domingo, 3 de dezembro de 2017

o mundo é um lugar longe,

onde as mulheres são feiticeiras

e os poetas, a alma ferida
das brumas.

o mundo é um lugar longe,
tão longe quanto as lágrimas e o medo,
tão fundo quanto as lágrimas e o medo
de amar.

amar é um lugar longe,

onde as mulheres são aves que voam
um voo estranho de derivas
anteriores.

a dor é um lugar solitário,

tão longe como os poetas.

Susana Duarte

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017



voo,


talvez, no voo abrupto


das aves


melancólicas


e nas fragas 


por onde 



rolam desejos. 




Susana Duarte

domingo, 26 de novembro de 2017

há mistérios no dorso
proeminente
das aves surdas,

e sacrilégios em cada plúmula.

das nuvens às árvores, 
as aves perdem os dias
e os dias desencontram-se 

das quimeras.

há, nas aves negras, as toadas
silenciadas pelo ritmo
das vozes.

em cada voz, um vôo perdido

em cada plúmula, um corpo
desencontrado de si

em cada ave, um amor suposto,
e em cada um, um futuro desaparecido
nas brumas

Susana Duarte


sábado, 18 de novembro de 2017



eras tu, a árvore da minha vontade
de voar para onde as aves
falam de naufrágios
e de arribas
escondidas


pela erosão fácil da alma.

perdi os dias a falar com as ondas,
e as noites à procura do ar
lento que as aves
soletram,
apátridas

como as almas que deambulam
ao largo, onde o sargaço se move
e a praia é um lugar longe.

longe de ti, longe de mim
e do mundo das pessoas,
procurei ainda a sombra
azul das águas
entristecidas

pelas marés estranhas do ser.

não soube ir além da foz e, todavia,
eis o sorriso fácil da árvore
da vida, nascido
dos teus olhos
e derramado
como luz sobre a maré

onde, outrora, me uni
às arribas fósseis da vontade
de navegar,

para, em ti, ser soluço,
voz de ave,
maré indissolúvel.

Susana Duarte


segunda-feira, 6 de novembro de 2017




quando vieres, traz os dedos
da aurora








eis o despertar dos corpos
na improbabilidade de ser água

eis as manhãs raras, onde 
as luzes anunciam as mãos
que, todavia, se apartam 
dos braços e antecipam 
madrugadas de raiva e suor


eis as mãos onde as águas
despertam as lágrimas ocultas

eis,finalmente, a dor, 
que se prolonga onde as manhãs
de chuva nos devolvem ao mar.

Susana Duarte



sábado, 4 de novembro de 2017

quando vieres, traz os dedos
da aurora,

e amanhece nas dobras cegas 
do pescoço
onde, ontem, navegaste 
os trevos 
do dia longo
[anterior às mágoas]

florescidos dos teus dedos,
esquecidos dos segredos

[onde as horas não chegam
e os teus olhos me faltam]


[Para ti, amigo de todas as palavras.
 E de todos os silêncios.]

o silêncio ocupa
as vagas, as marés, as ondas
sobranceiras às vertentes erodidas,
assim remetendo ao infinito
os sons deixados livres
pela mente

o silêncio ocupa
as mágoas, esvaziando os olhos
das imagens anteriores ao tempo
outrora ocupado pelas mãos
e pelos sonoros ecos
da nossa existência

o silêncio desocupa os corpos
quando os corpos se preenchem do outro,
eliminando as sombras das vertentes
úmbrias, onde alguém depositou
as memórias

Susana Duarte

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

domingo, 29 de outubro de 2017

Poema de Adriane Ribeiro Guimarães



cabem todos os silêncios,
no vôo das aves

ininterrupto, o vôo das aves
cobre os silêncios
das vertentes úmbrias,
e as vozes das rochas,
e o bater dos corações
das pessoas tristes

cabem todos os silêncios,
no vôo ininterrupto das aves,
e cabem nele as vozes
que emprestei aos ventos

vou com as aves,
e entrego-me ao ar, vozeado
como as nuvens sobressaltadas,
inseguro como os amantes, voraz
como o tempo

e silencioso, como o vôo 
das quatro aves
que me sobressalta o olhar
e me esconde as névoas

Susana Duarte

terça-feira, 10 de outubro de 2017



desabito a casa azul
-dos esqueletos ensimesmados-
onde corvos voam,

e habito o silêncio,
onde as memórias afastam as telas
e as névoas se tolhem de mim


-relembrando-me onde os sonhos
são pontes, e os olhos,
moradores nobres de vidas-outras.

