sábado, 18 de novembro de 2017



eras tu, a árvore da minha vontade
de voar para onde as aves
falam de naufrágios
e de arribas
escondidas


pela erosão fácil da alma.

perdi os dias a falar com as ondas,
e as noites à procura do ar
lento que as aves
soletram,
apátridas

como as almas que deambulam
ao largo, onde o sargaço se move
e a praia é um lugar longe.

longe de ti, longe de mim
e do mundo das pessoas,
procurei ainda a sombra
azul das águas
entristecidas

pelas marés estranhas do ser.

não soube ir além da foz e, todavia,
eis o sorriso fácil da árvore
da vida, nascido
dos teus olhos
e derramado
como luz sobre a maré

onde, outrora, me uni
às arribas fósseis da vontade
de navegar,

para, em ti, ser soluço,
voz de ave,
maré indissolúvel.

Susana Duarte


segunda-feira, 6 de novembro de 2017




quando vieres, traz os dedos
da aurora








eis o despertar dos corpos
na improbabilidade de ser água

eis as manhãs raras, onde 
as luzes anunciam as mãos
que, todavia, se apartam 
dos braços e antecipam 
madrugadas de raiva e suor


eis as mãos onde as águas
despertam as lágrimas ocultas

eis,finalmente, a dor, 
que se prolonga onde as manhãs
de chuva nos devolvem ao mar.

Susana Duarte



sábado, 4 de novembro de 2017

quando vieres, traz os dedos
da aurora,

e amanhece nas dobras cegas 
do pescoço
onde, ontem, navegaste 
os trevos 
do dia longo
[anterior às mágoas]

florescidos dos teus dedos,
esquecidos dos segredos

[onde as horas não chegam
e os teus olhos me faltam]


[Para ti, amigo de todas as palavras.
 E de todos os silêncios.]

o silêncio ocupa
as vagas, as marés, as ondas
sobranceiras às vertentes erodidas,
assim remetendo ao infinito
os sons deixados livres
pela mente

o silêncio ocupa
as mágoas, esvaziando os olhos
das imagens anteriores ao tempo
outrora ocupado pelas mãos
e pelos sonoros ecos
da nossa existência

o silêncio desocupa os corpos
quando os corpos se preenchem do outro,
eliminando as sombras das vertentes
úmbrias, onde alguém depositou
as memórias

Susana Duarte

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

domingo, 29 de outubro de 2017

Poema de Adriane Ribeiro Guimarães



cabem todos os silêncios,
no vôo das aves

ininterrupto, o vôo das aves
cobre os silêncios
das vertentes úmbrias,
e as vozes das rochas,
e o bater dos corações
das pessoas tristes

cabem todos os silêncios,
no vôo ininterrupto das aves,
e cabem nele as vozes
que emprestei aos ventos

vou com as aves,
e entrego-me ao ar, vozeado
como as nuvens sobressaltadas,
inseguro como os amantes, voraz
como o tempo

e silencioso, como o vôo 
das quatro aves
que me sobressalta o olhar
e me esconde as névoas

Susana Duarte

terça-feira, 10 de outubro de 2017



desabito a casa azul
-dos esqueletos ensimesmados-
onde corvos voam,

e habito o silêncio,
onde as memórias afastam as telas
e as névoas se tolhem de mim


-relembrando-me onde os sonhos
são pontes, e os olhos,
moradores nobres de vidas-outras.

Susana Duarte





reencontro as metáforas onde
o sangue se liquefaz,
norteado pela ânsia dos corpos,
[ambivalentes como as águas]


aproximando-me de Avalon,
onde velhos rituais iluminam os dias
[tu, ausente, navegas o sangue
oculto, e perdes o sol, e o poema
de seres a barca da aurora]

Susana Duarte


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Si conobbero.
Lui conobbe lei e se stesso, perché in verità non s’era mai saputo. E lei conobbe lui e se stessa, perché pur essendosi saputa sempre, mai s’era potuta riconoscere così.

