segunda-feira, 26 de outubro de 2015



os silêncios absortos
são deambulações ambíguas
de caminhantes

que, no dealbar rosa
de peitos levantados à potência
do sonho, tentam


a palavra
surda com que se medem
as papoilas

de um coração à procura.

susana duarte

quarta-feira, 21 de outubro de 2015



A poesia vai acabar, os poetas 
vão ser colocados em lugares mais úteis. 
Por exemplo, observadores de pássaros 
(enquanto os pássaros não 
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao 
entrar numa repartição pública. 
Um senhor míope atendia devagar 
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum 
poeta por este senhor?» E a pergunta 
afligiu-me tanto por dentro e por 
fora da cabeça que tive que voltar a ler 
toda a poesia desde o princípio do mundo. 
Uma pergunta numa cabeça. 
— Como uma coroa de espinhos: 
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

Manuel António Pina



domingo, 11 de outubro de 2015

silêncio



aconchego o silêncio
nas palavras sossegadas
pelas lágrimas da noite

encontro-o, cartografado
nas linhas vorazes do voo
sempre que escreves


vozes sobre a pele

Susana Duarte




terça-feira, 6 de outubro de 2015

viagens da minha guerra


das noites húmidas chegou
uma solidão absorta
flutuante entre fragmentos
da existência lenta
com olhos de claridade
de um corpo de abandonos vigiados
que só começará a desatar os nós
de seus cabelos crespos
quando pelas mãos antropófagas
começar a arder
arder sem medo
esta paisagem mental
de forças demasiado rápidas.

miguel de carvalho



Foto pessoal

segunda-feira, 5 de outubro de 2015