedras, os diálogos


das caminhadas, 

            e das dores,

                e da lembrança dos baloiços

                         no adro da igreja.


são antigos, os meus pés,

    como os salgueiros e as ruínas

outrora vivas, outrora albergue de risos


e de misérias, ambos parte dos sons

    com que se viviam as Páscoas


madrugadoras,

     os risos das crianças,

           o compasso dos milagres 


e a idade que não parecia existir.


talvez, afinal, eu saiba

   de onde sou. sou das ruas 

                    e das ameixoeiras,


da casa antiga e da fonte,

      dos cântaros e dos sabugueiros,

             dos jarros  em flor e da terra,


talvez tão finita como a aldeia,

                   e tão infinita como ela.


Susana Duarte

2/03/21


segunda-feira, 1 de março de 2021

 as flores nascidas

do teu rosto, semeiam

expectativas 


em olhos translúcidos


(os meus)


 

Susana Duarte





quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

 a tua voz ergueu-se 

do cinzento       dos dias chuvosos


(deixando-me              suspensa

                   nas horas).


suspensa pelas palavras 

                         que não digo,


tornei-me silêncio.


         sussurro o silêncio

                    que me percorre,


incapaz de traduzir


                           o teu nome.


Susana Duarte




terça-feira, 23 de fevereiro de 2021



a vida solta 
extingue as lágrimas

e a vaga sensação de futuro.
 
 

possam as flores renascer,
e as aves navegar olhos humanos,

e os olhos marejarão de expectativa
as noites onde, vazias, 
 
 

as janelas escutam fantasmas.

Susana Duarte

sábado, 6 de fevereiro de 2021

 o amor.


acontece nas horas cimeiras,

              antecipando os vôos 

                                     do     sangue.


inesperado como as águas

           que irrompem,       abruptas,   

                                    onde as geadas

 

ignoram a tardia floração do peito,


            o amor trespassa os cabelos

                                revolvidos

                                     por dedos ágeis.


              o amor. inesperado e inseguro

                          como uma ave lenta.


Susana Duarte


domingo, 31 de janeiro de 2021

digo-te adeus

 





digo-te adeus

antes que a estrada 

           desuna os braços


e me obscureça 

            os latidos,           os gritos      e os vôos.


digo o que sei:

não existe mais do que a voz 

        com que calo           o que pressinto.


a estrada lenta das árvores

onde o sabor do absinto            me desnudou,

será a mesma                           que te abraçará


no regresso ao norte.       


as mãos que levaste       contigo,         aladas

e inseguras,            etéreas,

                 sobrevoadas pelas linhas do sangue,


dir-te-ão da impossibilidade 

                     e da ausência.        digo-te adeus,


      onde os cruzamentos  das palavras 

                  não permitem a voz 

                  ou o balanço suave


         das águas inertes sobre os corpos.


Susana Duarte



sábado, 2 de janeiro de 2021





 roubo à chuva

o sol que me pertence:

a clandestinidade da rua

permanece indistinta,


à sombra das palavras 

negadas,


interditas,


ditas onde os terrenos

aguardam a chegada

do beijo.


roubo ao sol o calor

do vôo, onde aves soletram

manhãs de inverno


e separam as letras 

de cada rumo ao sul.


roubo, enfim, o nome

decalcado na terra,

onde sou norte e sou sul


e não sei para onde vou.


Susana Duarte

domingo, 13 de dezembro de 2020

Dissonâncias

 construída pelas dissonâncias,

onde me sento só
e navego ondas 
de nada,

 

sou a antítese,

 

a matéria intrínseca do silêncio,
e as noites do nada onde me sento 

 

e sou.

 



 

Susana Duarte

sábado, 12 de dezembro de 2020

Desencontros










 

 as manhãs dos desencontros 
são as mesmas das expectativas:
suaves rugas da existência
ou vôos rasgados na névoa
branca de uma manhã

inesperada

como as nozes e o vinho
com que derretemos a noite 
gélida e falamos a uma só voz.

Susana Duarte

domingo, 29 de novembro de 2020

Há um nome


 há um nome 

para todas as coisas.

há um nome para os voos errantes,

e para as aves trepadoras,

e para as mulheres aladas.


há um nome

para as ondas sobressaltadas,

e para as névoas. há um nome

para as coisas cujo nome

não creio saber, e para ti.


tu, cujo nome não pronuncio, 

existes, todavia, onde as marés 

alcançam a solenidade do sol,

derrotando as angústias calcificadas 


nas vertentes incorpóreas

das palavras [e dos nomes

que não ouso dizer].


Susana Duarte

sábado, 7 de novembro de 2020


a asa pesa, no vôo

disperso

da ave esmaecida,



sempre que a fractura

da plúmula é superior

à elevação da mente.



a disforia dos olhos
desmente a flor branca

da expectativa:

 

delirante o poema,
obtusa a pele

[fracturada a alma]



Susana Duarte



os dedos percorrem sílabas
onde o verbo, exilado,
anuncia o tempo


e o tempo, silente,
revê nervuras
e as mãos.


são folhas de romã, os dias,
e palavras perdidas
onde o tempo se esgota.


nunca mais os dias de verão
serão as searas douradas de antigamente.
o restolhar das folhas,
e a palavra


decadente
perdem os sentidos,
onde o verbo descreve as curvas
e a idade amontoa frases
e ilumina memórias.


Susana Duarte

sábado, 3 de outubro de 2020

Procura

 procuro-te nos lugares 

improváveis, sossegando 

o olhar nos gatos da rua,


tão improváveis como as aves;

tão céleres como as noites 

ávidas;


tão estranhos como nós.


Susana Duarte

domingo, 6 de setembro de 2020

Prometo-te um poema

 prometo-te um poema

de silêncio e navegação,


uma onda lenta na pele,

o mar, a saudação


leve do dedo sobre a boca


e a neve que se desfaz nas costas

desabitadas.


Susana Duarte


domingo, 2 de agosto de 2020



espero por ti, 

como se espera por um fantasma,

e caminho na noite 

como se as esquinas me devolvessem 

o sorriso de outrora.




espero pelo teu regresso

e não alcanço senão o dedo esticado

(por mim) a oriente.




não sei onde moram os beijos

prometidos, ou a sensação latente

do teu regresso. partiram contigo




e, todavia, espero ainda pelas mãos,

as tuas, 

pelo toque das palavras,




e pelos dias da mansidão clara

das quimeras.




espero, ainda, que tragas contigo

a suavidade das maçãs rubras

do desenho dos corpos,




a metafísica das águas,

e a iluminada crença

na paixão com que delimitas




os meus passos, me cerceias 

as asas

e destróis os beijos.




melhor seria ver-te desfazer

os espectros com que me rodeias

e dar lugar ao vôo largo

de outras chegadas.




Susana Duarte




sexta-feira, 29 de maio de 2020



perdeu-se a poesia
nos passos descalços
da tua ida para o oriente


-salvando-se, todavia,
as asas do nome 


que não digo.


apesar das palavras,
a noite foi a feiticeira 
possível das águas do rio


-o mesmo que me resgatou
para, de seguida,
me afundar


onde me olhas.


(iça-me)

Susana Duarte