( Italo Calvino)

quarta-feira, 4 de outubro de 2017



Te imprimo en el borde de mis sentidos
donde el limbo apenas es un camino

salto de hoja en hoja y en la naturaleza viva de tus manos
abro mi boca sedienta del agua que sale de tu cuerpo


Ondeo las líneas de tu tallo y
me nutro con tu vida:

semilla,
fuente,
flor nocturna
y durazno rosado;
luz naciente
ángulo inexistente de una curva,
cuarto creciente
de mi luna.

te imprimo en el rincón ambiguo de los sueños
a la espera del sol naciente, cortante de mis venas

amplitud de navegación de las flores, en la cala
donde vestí las flores al mirarlas,

luz

cueva de lobos de una nueva montaña
donde imprimimos la especie, en los ojos azules de tu boca

te imprimo en el borde de mis sentidos
donde el limbo es el margen de la vida

por medio de encrucijadas y ligaciones extrañas
pero donde siempre reina tu nombre…


Susana Duarte
(poema e foto)
Tradução: Tiziana Calcagno
quantas casas já habitei?
quantos corações me esperam morada?
quantos olhares são parapeito de esperança, 
contendo as perguntas que me querem resposta?
mas eu não passo de poema beijado,
escrevendo amanhãs impossíveis.

© João Costa . 30.setembro.2014





segunda-feira, 25 de setembro de 2017

"I want to be cured of a craving for something I
 cannot find, and of the shame of never finding it"

T.S. Eliot

sábado, 23 de setembro de 2017


saúda-me a tristeza, a partir das janelas de onde, antes, brilharam estrelas de vida, ante a visão de ti e das tuas carícias. saúda-me, e eu deixo. saúda-me a saudade, e eu deixo. saúda-me a vida que tive dentro, quando contigo sonhava. e eu deixo. saúdas-me tu, no abraço demorado que me deste e, todavia, me prometes. e eu deixo. saúda-me a tristeza, mas não te deixo partir. saúda-me a vida antes de mim própria. e eu deixo. saúda-me o brilho dos teus olhos. e eu deixo. neles vivo. neles morro. e eu deixo que a vida me preencha de vida. e eu deixo que a vida me preencha de morte. e eu deixo. mas deixo sobretudo que o sonho não morra. deixo que me vivas. deixo que me habites cada movimento das pálpebras. deixo que me sonhes. deixo que tenhas saudades de mim. mesmo quando a tristeza me habita. mesmo quando a saudade me desespera. habitas-me. não sei ser sem ti.

Susana Duarte


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

“There is no Greater Agony…
Than Bearing an untold Story inside You…”

Maya Angelou (1928-2014)

Ph

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Dandélio. Creche e Jardim de Infância, em Coimbra

O Colégio Dandélio resultado de uma iniciativa da APPACDM, disponibiliza à comunidade local um novo espaço dedicado ao desenvolvimento infantil, que se pretende pedagogicamente diferenciado, acolhendo uma creche e um jardim-de-infância.
O edifício está construído em terreno urbano, numa encosta da cidade de Coimbra e o seu desenho procura compatibilizar a resposta ao programa funcional com o respeito pela morfologia envolvente, embora sugerindo novas regras arquitectónicas. As restrições orçamentais foram também determinantes, resultando numa estrutura modular que se reflecte na própria fachada. A acessibilidade universal é especialmente importante neste âmbito e, nesse sentido, eliminaram-se quaisquer barreiras físicas que constituíssem obstáculos à livre circulação de todas as crianças, garantindo que, apesar do projecto se desenvolver em dois pisos, se reservavam ao piso inferior áreas de serviço como balneários do pessoal, lavandaria, arrumos e garagem coberta libertando-se o piso térreo para reunir as principais áreas funcionais do programa.
A organização cruciforme da planta permite que o átrio comunique directamente com as áreas comuns – salas de professores, administração e instalações sanitárias acessíveis – bem como com a creche e jardim-de-infância. A Creche, destinada a crianças até aos três anos de idade, inclui um berçário, copa de leite, zona de higienização, sala-parque e duas salas de actividades. À excepção dos sanitários dedicados, todos os espaços comunicam entre si e permitem a observação e controlo permanente. Por sua vez, o jardim-de-infância reúne duas salas de actividades, instalações sanitárias, sala de refeições e sala polivalente, sendo que estas duas últimas são espaços partilhados que, através de divisórias amovíveis, permitem a sua utilização autónoma ou em conjunto, beneficiando ainda de uma relação directa com o espaço de recreio coberto.
No interior, o pavimento vinílico azul e a cor natural dos elementos de carpintaria destacam-se dos restantes materiais cuja predominância do branco pretende criar uma plataforma neutra interactiva apropriável pelas crianças. O recreio exterior apresenta-se vedado pela arquitectura do edifício e pelos muros que delimitam o lote. Tem exposição solar privilegiada, acesso directo a partir das salas de actividades e, através de uma rampa, dará acesso a um segundo espaço de recreio, a localizar à cota baixa do logradouro, que incluirá as hortas pedagógicas que complementam as actividades lúdicas no exterior.
A Criança está no centro de todas as decisões relativas a este processo, e esse cuidado manifesta-se quer na atribuição da melhor exposição solar, ventilação natural e contacto com o exterior às salas destinadas à estadia das crianças, quer em momentos arquitectónicos singulares, como a dupla escala dos vãos exteriores, que resulta na imagem de marca deste empreendimento.







