sábado, 9 de junho de 2018

passam os dias nas onomatopeias 
da raiva,
do cansaço,
da exaustão;
por entre os fios ténues

do pensamento à beira do vómito.

povoam os sonhos aves negras 
da raiva das máquinas 
em que nos tornaram, 

céleres, resolutas,
deus ex-machina
omnipotentes, omnipresentes,
desligados da vida

e, sempre, à beira do precipício
profundo das alas da mente
onde a luz não penetra 
e, sombrias,
se insinuam as dúvidas

que as fiandeiras tecem.

Susana Duarte

sábado, 26 de maio de 2018



talvez as ondas

tenham despojado de luz

as estrelas nelas espelhadas.



talvez fosse apenas 

a noite, soprando o mar 

para além do horizonte.



se fosses tu, preencherias

a noite de luz. a não ser que a aurora

se demorasse, a cavalo na noite,

ensombrada pelo receio

de ser um dia novo,



onde os homens têm medo.




talvez as ondas segurem

as estrelas para além do céu, 

quando a noite se demora.



talvez o calor nos devolva o dia, 

e nos dê a exata medida dos sonhos.



talvez tu, na sonora imensidão

das ondas, sejas a espuma 

que delas nasce,



etéreo,


apenas sonho.





Susana Duarte


quarta-feira, 16 de maio de 2018



"What is the Heart? A flower opening.”

Rumi 🌺

domingo, 6 de maio de 2018



por sobre as flores-da-lua
um corpo fascinado
flutua sem pensamento

Matsuo Bashô

.

domingo, 8 de abril de 2018



as aves solitárias
moram na bainha das folhas,
e migram através das nervuras,
e desfolham-se no limbo.
atravessam pecíolos, 
e navegam ondas de som
desfocado. as aves solitárias
moram nos espinhos achatados,
mas almejam a endoderme 
do sonho. moram 
na endoderme do sonho.


Susana Duarte

terça-feira, 3 de abril de 2018



segmentas a noite
traçando caminhos dúbios
onde se sagraram primaveras,

elas próprias desprendidas
do hálito das flores. talvez 
sejas a lua, talvez a noite
-ela própria fracturada-
que se desvia das manhãs


e procura a fresca linha 
radial dos encontros

dos olhares.




vou sentar-me sobre as costas
dos teus olhos, 
e ver-me através deles, sedentos 
das névoas 
das minhas madrugadas.


vou sentar-me sobre
os teus braços e, através deles, 
rever encostas
onde os seios te abraçaram,
e foram eternas
as inermes mãos sobre o dorso.

vou sentar-me
sobre as dobras da tua voz, 
onde o silêncio
me chama e a língua me conquista. 
sobre ela,
desfazer as névoas que, junto ao rio, 
pairaram, no instante do atrevimento.

a língua de fogo
dos teus dedos, sobre a língua de fogo
da água que sobre ti se deita, 
exclamando 
todas as noites
de todas as idades, 
desfiguradas pelo silêncio 
que, sob a chuva, se abateu, pronto 
que estava o sorriso dos lábios, 
pronta a boca
para, sobre ti,

pairar e, ali,

depositar o dia.

Susana Duarte




segunda-feira, 26 de março de 2018



"O cansaço é nascente como o sol"
Gastão Cruz


they leave 
and act like it never happened 
they come back 
and act like they never left


-ghosts

Rupi Kaur
The sun and her flowers

domingo, 18 de março de 2018



poemas são transumâncias
de deuses

pastam nos versos
a infinita criação


valter hugo mãe 
publicação da mortalidade
Assírio e Alvim




se alguma vez me vires em sonhos
sacode-me a terra ao coração




valter hugo mãe 
publicação da mortalidade
Assírio e Alvim

sábado, 17 de março de 2018



invocar o nome ausente
é libertar as asas para um vôo
ao centro das memórias,

onde se arrastam espectros
e pronunciam palavras mortas.


libertar as aves no centro da terra,
quando se invoca o nome ausente,
convoca as dores antigas 
das mulheres ensimesmadas.

são as mulheres que movem
as asas da humana condição.
habitam-nas as estórias 
do amor e do fel, e os cabelos
perdidos, e os dedos suspensos, 
e os corpos dilatados 
de todas as paixões.

