sexta-feira, 31 de julho de 2015

De António Carneiro.



Se me dizes
no idioma das àguas
que nascem lá muito longe:

"Vem,
e deita-te a meu lado,
tenho sede
de cinco pétalas."


Eu te digo:
Bebamos pela mesma taça.
É nossa a vinha,
o néctar, a vida a sobrar
da auréola do sangue
ao sono de pálpebras abertas.

De face contra face
de têmpora contra têmpora,
de pulso a pulso,
o silêncio intacto,
perfumado,
o tempo liquido,
sulcado,
os dedos como serpentes.
os anéis dos lábios cingidos,
sôfregos ambos,
ambos do mesmo ventre
e a rosa da noite para abrir.

antónio carneiro



quarta-feira, 29 de julho de 2015

simetrias



somos, em todos os lugares



onde fomos geometrias 


dizentes.






somos sombras, e simetrias


de corpos adjacentes,






nascentes de tudo,


e sementes de nada.






somos, em todos os lugares 


onde fomos chão,





compostura,


expiação,



procura absurda dos olhos


grandes 


que os seios


ocultam.





somos, em todos os lugares,


interditos,



entre-ditos, e


entre dentes;


flores rasas de cada manhã.





somos, em cada nascente,


rasos



como os voos longos


das asas que não me dás.





Susana Duarte




sábado, 25 de julho de 2015

Ruy Belo e João Gentil

(...)
Como posso pensar em ter futuro
Se tu és para mim o puro instante


Ruy Belo






Sublime João Gentil...

sexta-feira, 24 de julho de 2015

serás sempre a sombra, a vida incompleta que se declina nos lugares que já não procuro.




sábado, 18 de julho de 2015

do desapego


do desapego
_________________


as luzes da noite
nunca serão mais 
do que apenas olhos


à procura


das geometrias 
dos corpos



Susana Duarte 
Foto: Julia Margaret Cameron



Os Amantes com Casa, de Joaquim Pessoa



Andavam pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Respiravam exaustos como se tivessem
nascido da terra
de dentro das sementeiras.
Beijavam-se magoados
até se magoarem mais.
Um no outro eram prisioneiros um do outro
e livres libertavam-se
para a vida e para o amor.
Vivendo a própria morte
voltavam a andar pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Então era a música, como se
cada corpo atravessasse o outro corpo
e recebesse dele nova presença, agora
serena e mais pobre mas avidamente rica
por essa pobreza.
A nudez corria-lhes pelas mãos
e chegava aonde tudo é branco e firme.
Aquele fogo de carne
era a carne do amor,
era o fogo do amor,
o fogo de arder amando-se e por toda a casa,
contra as paredes, no chão.
Se mais não pressentissem bastaria
aquela linguagem de falar tocando-se
como dormem as aves.
E os olhos gastos
por amor de olhar,
por olhar o amor.
E no chão
contra as paredes se amaram e
pela casa andavam como
se dentro das sementeiras respirassem.
Prisioneiros libertados, um
no outro eram livres
e para a vida e para o amor se beijaram
magoando-se mais, até ficarem magoados.
E uma presença rica,
agora nova e mais serena,
avidamente recebeu a música que atravessou de
um corpo a outro corpo
chegando às mãos
onde toda a nudez é branca e firme.
Com uma carne de fogo,
incarnando o amor,
incarnando o fogo,
contra o chão das paredes se amaram
pressentindo que
andando pela casa bastaria tocarem-se
para ficarem dormindo
como acordam as aves.


© Joaquim Pessoa

Foto de Julia Margaret Cameron

sexta-feira, 17 de julho de 2015

tomei um café. lembrei-me de ti.







tomei um café, e lembrei-me de ti.
na sala limpa de nuvens e de palavras, 
sobraram pensamentos
onde impera a imagem,


a do teu sorriso,

a das tuas mãos que criam,


e que as notas de um violoncelo
quiseram alinhar entre os dedos
curvos 
da minha mão.


lembrei-me de ti,
e não era a hora dos malditos,
ou a das quimeras.


era a hora vigésima quinta,
ou a das trepadeiras
e dos sonhos por inteiro.


tomei um café, e lembrei-me de ti,
vi-te por entre as manchas castanhas
de uma chávena - visão que se impõe 
onde as palavras sussurram no corpo-
profundo e interior, o corpo- 
e o desfazem por dentro
(o que fará a escrita na pele?).




tomei um café.
lembrei-me de ti.






Fernando Pessoa - " Amo tutto ciò che è stato "

Amo tutto ciò che è stato, tutto quello che non è più, 
il dolore che ormai non mi duole, l’antica e erronea fede, 
l’ieri che ha lasciato dolore, quello che ha lasciato allegria 
solo perché è stato, è volato e oggi è già un altro giorno. 
Fernando Pessoa - " Amo tutto ciò che è stato "

quinta-feira, 16 de julho de 2015

...



"Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento"

herberto hélder


procura.
trago-te em mim, como trago as nódoas das outras vidas 
e as partidas todas, de todos os portos do mundo. revejo-te, 
como a uma mirabolante caminhada sobre as traves de madeira dos ossos,
 e neles inscrevo a tua presença, 
anónima, arqueada e inocente. trago-te em mim, todas as noites, 
aceso como as luzes e os sons que já povoaram a terra, castanha e húmida como as nozes da existência feminina. és, de todos os motivos, o mais perecível,
 e o mais eterno, como as maçãs 
perpetuadas numa tela. as maçãs, são os seios que seguras 
na linha que antecede a noite, e o perímetro dos sonhos 
onde encontrarás, de novo, a realidade e o ser. perdes-te, tragicamente,
 onde se agitam as nuvens. a nesga de céu que abominas 
é a mesma onde me passeio, despida, sôfrega de sol e de vento, 
aurora desfolhada de todas as luas que me nascem dentro. e permaneces cera, 
e permaneces voo antecipado, Ícaro naufragado com a força das asas sepultas. 

procura. serás a mão que antecipa as marés.


susana duarte

segunda-feira, 13 de julho de 2015

a Poesia



a Poesia nasce 
onde a realidade

não me traz:


nasce incorrupta 
no lugar dos sonhos.