Fonte: Do mal o menos, blog de Arquitectura (http://www.domalomenos.com/)


segunda-feira, 11 de setembro de 2017



Talvez percorra caminhos 
que não sei,
quando as aves ensimesmadas
dormem,


e ocultam as asas
sob o peso da noite

e voam,
ainda assim,

possuídas pelo silêncio

com que evocas

o meu nome.

Susana Duarte

sábado, 9 de setembro de 2017

os lugares                        dos fantasmas
são os corpos                      desabitados

e as noites amarelecidas           sem ar,
exaustas como as veias    

e perdidas                     como as manhãs
dos corpos-outrora-amantes,         agora
lugares onde                          as sombras

convocam espectros,               quimeras
aladas        e nomes ditos     em silêncio




sexta-feira, 8 de setembro de 2017



o lugar onde morre o poema:
o da tua partida lenta,
inominável

(o poema violento, a crucificação
do amor vivido).


o lugar da morte em vida
(ausência das pequenas-mortes
vívidas do aurorescer)
é aquele onde inflorescem
os dedos, e a salvação
reside nas noites que, todavia,
tardam em renomear o silêncio

Susana Duarte



domingo, 3 de setembro de 2017

I am hopelessly in love
with a memory. 
An echo from another time, another place. 

-Michel Foucault



domingo, 27 de agosto de 2017

o poema desocupou o corpo onde,
outrora, inscreveu vida

foi assim que o poema morreu e,
com ele, caíram as folhas 
e as árvores e as primaveras 

o poema, nado-vivo,e as palavras 
que o percorriam, segregavam seiva
mas morriam. morriam na morte dos corpos
amantes, e nas ruas por percorrer

morriam nas veias do corpo desocupado,
e no amarelecer dos dias. morriam,

e todavia falavam de lugares e de corpos vivos,
aqueles onde as névoas dissipadas 
permitem ver as veias e os dias idos,

e, talvez, ainda, segregar o sangue
que trará as palavras que, de novo, ocuparão 
os dias sombrios dos corpos

Susana Duarte





sábado, 26 de agosto de 2017



deixar os dedos onde as árvores falam e as aves
calam memórias, mantém vivos os nós dos dias
e a imprecisão dos sonhos. não sei de onde vêm


as absurdas imagens que persistem nas veias, 
ou as fotografias tiradas sob a luz esmaecida 
dos tempos. deixar as aves calar as memórias,
desabita a retina e deixa vítreos os grãos de areia


outrora revolvidos por mãos ansiosas, ágeis,
descomedidas nos toques e na procura dos corpos.

outrora absurdas, as veias ondulantes, mulheres 
desmedidas e intensas na avidez dos olhares.
mulheres. grãos de areia nos corpos amantes,
vítreas nos olhares com que se estendem, aves
elas próprias, na ignomínia dos abandonos.