é delas, o mundo.

[é delas, o mundo 
a que não pertencem,
nunca, os amores
possíveis],

porque as mulheres são 
impossibilidade,
presente e futuro, 
e as memórias todas
de todas as aves. e todos 
os nomes ausentes
sobre a pele salgada

de ontem.

Susana Duarte




partiste,
e ficaste no recanto escuro 
do teu inferno
sem asas.


não ouses voltar 
a tirar, das flores,
as pétalas.

não ouses roubar 
as asas das borboletas.

Susana Duarte




entre o medo e a sombra, 
a luz lenta
dos braços

(curvos sobre os poros,
e ocultos pela maresia:
algaço
despovoado de ondas)


entre a luz e o nada,
a sombra inequívoca
dos braços,

onda nova sobre a pele,
onde escreves mar 
e desenhas

espaços de sono e de sonho
(e a mulher é
um rifte)

onde inscrevo as pedras

e vou

Susana Duarte


segunda-feira, 5 de março de 2018



“(…)

RAOMOMAR



amor confuso, amor repetido, amor esotérico,

[amor mágico.



– MAR



mar perdido de conchas no meio do mar

mar de marés justapostas de amor num mar

[de marfim.

perdido no teu joelho de marfim.

mar de bosques que anuncia ao estrangeiro

[terra perfumada

oceano no teu oceano de olhar

Isís a mulher de Osíris ? – a realidade misturada.

no MAR.

mar que te apontei do alto da torre coberta

[pelo nevoeiro

pelo avião que atravessa o espaço

pelo incêndio que percorre o mundo

[num autocarro

pelo soerguer do teu corpo semi-quente

[na madrugada



mar azul-vermelho queimado de arestas

mar de dedos frios, de velas sibilinas na noite

[de cristal

mar de sonâmbulos esquecidos a medir o espaço

[com fitas de estrelas

mar de passageiros estranhos e abismados

mar de casas altíssimas onde habitam as cidades



MAR para que não me chegam os olhos

Mar branco de nuvens sobrepostas para lhe

[podermos passar por cima

Mar de esquecimento, de objetos sensíveis

[e distintos

Mar onde guardei o aquário azul que trouxe

[até hoje na memória

e só hoje te espalho para o mundo MAR

onde é possível e provável o envenena

[mento total da espécie.

onde descanso a minha mão esquerda

[sobre uma pantera negra

e todos os dias mergulho em fogo



Amor sem nexo, amor contínuo,

[amor disperso – MAR



mar com uma bala direita no cérebro

mar sem apoio em nenhum ponto do espaço, mas

preso apesar de

tudo numa enorme teia diabolicamente construída

para conseguir

ser livre

mar de submarinos insondáveis que navegam o

infinito do mar

mar espacial de sons, de cores, de imagens, de mil anos passados

que percorremos



MAR que flutua no MAR abusivamente medonho



amor esquecido, amor distante, amor insolente

RAOMOMAR

(…)


António Maria Lisboa (Lisboa, 1/8/1928 – Lisboa, 11/11/1953)
Poeta.

domingo, 4 de março de 2018

Maçãs rubras


Maçãs rubras
(ouvindo Françoise Hardy, “On se quitte toujours”)









as rubras maçãs do sorriso                e as névoas indistintas da memória                 fundem noites
no sangue          púrpura                    do corpo.                             as rubras noites do desejo são riso
e são sombra      e são glória           das costas que se erguem sob o peito obscuro do rio.  noites
brancas do sangue.                corpo exangue  sobre o leito azul.            as rubras maçãs do sorriso
eram manhãs elevadas à eternidade                          dos corpos         dos amantes. os sonhadores
serão sempre a caixa vazia da realidade,             frugal,          desnecessária,         risível,   do leito
                                                                                                                                                                vazio.






escrevi-te nos recantos purpúreos,                     carnosos,                           do corpo e da memória,
onde extingues a vida                       com a ausência das mãos.                               sobra, sobre nós,
                                                                                                                                                              o rio.


