domingo, 1 de setembro de 2019



o poeta é o silêncio 

com que ele próprio se escreve

diante de um espelho,


a alteração à norma

e o anátema com que descreve

a palavra proibida:


lúmen.






Susana Duarte

segunda-feira, 19 de agosto de 2019



deixar os dedos onde as árvores falam

e as aves calam memórias, mantém vivos 

os nós dos dias e a imprecisão dos sonhos.




não sei de onde vêm as absurdas imagens 

que persistem nas veias, ou as fotografias

tiradas sob a luz esmaecida dos tempos.deixar

as aves calar as memórias, desabita a retina 

e deixa vítreos os grãos de areia- outrora 

revolvidos por mãos ansiosas, ágeis,

descomedidas nos toques e na procura 

dos corpos; outrora absurdas, as veias

ondulantes, mulheres desmedidas e intensas 

na avidez dos olhares. mulheres. grãos de 

areia nos corpos amantes, vítreas nos olhares

com que se estendem, aves elas próprias, 




na ignomínia dos abandonos.




Susana Duarte

2016

quarta-feira, 14 de agosto de 2019



as casas feitas de silêncios

são sombras das memórias,

espectros vivos

das fendas

e das cisões.




ofuscam as ténues linhas

que, outrora, ligaram corpos

geométricos,

adjacentes na procura

do sal e do suor.




as casas feitas de luz 

são ecos distantes das vozes

onde se aprofundam solidões.




Susana Duarte

2018


segunda-feira, 12 de agosto de 2019



antevi as mágoas, por entre as palavras:

o vôo raso das aves entreteceu os dias

sobre a pele gasta. antevi as névoas

entre os momentos sombrios da tua boca.




não antecipei, todavia, a partida, 

a morte lenta das frases, o poema 

quebrado na raíz das árvores, 

as areias dispersas da tua vontade,

ou o rumo sem rumo dos corpos;

a vontade etérea da tua boca, a palavra

dispersa do pensamento, e a vaga 

sombra que terminava o teu sorriso.




o vôo raso das aves espalhou a sombra

breve sobre os meus braços, e a vaga

que daí nasceu sobressaltou-me 

as pernas, emprisionou-me os braços,

deteve-me as palavras. assisto, sombria,

ao que dizes. estranho-te o vôo. nada 

sei de quem foste. de quem és. de quem

terias sido, caso o vôo fosse aberto, 

levado por vagas de ar, por ondas

ou por totens localizados no peito.




Susana Duarte


domingo, 11 de agosto de 2019



é breve o sussurro, 

tanto quanto a gota de chuva que invade

a noite.




é breve a noite das mulheres,

e as suas asas são tão curtas

como as horas




e as tréguas.




Susana Duarte
Agosto 2019





surpreendes as memórias,

num presente anunciado:

todo o tempo é terreno,




todo o mar salgado

é uma ave rara




por cumprir. 




surpreendes, todavia, as memórias

e acordas as navegações

de um ventre oculto




onde as palavras mortas

recuperam a água

e renovam o vôo.




são águas novas,

as que se sobrepõem à morte.




são vôos novos,

de aves antigas. são vôos

delicados de aves temerosas.



são os dias

de agora. são os dias 

das deusas e das estações.

são os dias das quimeras,



onde as aves atrasam o vôo

e as mulheres se entregam às nébulas,

tao rarefeitas como elas




Susana Duarte

2017

quinta-feira, 18 de julho de 2019

“Peace is always beautiful.” 
― Walt Whitman, Leaves of Grass


domingo, 14 de julho de 2019

agora que o silêncio permite ver
o tamanho das mágoas, 
segue-se uma nova 
madrugada.

foste a aurora prometida, onde 
hoje reside apenas a memória.
foste a abertura dos olhos,
onde as aves dispersas
pediam voos novos;

foste, na manhã, a promessa 
antiga. ao silêncio de hoje,
entrego as promessas 
e os passos perdidos.

agora que o silêncio permite ver
o tamanho dos corpos,
sigo o caminho 
desenhado pela deserção 
dos braços. permaneces onde 
as sombras caminham. 

desapareces dos dias 
como, nas noites, transformaste
a tua presença na névoa
ambígua das bocas 
sem voz. o silêncio
de hoje desenha a amplitude
de um céu novo-

quimera desenhada 
num corpo por cumprir.