Susana Duarte (poema e foto)
2016




aqui respiro improbabilidades
[como sombras pacatas 
erguendo os seios da noite]

e desfaço os laços brancos da noite 
[onde me separo das águas 
e caminho para sul]


caminho para sul, e invento 
pardais, e o sol do tempo
inventa-me a mim
[construindo-me rocha, e névoa, 
e sede sobre a terra]

Susana Duarte
2017
Poema e foto




"O sonho é um teatro íntimo"




íntimo é o silêncio das trovoadas

estranhas
nas entranhas do pensamento


e nas estradas desertas
onde me tolho de mim

Susana Duarte (poema e foto)
2012


a metamorfose dos olhos
reside na curva inesperada dos cílios

onde ficam as névoas e a claridade do olhar,
quando os olhos, mudos, se elevam pelos caminhos
silenciosos das mágoas antigas?


onde ficam as luzes e as quimeras,
quando as mãos [em fuga] navegam
as ausências dos olhares?

a metamorfose das mãos 
reside na curva inesperada dos seios,
nos lugares de ontem e na desocultação
do grito

as mulheres são olhares pousados
onde vivem os mistérios, senhoras que são das neblinas
e dos sortilégios

a metamorfose das mulheres é a demanda
feiticeira das paixões, e o grito sonoro
arrancado do peito

Susana Duarte (poema)
Fotografia: Francesca Woodman




não te conheço; todavia, habitas
os lugares da mente e os olhos
dúbios dos lugares que ainda não sei.

talvez saibas onde residem as mágoas
[escondidas] dos dias de antes. talvez
despertes as auroras, e saibas ondear
as marés que temo, que não sei, aquelas
onde os vôos se escondem nas noites
alvoraçadas pelo crocitar de aves
estranhas [perdidas no horizonte,atrás
das nuvens, elas] que me recobrem
quando as névoas me assaltam a pele.


não te conheço; todavia, habitas
os olhares nunca dados, e sorris,
mesmo quando o sorriso desfalece 
no recanto escondido da boca.

talvez te saiba, nos promontórios 
das memórias de todas as vidas,
onde esvoaço as sombras e vivo.

Susana Duarte (poema e foto)
Agosto 2017


domingo, 20 de agosto de 2017

sábado, 19 de agosto de 2017

a metamorfose dos olhos
reside na curva inesperada dos cílios

onde ficam as névoas e a claridade do olhar,
quando os olhos, mudos, se elevam pelos caminhos
silenciosos das mágoas antigas?

onde ficam as luzes e as quimeras,
quando as mãos [em fuga] navegam
as ausências dos olhares?

a metamorfose das maos 
reside na curva inesperada dos seios,
nos lugares de ontem e na desocultação
do grito

as mulheres são olhares pousados
onde vivem os mistérios, senhoras que são das neblinas
e dos sortilégios 

a metamorfose das mulheres é a demanda
feiticeira das paixões, e o grito sonoro
arrancado do peito

Susana Duarte
Fotografia: Francesca Woodman







quinta-feira, 17 de agosto de 2017

aqui respiro improbabilidades
[como sombras pacatas 
erguendo os seios da noite]

e desfaço os laços brancos da noite 
[onde me separo das águas 
e caminho para sul]

caminho para sul, e invento 
pardais, e o sol do tempo
inventa-me a mim
[construindo-me rocha, e névoa, 
e sede sobre a terra]

Susana Duarte


terça-feira, 15 de agosto de 2017



eis as palavras sussurradas ante a força das areias,
na ondulação ciciante das ondas baixas e 
na nudez inesperada das rochas,

onde cada um dos teus ontens, se consubstancia
em palavras, presentes em cada um dos 
abraços com que percorres


o poema.

Susana Duarte





surpreendes as memórias,
num presente anunciado:
todo o tempo é terreno,

todo o mar salgado
é uma ave rara


por cumprir.

surpreendes, todavia, as memórias
e acordas as navegações
de um ventre oculto

onde as palavras mortas
recuperam a água
e renovam o vôo.

são águas novas,
as que se sobrepõem à morte.

são vôos novos,
de aves antigas. são vôos
delicados de aves temerosas.

são os dias
de agora. são os dias 
das deusas e das estações.
são os dias das quimeras,

onde as aves atrasam o vôo
e as mulheres se entregam às nébulas,
tao rarefeitas como elas

Susana Duarte


ESCREVO-TE



escrevo-te, para que saibas onde estou

perdi-me para além das amoreiras bravas,
que me pintam os lábios, e a pele, e os sentidos,
com as cores profundas das noites azuis


escrevo-te, para que saibas onde estou

perdi-me para além dos oceanos, onde nereidas
consomem o sal sereno dos mares calmos,
e a história nos reescreve nos dias salgados da procura

escrevo-te, e quem sabe, descobrir-me-ás

onde as Náiades serenam as águas já doces
e as amoras me preenchem com o rubro das suas bagas,
e o sumo delas me escorre pelos lábio, que beijas,

na procura incessante dos horizontes para além dos quais me perdi

Susana Duarte
2013

terça-feira, 8 de agosto de 2017

"I wanted to forget the past, but it refused to forget me. It waited for sleep then cornered me"

