quinta-feira, 25 de maio de 2017

"I don't need to manufacture trauma in my life to be creative. The world give me a reservoir of sadness or emotional trauma"

|Sting|


quarta-feira, 17 de maio de 2017

há um poema por escrever onde a vida alucina e uiva



há um poema por escrever 
onde a vida alucina e uiva,

onde as ondas são marés 
ruivas de desalento, e o poema

decadente
se inscreve nas veias 
azuis de todos os dias.

onde mora o poema, 
demoram-se as aves

apátridas
e os sonhos dúbios
das mulheres. são sempre dúbios,
os sonhos das mulheres.
são azuis e são negros 
e são brancos 
e vermelhos,

os sonhos das mulheres.
como os poemas por escrever,
as mulheres demoram-se
nos beirais dos dias. esperam

pelas aves, pelas palavras, 
pelos filhos, e por serem apenas

isso: mulheres, poemas por escrever,
apátridas como as noites
onde gatos ciciam diálogos

incompreensíveis, e caminham 
sós pelas ruas de antes.

Susana Duarte

terça-feira, 7 de março de 2017

os afluentes da noite são ecos
soltos sobre mim. de ti, nada mais resta,
senão a imagem que guardei no corpo.
os rios que me navegavam eram, apenas,
ecos das águas, e o meu corpo
guardou-te, para te perder depois.

sobram ecos esquálidos das vozes
com que me preenchias. não ficaste e,
 todavia, esperei por ti. lívida, cadáver vivo
que se desfaz em cada uma das tuas palavras,
eco adiado dos meus anseios. os afluentes
da noite são rios sem voz. perdeste os meus gritos. perdeste a foz.

nada te resta, senão olhar-me de longe.
sabes que habito outro plano, o do dia
e da luz com que prossigo, todavia,
sobre as flores submarinas. nada te resta, senão as lágrimas e o arrependimento. talvez possas ressurgir, noutras vestes,
noutros seixos. mas serás sempre a sombra,
a vida incompleta que se declina
nos lugares que já não procuro.

Susana Duarte

quinta-feira, 2 de março de 2017

de todos os momentos que foste, talvez não saibas ainda que o mais belo foi o momento que antecedeu o beijo. foi o momento que antecedeu, e não o beijo, que mudou de lugar as madrugadas, moveu o ar das noites e o luar das minhas manhãs. de todos os momentos que foste, o mais belo foi a antecipação do futuro, ainda que, depois, se tenham perdido todas as madrugadas das mãos. de todos os momentos que foste, o mais belo foi aquele em que o abraço antecipava amoras, e as amoras eram beijos rubros tingindo a manhã. de todos esses momentos, foste apenas um raio de sol perdido entre os meus olhos. nada mais foste, pois não soubeste raiar de luz as escolhas da tua vida. de todas elas, a mais fácil foi partir. de todas elas, a mais imperdoável, foi partir. dos teus dedos, nada mais ficou dos momentos que antecipavam o beijo, senão a mágoa das noites sem dia, e dos dias em que te foste. de todos os momentos, a maior mágoa é não teres sabido ser. de todas as madrugadas, esta será a mais triste.

Susana  Duarte

quarta-feira, 1 de março de 2017

[silêncio]


os sons da pele
sonham mãos
que dançam

(silêncio)

nos cílios
adormecidos
volteiam mãos
(inertes)


as mãos todas
sobre a pele


(outrora)

viva 

Susana Duarte




domingo, 26 de fevereiro de 2017

o silêncio nos corpos

(e os corpos em silêncio)

demora as aves
e a floração das rémiges.

o silêncio das asas

decompõe as margens
por onde, silentes,
se cruzam os corpos

(talvez amanheça)



Susana Duarte

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017



"Acima de tudo devemos recordar o seguinte: a magia pertence tanto ao coração como à mente e tudo o que é feito deve ser fruto do amor ou da alegria ou da justa cólera. (...) iremos descobrir que a nossa magia é bastante maior do que a soma de todos os feitiços alguma vez ensinados. Assim, a magia é para nós o que o voo é para as aves, porque deste modo a nossa magia provém do coração, sombrio e sonhador, tal como provêm do coração o voo de uma ave. E ao praticar essa magia, sentiremos a magia da ave quando se lança no vazio, saberemso que a magia faz parte daquilo que é um homem, tal como o voo faz parte daquilo que é uma ave (...).