Susana Duarte


sábado, 13 de julho de 2019



escrevo a sede sobre a pele,
onde desenhaste água e frutos.

não sei onde estás,
fendida a rocha de onde nasciam
as águas, e as manhãs
do corpo


(onde?)

escrevo a sede nos meus lábios,
e procuro a barca da aurora
que me prometeste.

a madrugada cessou 
onde a água caiu sobre os ombros 
(nus) de uma noite qualquer.

tu não voltaste,
deixando acesa a sede 
e o fogo, a água e a noite,
a madrugada
e os ombros.

escrevo a sede sobre a pele
rarefeita, onde a água
se desvia e a noite 
atravessa o ar

decomposto
das almas insaciáveis.

Susana Duarte

sexta-feira, 14 de junho de 2019



és inconstante como as nuvens,

e discreto como as aves. és 

a solução última das águas,

que se apartam quando as rochas

fendem os futuros e alienam

os rios. queres o meu silêncio,

tanto quanto queres o meu grito.




não sabes, ainda, para onde vais.

és inconstante como as nuvens,

e belo como as ondas. talvez

caibas onde não cabem sonhos.




sei que permaneces navegável,

apesar da distorção da rota, 

e que as rotas são como veias,

esculpidas, improbabilidades

de um peito desenhado, vermelho

e áspero como as noites frias

de um inverno qualquer.




és inconstante como a maré

jovem que te trouxe até mim,

e improvável como as manhãs

que habitei nos dias de antes.




talvez saibas onde me encontrar.

eu ainda não sei qual foi a maré

que me trouxe aos dias que habito.




Susana Duarte

terça-feira, 11 de junho de 2019



vou esquecer os sonhos de ontem,
como a madrugada desoladora 
se despede da noite:

deixando os pés onde os passos 
são perdidos, e os corpos
se apartam da pele.


vou esquecer a madrugada
como a ave se despede da primavera:
também eu migrarei

para o lugar do oblívio,
onde me deixas a cada palavra.

Susana Duarte


segunda-feira, 10 de junho de 2019



ESPELHO

Iças-me o corpo 
na noite rubra 
do desejo.


Iço-te o desejo 
na noite rubra 
do corpo.

Susana Duarte

domingo, 9 de junho de 2019

a antecipação do beijo teve o sabor
das cerejas rubras dos teus lábios.
é nos teus lábios que penso,
quando falo de tardes encantatórias
e do acordar das mãos.
são tuas, as mãos que ladeiam
os lábios e encantam a língua
que, fresca, amanhece
o corpo.

a antecipação do beijo é, ainda,
a manhã clara do teu nome. tem a cor
encarnada da paixão com que soletrei
a chegada do teu sorriso. não sabes ainda
das ondas convulsas que o nome
convoca, nem das águas detidas
no olhar, quando penso em ti.
tu, nascente dos dias descerrada
da pele, escreves na minha boca
o nascer radioso do dia.

raiaste de vermelho o florir do corpo,
apenas porque antecipaste o vôo
das mãos quando, de súbito,
me colheste o sorriso.

Susana Duarte

domingo, 19 de maio de 2019

não sei do que falas, quando falas de mim.

talvez fales de um tempo perdido,
ou de nuvens lenticulares.
talvez fales de uma ave perdida sobre a espuma
das ondas marinhas,
ou sobre as ondas do ventre onde te moves-
e essas ondas são-me desconhecidas,

como a lentidão dos dias.
não sei do que falas,
quando falas dos dias anteriores a ti.
se falasses de mim,
não escreveria sobre a chuva,
ou sobre os gatos nas balaustradas; 
não escreveria palavras de dor,
ausência
e saudade.

não sei do que falas. não sei, sequer, 
se tens um nome-
 pareces ser feito da mesma matéria
de que são feitas as quimeras,
ou as ondas que me percorrem quando,
despida de mim, me deixo enredar pelo algaço
e pela areia.

talvez nem existas. 
exististe, todavia, onde o meu corpo 
deixou de ser meu por um breve,
intenso (talvez fantasmático)
momento.


Susana Duarte

sábado, 27 de abril de 2019


Vácuo
(ouvindo Yann Tiersen, “A secret place”)











nasci dos dias                                                                                         em que os sonhos eram cerejas
recém-enrubescidas na verde folha da vida                              e nas amarelas tardes de ser assim:
inocente espaço entre corpos celestes              à espera              de saber ser flor não naufragada
no futuro antecipado      na observação das nuvens. nasci dos dias                                    da aldeia
onde sinos eram espaços sonoros entre mim e mim,     entre as nuvens e a vida,      entre a vida
e os dias passados a desfolhar pedaços de vento                           por entre os medos da infância.
ruas calcorreadas no tédio das horas              desusadas            sobre as árvores como um ninho,
espaço circunscrito      nas horas da angústia     dos Outros        das vozes        estranhas-intrusas
devoradoras                                               dos tempos ocultos da solidão da interioridade da alma.
lugar secreto                          de dias                       celestes de preenchimento do vazio insuspeito.
passaram os  dias da Criação                   que nos tornaram metade de nós,                           corpos
por preencher na mágica sabedoria                              da conjunção                            das vontades.