Margaret Atwood


sábado, 5 de agosto de 2017



deixar os dedos onde as árvores falam e as aves calam memórias, mantém vivos os nós dos dias e a imprecisão dos sonhos. não sei de onde vêm, as absurdas imagens que persistem nas veias, ou as fotografias tiradas sob a luz esmaecida dos tempos. deixar as aves calar as memórias, desabita a retina e deixa vítreos os grãos de areia, outrora revolvidos por mãos ansiosas, ágeis, descomedidas nos toques e na procura dos corpos. deixar os dedos falar,é acordar as memórias das aves, e os traçados imprecisos das ilusões. por entre quimeras, as horas acordam as imagens esbatidas pelo tempo, e as retinas desconexas da realidade regressam aos conteúdos habitados pelas rotinas. calar as memórias permite a antevisão do futuro ou, pelo menos, a vivencia pacífica dos dias de hoje. calar as aves é dar aos sons as memórias das árvores, tao imprecisas como o sonho, tao vivas quanto ele.




Susana Duarte

quinta-feira, 3 de agosto de 2017



as mulheres solitárias
desembainham expectativas
de onde outros retiram espadas
ou, talvez,sonhos perdidos

são únicas, azuis e imprevisíveis,
as mulheres solitárias. nelas,
colidem árias e são derrubados vôos
[são, na caminhada, aves lentas]
e, nos vôos, é incorporado o algaço
e as conchas e as sombras das aves
[também elas azuis, e solitárias
como as mulheres solitárias 
que desembainham expectativas
do pecíolo das vidas, das folhas
verdes por ondem fendem futuros]

as mulheres solitárias são lentas,
e curvas, onde o vôo baixo rarefaz
as nébulas, raras como os sonhos,
tão rarefeitas como as expectativas


Susana Duarte


segunda-feira, 31 de julho de 2017

"Os dez lugares do amor"



"-Foram 10, os lugares do amor…-pensou ela.
A estação dos comboios foi, de todos, o primeiro e, de todos, o derradeiro. As portas do ocidente abriram-se ao estrangeiro azul, olhos postos no sorriso que anteviu e no encontro que –temia- poderia nunca acontecer. O encontro, afinal, aconteceu, e teceu-se com as mãos que anteciparam os beijos, as madrugadas claras, e o suor dos corpos reencontrados.
Refém de si mesmo, e dos cabelos negros que abraçava, o estrangeiro azul libertava anos de procura, ao mesmo tempo que, dos seus olhos, saíam névoas preocupadas: tudo mudara e, no entanto, tudo tinha, ainda, que mudar.
- Este é o segundo dos lugares do amor…-pensava ele, mãos dadas sobre o leito, sorrisos postos no futuro que antevia.
A vida acontece inesperadamente. Confronta. Exige respostas e capacidade de ajustamento. Acontece. Ao acontecer, traz consigo o cheiro de todas as infâncias, o eco de todos os receios, e a inevitabilidade das decisões. O estrangeiro azul intui que, a partir dali, outros serão os lugares do amor. E sabe que, a partir daquele encontro, tudo mudou e, no entanto, tudo terá, ainda, que mudar.
Os dias sucedem-se, e os lugares do amor são vividos com a respiração ofegante de quem quer viver a vida toda nos dias que lhe são dados, um de cada vez, hora a hora, segundo a segundo. E, inevitavelmente, acabam.
O rio, navegante incansável, escorre ali mesmo, entre as margens que o delimitam e são, simultaneamente, todas as suas possibilidades de progresso e caminho. O rio foi o nono lugar do amor. Sobre ele, fluíram marés originadas por aquele encontro. O mundo tinha mudado a lógica das coisas. A inevitabilidade do encontro, também mudara tudo o que conheciam. Os corpos transpiraram marés, por sobre o fluir do rio, e por sobre o fluir daquelas duas vidas.
-Este deveria ser, apenas, um dos lugares do amor-pensavam eles-, mas o derradeiro será aquele que apartará os corpos.
Se sonharam, nessa noite, sonharam com as flores colhidas, após as sementes deixadas na terra, numa sucessão de estações que viveriam juntos. Sonharam, talvez, com as noites, e os dias, e o devir. Sonharam, talvez, que tudo o que ainda tinha que mudar, já estivesse mudado, portas abertas, a ocidente, para todos os lugares do amor. Sonhar os luares do amor era a única forma de não ficar só. a solidão da separação, após ter tocado o amor, é escura, e fria, e dolorosa, e inevitável e, aparentemente, eterna. Escrever a vida, trilhando caminhos sem dar as mãos, depois de conhecer os lugares do amor, é aprender a caminhar numa noite longa e fria. Acordar, pois, é antever a ferida aberta no íntimo do corpo, e descobrir o frio na aparente invencibilidade com que se acorda em cada dia.
O estrangeiro azul, e a metade de si, separar-se-ão naquele que foi o primeiro-e será o derradeiro-lugar do amor, aquele onde se olharam nos olhos e deixaram as lágrimas soltar a noite de chuva que viveram, dias antes, os dois, de mão dada a enfrentar as intempéries-todas-, que acreditaram poder vencer.
Ficarão ligados, para sempre, aos dez lugares do amor. Abraçar-se-ão em cada sonho, em cada recanto de cada palavra. Saberão da inevitabilidade do reencontro. Até lá, reaprenderão a vida, e a morte, e a saudade, e o amor, e a ternura, e a ausência, em cada primavera antecipada, em cada estação que, todavia, os separar ainda.
- O 11º lugar do amor, terá que ser aquele onde perdemos as mãos, porque o outro as levou consigo- pensou ela.
Ao mesmo tempo, ele pensava que as mãos que deixou, voltarão a si, no momento em que devolver aquelas que, consigo, em si, levou. Porque sabe, desde já, que se encontrarão no abraço, aquele que será dado no 11º lugar do amor."