Susana Duarte

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018



há um poema por escrever
sobre as pernas da noite; é
o poema navegado pelas mãos
desconhecidas da madrugada,
ímpares nos pormenores estriados
por onde se espraiam os olhos.


o poema por escrever permanece
nos recantos esquecidos da pele,
e recai, como a água dos olhos,

onde as pernas da noite amanhecem,
como os gatos nas balaustradas,
e as mulheres ensonadas 

que escrevem destinos. sobre as pernas da noite.

Susana Duarte

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018



The shadow of your absence


Ph Roberto de Mitri

domingo, 4 de fevereiro de 2018



e tu,
vais-te embora? vais-te embora?...

não,
não te vais embora: fico contigo…


deixas-me nas mãos a tua alma,
como um casaco.



marguerite yourcenar
fogos
trad. de maria da graça morais sarmento
difel
1995

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018



"A alma, ao contrário do que tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a matéria. Em certos homens a alma chega a ser visível, a atmosfera que os rodeia tomar cor. Há seres cuja alma é uma contínua exalação: arrastam-na como um cometa ao oiro esparralhado da cauda - imensa, dorida, frenética. Há-os cuja alma é de uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. Daí também simpatias e antipatias súbitas quando duas almas se tocam, mesmo antes da matéria comunicar. O amor não é senão a impregnação desses fluidos, formando uma só alma, como o ódio é a repulsão dessa névoa sensível. Assim é que o homem faz parte da estrela e a estrela de Deus."

Raúl Brandão, "Húmus"


segunda-feira, 22 de janeiro de 2018



o teu sonho será a pele
que vestiu o rosto
da neve, nos dias brancos

da minha existência.


o teu sonho será a neve
que me vestiu a pele 
do rosto nos dias-todos os dias-
da ausência.

vestiria a nudez do olhar 
sob as escamas 
de um peixe nacarado.
procuro-te. o sonho
onde habitas é, ainda.

a ilha desconhecida 
do silêncio.

Susana Duarte

domingo, 21 de janeiro de 2018

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018



faltas-me.







na insubmissa saudade que me traz névoas, 




falta-me o ângulo solar do teu sorriso. 


habituei-me à ausência dos lábios, 


nunca me habituando à ausência 


do que pressinto. faltas-me. 












é longa a lisura dos braços que me acolhem 


saudades mansas, despidas da bruma antiga, 


onde habitas todos os recantos breves 


das palavras que dissemos. 







faltas-me no ar que me respira e vive. 







faltas-me, sobretudo, onde a noite 


se faz longa estrada percorrida 


pela cadência agreste das silvas 


que entoam cantos de coruja, nos locais 


onde a lua interpela os amantes. 








faltas-me nas ondas do cabelo, 


que dantes revolvias com dedos seguros. 








faltas-me onde me sabes, e sabes-me 


onde o mundo se oculta de mim e eu, 


dele me escondo. faltas-me. 








na insubmissa saudade dos mares 


outrora atravessadosde carícias, falta-me 


o ângulo solar dos teus dedos. habituei-me 


à ausência dos beijos, nunca me habituando 


à ausência do que pressinto e sei. faltas-me. 







todos os dias. 










Susana Duarte

domingo, 7 de janeiro de 2018


escrevo-te onde as mãos não chegam, 
onde os cabelos não dormem,
e as coisas do mundo
permanecem
ignotas.

aí, onde moram os fragmentos da paixão,
deixei, inertes, os olhos, escuros-
-adormecidos-povoados
de luz azul
e sonhos.

mortas as luzes sobre o peito,
aconcheguei nele o sol
dos poemas
de antes.

escrevo-te, ainda, onde a morte das palavras
é o recanto esquecido da dor, 
e os olhos amortecem
a força das ondas
e o mar
todo.

escrevo-te, apenas, porque preciso de varrer
as folhas caídas no chão, aquelas
que deixaste, amarelas,
sobre as pedras
e o ventre.

escrevo-te, por fim,
para amainar
o vento.

Susana Duarte