Susana Duarte

Pangeia
(não publicado)

sábado, 30 de março de 2019


és translúcido, 
uma fina camada de nada 
sobre a pele.

vives entre a pele e a dor,
navegando o suor
e as noites desenhadas
sobre os dedos, ou
sob a camada fina da alma.

és translúcido,
e deixas desertos de nada
onde outrora pousou
uma borboleta.

a impossibilidade é um oceano
de espuma e algaço,
debicado por uma gaivota
sem uma asa.

Susana Duarte
30/03/2019

quinta-feira, 14 de março de 2019




o poema desorganiza-se,

observando o voo das aves trémulas.




é um poema-ave, o que se fractura

nas encostas das manhãs

seguras.




Susana Duarte





despidos os olhos,              inicia-se
a navegação                  intranquila
das almas,        a lapidação do vôo,

a abertura solene           do nome.




Susana Duarte

terça-feira, 5 de março de 2019


sobrevoas as noites, onde as flores 
são os ângulos escondidos das veias. 
apareces, como um fantasma: povoas sonhos
 e roubas segredos.

sobrevoas os dedos, onde as noites são raras. 
partes, todas as noites, mas pairas sempre 
sobre os passos através dos quais 
perscruto os caminhos.


caminhas sobre os meus passos e, todavia, 
não estás. matas-me e, todavia, regressas, 
como um espectro que desalinha as flores 
e insemina de ausência 
os dias.


perdido, tu próprio, nas linhas oblíquas da chuva, 
congeminas olhares onde os teus olhos já não estão.


desaparecerás, um dia, dos caminhos

dos sonhos e dos beijos por dar. nesse dia, a luz-outra 
será o véu através do qual deixarei de te ver, 
 qual névoa de Setembro, 
qual gota de chuva caída dos beirais de uma casa, 
eclodindo na calçada para, depois- e para sempre- 
se ocultar das pedras.


desapareces já, noite após noite, onde os sonhos 
não te nomeiam e os dedos não te procuram.
 talvez sejas já, apenas, a sombra dos dias de ontem. 
o teu nome não me cerca.


os teus olhos desaparecem com as chuvas. 
a vida, um dia, recomeçará: fantasma, presença, ausência 
de todas as ausências 
dos meus braços.


nesse dia, não mais sobrevoarás as palavras.




Susana Duarte

2014

domingo, 3 de fevereiro de 2019

há uma sombra em cada asa,
e uma ave escondida em cada passo; 
uma nódoa negra no peito,
e um vôo interceptado 
pelos dias.

há duas cores na plúmula,
onde não cabe mais do que uma paleta
insegura, povoada por névoas.
todos os vôos são ambíguos,
e todas as vozes, silêncios
crocitados nas horas
das quimeras.

são obscuros, os dias
onde as asas quebradas do sonho

tentam erguer sorrisos.

Susana Duarte

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019




"(...) a imponência do muro que nos rodeia é directamente proporcional ao receio que sentimos. (...)


Afonso Cruz, Princípio de Karenina

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

há um nome 
para todas as coisas.
há um nome

para os voos errantes,
e para as aves trepadoras,
e para as mulheres aladas.
há um nome

para as ondas sobressaltadas,
e para as névoas. há um nome
para as coisas cujo nome
não creio saber,
e para ti. tu, cujo nome não
pronuncio, existes, todavia,
onde as marés alcançam 
a solenidade do sol e
derrotam as angústias
calcificadas nas vertentes 
incorpóreas das palavras, 
e dos nomes, 
que não ouso dizer.

Susana Duarte


domingo, 23 de dezembro de 2018

por todas as sílabas
recitadas em madrugadas 
planas;

por todos os poemas
silabados na segmentação
dos sonhos,

e por todas as noites
rasas da existência,

recito a litania 
inesperada
dos teus nomes,

e acendo a noite rara
das palavras
interditas.

Susana Duarte

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Um excerto de um texto de Clarice Lispector:

...sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava de morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus,..., faz de conta que vivia e que não estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua pois ela era lunar, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos húmidos de gratidão, faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta, faz de conta que se descontraía o peito e a luz douradíssima e leve a guiava por uma floresta de açudes mudos e de tranquilas mortalidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro...

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018



Inquietas, as aves 

liquefazem a espera 
nas linhas curvas
da noite sem voz.

Susana Duarte