Susana Duarte
(tentativa de mini-conto)
De 2013

quinta-feira, 27 de julho de 2017



I think I made you up inside my head. 




Sylvia Plath


quarta-feira, 26 de julho de 2017

Escrevo-te (ouvindo Maurice Jarre, «Carpe Diem», do filme Clube dos Poetas Mortos)





escrevo-te palavras verdes,

ornadas de levante. olho para as nuvens,

meu triste poeta

solto sobre os ventos traduzidos pelos poros do olhar,

meu triste poeta flávio,

meu triste poema sábio, escrito sobre a pele

escrevo-te palavras cartografadas por marinheiros romanos,

ó poeta. meu triste poeta,

assombrado pelas existências, tumultuado pelo vento leste:

escreve-me a calma da brisa que impele o dente-de-leão,

escreve-me palavras verdes,

escreve-me a serenidade lenta do calor,

ó meu poeta, ó meu amor.


Susana Duarte

(do livro Pangeia, não publicado)

domingo, 23 de julho de 2017



quando chegares, não acendas a luz:
ilumina-me com o futuro liquefeito dos teus dedos
e olha-me, com a vertente solar
dos teus olhos.


quando chegares, avisa as aves:
soletra cada uma das plúmulas com que desenhaste
as ausências, essas, que fizeram de ti
o sonho apátrida 
das noites.

ilumina-me, então, com o voo abrupto
dos desejos sobre os lábios; 
com a sombra ambígua
das manhãs

e com o eco vago das quimeras.

quando chegares, não acendas senão o peito,
e olha em redor das mágoas:
saberás que as noites
apátridas

têm recantos onde as aves 
se iluminam; onde as plúmulas desenham círculos
na madrugada, e as mulheres se entregam às brumas.

talvez saibas, então, qual dos caminhos
trilhar. no voo abrupto das aves 
sem nome.

Susana Duarte (2015)


sábado, 22 de julho de 2017

geometrias



somos em todos os lugares 


onde fomos geometrias 


dizentes,

simetrias

de corpos adjacentes, 
nascentes de tudo



e sementes de nada


somos, em todos os lugares 

onde fomos chão,


compostura,

expiação,


procura absurda dos olhos
grandes 

que os seios
ocultam.




somos, em todos os lugares,


interditos
entre-ditos
entre dentes


flores rasas de cada manhã-
rasas como os voos longos


das asas que não me dás.


Susana Duarte