Susana Duarte





reencontro as metáforas onde
o sangue se liquefaz,
norteado pela ânsia dos corpos,
[ambivalentes como as águas]


aproximando-me de Avalon,
onde velhos rituais iluminam os dias
[tu, ausente, navegas o sangue
oculto, e perdes o sol, e o poema
de seres a barca da aurora]

Susana Duarte


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Si conobbero.
Lui conobbe lei e se stesso, perché in verità non s’era mai saputo. E lei conobbe lui e se stessa, perché pur essendosi saputa sempre, mai s’era potuta riconoscere così.

( Italo Calvino)

quarta-feira, 4 de outubro de 2017



Te imprimo en el borde de mis sentidos
donde el limbo apenas es un camino

salto de hoja en hoja y en la naturaleza viva de tus manos
abro mi boca sedienta del agua que sale de tu cuerpo


Ondeo las líneas de tu tallo y
me nutro con tu vida:

semilla,
fuente,
flor nocturna
y durazno rosado;
luz naciente
ángulo inexistente de una curva,
cuarto creciente
de mi luna.

te imprimo en el rincón ambiguo de los sueños
a la espera del sol naciente, cortante de mis venas

amplitud de navegación de las flores, en la cala
donde vestí las flores al mirarlas,

luz

cueva de lobos de una nueva montaña
donde imprimimos la especie, en los ojos azules de tu boca

te imprimo en el borde de mis sentidos
donde el limbo es el margen de la vida

por medio de encrucijadas y ligaciones extrañas
pero donde siempre reina tu nombre…


Susana Duarte
(poema e foto)
Tradução: Tiziana Calcagno
quantas casas já habitei?
quantos corações me esperam morada?
quantos olhares são parapeito de esperança, 
contendo as perguntas que me querem resposta?
mas eu não passo de poema beijado,
escrevendo amanhãs impossíveis.

© João Costa . 30.setembro.2014





segunda-feira, 25 de setembro de 2017

"I want to be cured of a craving for something I
 cannot find, and of the shame of never finding it"

T.S. Eliot

sábado, 23 de setembro de 2017


saúda-me a tristeza, a partir das janelas de onde, antes, brilharam estrelas de vida, ante a visão de ti e das tuas carícias. saúda-me, e eu deixo. saúda-me a saudade, e eu deixo. saúda-me a vida que tive dentro, quando contigo sonhava. e eu deixo. saúdas-me tu, no abraço demorado que me deste e, todavia, me prometes. e eu deixo. saúda-me a tristeza, mas não te deixo partir. saúda-me a vida antes de mim própria. e eu deixo. saúda-me o brilho dos teus olhos. e eu deixo. neles vivo. neles morro. e eu deixo que a vida me preencha de vida. e eu deixo que a vida me preencha de morte. e eu deixo. mas deixo sobretudo que o sonho não morra. deixo que me vivas. deixo que me habites cada movimento das pálpebras. deixo que me sonhes. deixo que tenhas saudades de mim. mesmo quando a tristeza me habita. mesmo quando a saudade me desespera. habitas-me. não sei ser sem ti.