Livro de Lady Catherine Winchester- 1209-67, in "As Senhoras de Grace Adieu, de Susanna Clarke


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

PEDRAS

não posso escrever sobre as pedras

escreverei sobre a pele: a pele dada
em noite de brumas, vivida em solos de
espumas, brancas, da maré que em ti fui.

não posso escrever sobre as pedras

escreverei nos teus olhos as noites
serenadas sob mãos cansadas dos dias
e sôfregas de noites claras. em ti, ainda,

a avidez solitária do lobo que caminha
e devasta desertos de ervas poeirentas,
delas afastando as pedras, piroclastos
da existência, quando, inesperadamente,
a vida nos deixou escrever sobre o pó.

não posso escrever sobre as pedras

antes a luz clara do papel dos teus olhos,
a luminosa sabedoria das palavras
silenciadas no beijo claro que me deste.

escreverei esse beijo em cada olhar
dirigido ao céu que miras, aí, a oriente,
perscrutando o sonho e glorificando
o que antevês em cada movimento,
e nas pegadas de caminhantes invisíveis.

não posso escrever sobre as pedras
caídas dos teus olhos sobre o ferro duro
da existência. mas posso escrever no peito
as noites infindas da memória, tornando-as
sal da existência, caminho onde caminho,
as noites todas da minha vida, e a indefinível
paixão com que delimitas o espaço onde existo.

Susana Duarte

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Camminavamo senza cercarci, eppure sapendo che camminavamo per incontrarci.

Julio Cortázar


domingo, 12 de fevereiro de 2017

falo-te de ti, e falo-te de mim



falo-te de ti, e falo-te de mim. 
falar de ti, é falar das noites claras da procura, e das luzes incendiadas pelo retorno. 
falar de mim é falar do sabor e do saber feito de dores paridas pelos joelhos da solidão. falar das sombras desfraldadas pelas flores, é procurar, nelas, as vozes que são tuas, as vozes que são nossas. e é percorrer amargas colinas de amendoeiras cujas flores ficaram aquém das aves. 
falo-te de ti, e falo-te de mim. 
e nomeio as luzes das coisas estranhas. nomeio as levadas de águas fugidas do musgo onde deitei os braços. agarrei-me ao invisível, ao sagrado, ao noturno, para reencontrar as linhas de ferro de todas as partidas. falo-te dos prados e das ruas ascendentes do esvozeamento da voz. e do enchimento da mágoa. e do espanto sereno de te procurar sempre, nas ruas desavindas dos espectros e dos saberes das feiticeiras. 
saberes dos dias, nada te ensinou sobre as noites. saberes das noites, nada te iluminou os dias. permaneceste água fugidia e mar revolto em contradança. 
os passos das bailarinas são vozes sem cor. entregas-me as mãos. de súbito, tremem as nozes no ventre da terra. e voam aves ao núcleo do sagrado. depositas flores nos lábio, e entregas lábios ao vento. vento. voa. sê. desflora as florestas encandeadas por tremores ocultos de outras eras. 
falo-te de ti, e falo-te de mim. não sabes que a cor dos olhos é a mesma das dúvidas. não sabes, ainda, que a cereja que comes, é a rubra transição do sangue sobre mágoas milenares. mas sabes que as noites, e os dias, sucedem-se na imensa perturbação do tempo, e na perpétua vontade de sermos aves, e na inscrição deixada nos nenúfares, e no sol de todas as palavras que, antes, dissemos. palavras. estranheza no ventre. desassossegada inevitabilidade. sofreguidão dos dias de sol. ser, em cada um de nós, o som de todas as primaveras anteriores.

susana duarte



saltei pontes navegando rios de nuvens
e flores de estrelas gastas 
e átomos de momentos sós. 
fui noite na lágrima escura da ausência
e mar revolto nos momentos da tempestade
de uma lua inquieta. saltei ribeiras 
na procura de diamantes 
e flocos de neve escondidos 
sob a areia dos elementos:nós.
serei, ainda, por momentos, a chuva
por cumprir, e o ar dos dias que passei, 
e a evidência da procura das mãos
e dos rostos. sós. procuramos arco-íris 
na calada da noite e, atrás de cada um, 
vislumbramos a serena agitação da paixão.
procuramos diamantes residentes
na praia de areais revoltos pelo vento
do olhar. somos. somos a ânsia do repouso 
no olhar de cada um e a precisão do relógio
da vida que nos cruzou e decidiu.
serei sempre aquela mulher
que salta pontes sobre rios de nuvens,
e flores de estrelas gastas, e átomos
de momentos dispersos na eternidade.
nesse ser, serei procura.
encontras-me onde os olhos te dizem 
do meu olhar, e onde as nuvens 
me cobrem por inteiro; onde gatos 
passam nas ruas e se cantam fados
e mulheres nuas se revelam 
dentro dos corações íntimos da noite.



Susana Duarte


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Dandélio, Coimbra

O Colégio Dandélio resultado de uma iniciativa da APPACDM, disponibiliza à comunidade local um novo espaço dedicado ao desenvolvimento infantil, que se pretende pedagogicamente diferenciado, acolhendo uma creche e um jardim-de-infância.
O edifício está construído em terreno urbano, numa encosta da cidade de Coimbra e o seu desenho procura compatibilizar a resposta ao programa funcional com o respeito pela morfologia envolvente, embora sugerindo novas regras arquitectónicas. As restrições orçamentais foram também determinantes, resultando numa estrutura modular que se reflecte na própria fachada. A acessibilidade universal é especialmente importante neste âmbito e, nesse sentido, eliminaram-se quaisquer barreiras físicas que constituíssem obstáculos à livre circulação de todas as crianças, garantindo que, apesar do projecto se desenvolver em dois pisos, se reservavam ao piso inferior áreas de serviço como balneários do pessoal, lavandaria, arrumos e garagem coberta libertando-se o piso térreo para reunir as principais áreas funcionais do programa.
A organização cruciforme da planta permite que o átrio comunique directamente com as áreas comuns – salas de professores, administração e instalações sanitárias acessíveis – bem como com a creche e jardim-de-infância. A Creche, destinada a crianças até aos três anos de idade, inclui um berçário, copa de leite, zona de higienização, sala-parque e duas salas de actividades. À excepção dos sanitários dedicados, todos os espaços comunicam entre si e permitem a observação e controlo permanente. Por sua vez, o jardim-de-infância reúne duas salas de actividades, instalações sanitárias, sala de refeições e sala polivalente, sendo que estas duas últimas são espaços partilhados que, através de divisórias amovíveis, permitem a sua utilização autónoma ou em conjunto, beneficiando ainda de uma relação directa com o espaço de recreio coberto.
No interior, o pavimento vinílico azul e a cor natural dos elementos de carpintaria destacam-se dos restantes materiais cuja predominância do branco pretende criar uma plataforma neutra interactiva apropriável pelas crianças. O recreio exterior apresenta-se vedado pela arquitectura do edifício e pelos muros que delimitam o lote. Tem exposição solar privilegiada, acesso directo a partir das salas de actividades e, através de uma rampa, dará acesso a um segundo espaço de recreio, a localizar à cota baixa do logradouro, que incluirá as hortas pedagógicas que complementam as actividades lúdicas no exterior.
A Criança está no centro de todas as decisões relativas a este processo, e esse cuidado manifesta-se quer na atribuição da melhor exposição solar, ventilação natural e contacto com o exterior às salas destinadas à estadia das crianças, quer em momentos arquitectónicos singulares, como a dupla escala dos vãos exteriores, que resulta na imagem de marca deste empreendimento.







Fonte: Do mal o menos, blog de Arquitectura (http://www.domalomenos.com/)


domingo, 29 de janeiro de 2017

Durante tutto il viaggio la nostalgia non si è separata da me
non dico che fosse come la mia ombra
mi stava accanto anche nel buio
non dico che fosse come le mie mani e i miei piedi
quando si dorme si perdono le mani e i piedi
io non perdevo la nostalgia nemmeno durante il sonno

durante tutto il viaggio la nostalgia non si è separata da me
non dico che fosse fame o sete o desiderio
del fresco nell'afa o del caldo nel gelo
era qualcosa che non può giungere a sazietà
non era gioia o tristezza non era legata
alle città alle nuvole alle canzoni ai ricordi
era in me e fuori di me.

Durante tutto il viaggio la nostalgia non si è separata da me
e del viaggio non mi resta nulla se non quella nostalgia.

-- Nazim Hikmet


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

o teu sonho será a pele
que vestiu o rosto
da neve, nos dias brancos

da minha existência.

o teu sonho será a neve
que me vestiu a pele 
do rosto nos dias-todos os dias-
da ausência.

vestiria a nudez do olhar 
sob as escamas 
de um peixe nacarado.
procuro-te. o sonho
onde habitas é ainda
a ilha desconhecida 
do silêncio.


Susana Duarte

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017


“Se tu estás feliz num sonho, será que isso conta?”



- Arundhati Roy, O Deus das Pequenas Coisas

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

não sei de que falas, quando falas de amor





não sei de que falas, quando falas de amor,

nem o que dizes, quando me cicias flores de espanto


nos ouvidos-maio

onde os cabelos descobrem

nuvens novas de sede e de adeus

aos lamentos. não sei de que falas, quando prometes

madrugadas novas e algaço,

mar das minhas mãos, sargaço azul

de peixes voadores. não sei de que falas.

tornaste-te um estranho,

aurora plúmbea de todas as areias, raro

como as noites boreais

que nunca verei.

estranho ser que te descobres vertente úmbria

dos sonhos, imagem breve

da retina solta, imagem solta de um olhar breve,

poeta-imagem do corpo de outrora,

onde o dia se faz noite, e a noite, essa,

já não se demora sobre mim.

Susana Duarte