Susana Duarte


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

“There is no Greater Agony…
Than Bearing an untold Story inside You…”

Maya Angelou (1928-2014)

Ph

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Dandélio. Creche e Jardim de Infância, em Coimbra

O Colégio Dandélio resultado de uma iniciativa da APPACDM, disponibiliza à comunidade local um novo espaço dedicado ao desenvolvimento infantil, que se pretende pedagogicamente diferenciado, acolhendo uma creche e um jardim-de-infância.
O edifício está construído em terreno urbano, numa encosta da cidade de Coimbra e o seu desenho procura compatibilizar a resposta ao programa funcional com o respeito pela morfologia envolvente, embora sugerindo novas regras arquitectónicas. As restrições orçamentais foram também determinantes, resultando numa estrutura modular que se reflecte na própria fachada. A acessibilidade universal é especialmente importante neste âmbito e, nesse sentido, eliminaram-se quaisquer barreiras físicas que constituíssem obstáculos à livre circulação de todas as crianças, garantindo que, apesar do projecto se desenvolver em dois pisos, se reservavam ao piso inferior áreas de serviço como balneários do pessoal, lavandaria, arrumos e garagem coberta libertando-se o piso térreo para reunir as principais áreas funcionais do programa.
A organização cruciforme da planta permite que o átrio comunique directamente com as áreas comuns – salas de professores, administração e instalações sanitárias acessíveis – bem como com a creche e jardim-de-infância. A Creche, destinada a crianças até aos três anos de idade, inclui um berçário, copa de leite, zona de higienização, sala-parque e duas salas de actividades. À excepção dos sanitários dedicados, todos os espaços comunicam entre si e permitem a observação e controlo permanente. Por sua vez, o jardim-de-infância reúne duas salas de actividades, instalações sanitárias, sala de refeições e sala polivalente, sendo que estas duas últimas são espaços partilhados que, através de divisórias amovíveis, permitem a sua utilização autónoma ou em conjunto, beneficiando ainda de uma relação directa com o espaço de recreio coberto.
No interior, o pavimento vinílico azul e a cor natural dos elementos de carpintaria destacam-se dos restantes materiais cuja predominância do branco pretende criar uma plataforma neutra interactiva apropriável pelas crianças. O recreio exterior apresenta-se vedado pela arquitectura do edifício e pelos muros que delimitam o lote. Tem exposição solar privilegiada, acesso directo a partir das salas de actividades e, através de uma rampa, dará acesso a um segundo espaço de recreio, a localizar à cota baixa do logradouro, que incluirá as hortas pedagógicas que complementam as actividades lúdicas no exterior.
A Criança está no centro de todas as decisões relativas a este processo, e esse cuidado manifesta-se quer na atribuição da melhor exposição solar, ventilação natural e contacto com o exterior às salas destinadas à estadia das crianças, quer em momentos arquitectónicos singulares, como a dupla escala dos vãos exteriores, que resulta na imagem de marca deste empreendimento.







Fonte: Do mal o menos, blog de Arquitectura (http://www.domalomenos.com/)


segunda-feira, 11 de setembro de 2017



Talvez percorra caminhos 
que não sei,
quando as aves ensimesmadas
dormem,


e ocultam as asas
sob o peso da noite

e voam,
ainda assim,

possuídas pelo silêncio

com que evocas

o meu nome.

Susana Duarte

sábado, 9 de setembro de 2017

os lugares                        dos fantasmas
são os corpos                      desabitados

e as noites amarelecidas           sem ar,
exaustas como as veias    

e perdidas                     como as manhãs
dos corpos-outrora-amantes,         agora
lugares onde                          as sombras

convocam espectros,               quimeras
aladas        e nomes ditos     em silêncio




sexta-feira, 8 de setembro de 2017



o lugar onde morre o poema:
o da tua partida lenta,
inominável

(o poema violento, a crucificação
do amor vivido).


o lugar da morte em vida
(ausência das pequenas-mortes
vívidas do aurorescer)
é aquele onde inflorescem
os dedos, e a salvação
reside nas noites que, todavia,
tardam em renomear o silêncio

Susana Duarte



domingo, 3 de setembro de 2017

I am hopelessly in love
with a memory. 
An echo from another time, another place. 

-Michel Foucault