Susana Duarte



"Re-examine all that you 
have been told, dismiss that
which insults your soul."

--Walt Whitman

domingo, 12 de julho de 2015

de Miguel de Carvalho


Olhar Opalino

A árvore lembra um cefalópode
suas folhas as ventosas
e o Outono humedece as palavras.

Elas enraízam-se no papel
enquanto o poeta sustém um tentáculo
e absorve a solidão enroscada na memória.

Deita-se e ascende no tempo.
Na paisagem as folhas são mudas
encerram vitórias anunciadas no gesto da escrita.

Na sombra da árvore a tinta queimada
a angústia visceral do molusco
elevam o verso à escala da noite.

A tinta negra escorre entre os grãos
retorna pelas raízes silenciosas.

Um sopro súbito de carne viva
dilacera o desejo oculto na copa.

miguel de carvalho
Santarém, 6-X-2007


(publicado na revista CORRIENTE ALTERNA, #1, Santiago do Chile, 2008)

Foto de Susana Duarte

sábado, 11 de julho de 2015

SER.



SER


aconteces-me nas horas desconhecidas
em que os cumes
das montanhas
são névoas dispersas
sobre os sonhos onde ondeio



aconteces-me nas horas vigésimas quintas,
onde o tempo se torna infinito
e as luzes das flores
me invadem
os pulmões, e me respiram
de odores almiscarados
e sabores
novos

aconteces-me onde não me sei
e as horas me não bastam,
onde disperso horas
de certezas
e de loucuras de outrora

aconteces-me,
simplesmente
porque existes dentro das águas
que me habitam
o ventre,
e porque conheces
cada onda
do mar

outrora oculto


Susana Duarte



Fotos de António Barradas, na sua página do Facebook. Coimbra, pôr-do-sol, 4 de Julho 2015

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Vista do céu...



que não ames demasiado tarde!
e te lembres que o 'amo-te' para ser ouvido tem de ser em vida.

© João Costa . 8.julho.2015



Coimbra. Festas da cidade, 2015

A. Fonseca Photography



"Afinal, há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte."

____José Saramago




Foto: Susana Duarte

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Who looks inside



"Your vision will become clear only when you look into your heart. 
Who looks outside, dreams. Who looks inside awakens."

Carl Gustav Jung (Memories, Dreams, Reflections - 1963)



"À espera dos bárbaros" - Konstandinos Kavafis



Que esperamos na ágora congregados?

Os bárbaros hão-de chegar hoje.

- Porquê tanta inactividade no Senado?
Porque estão lá os Senadores e não legislam?


Porque os bárbaros chegarão hoje.
Que leis irão fazer já os Senadores?
Os bárbaros quando vierem legislarão.

- Porque se levantou tão cedo o nosso imperador,
e está sentado à maior porta da cidade
no seu trono, solene, de coroa?

Porque os bárbaros chegarão hoje.
E o imperador espera para receber
o seu chefe. Até preparou
para lhe dar um pergaminho. Aí
escreveu-lhe muitos títulos e nomes.

- Porque os nossos dois cônsules e os pretores
saíram hoje com as suas togas vermelhas, as bordadas;
porque levaram pulseiras com tantas ametistas,
e anéis com esmeraldas esplêndidas, brilhantes;
porque terão pegado hoje em báculos preciosos
com pratas e adornos de ouro extraordinariamente cinzelados?

Porque os bárbaros chegarão hoje;
e tais coisas deslumbram os bárbaros.

- E porque não vêm os valiosos oradores como sempre
para fazerem os seus discursos, dizerem das suas coisas?

Porque os bárbaros chegarão hoje;
e eles aborrecem-se com eloquências e orações políticas.

- Porque terá começado de repente este desassossego
e confusão. (Como se tornaram sérios os rostos.)
Porque se esvaziam rapidamente as ruas e as praças,
e todos regressam às suas casas muito pensativos?

Porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.
E chegaram alguns das fronteiras,
e disseram que já não há bárbaros.

E agora que vai ser de nós sem bárbaros,
Esta gente era alguma solução.
.
["À espera dos bárbaros" - Konstandinos Kavafis (tradução, prefácio e notas de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)]

quinta-feira, 2 de julho de 2015

UC 725 anos

https://www.facebook.com/events/930552797001356/




Desvendamos um minuto do que vai poder ver amanhã no Pátio das Escolas das Universidade de Coimbra - UC 725 anos: Uma história de luz!
Posted by Universidade de Coimbra on Thursday, 2 July 2015

A GRÉCIA E O SOCIALISMO por Miguel Torga (Diário XIV, 1983, pag.191)


"Triunfo largamente maioritário dos socialistas na Grécia. Oxalá que o Espírito Santo os ilumine e, como gregos actuais, saibam dar ao mundo, actualizada, a lição política dos seus antepassados, e realizem no país mais pobre da comunidade europeia o milagre de que nenhum dos ricos será um dia capaz. A repartição equitativa dos bens foi sempre lei na casa dos carenciados. O mesmo caldo magro para todos, e o mesmo apresigo parco para todos. Quando o não há, divide-se a côdea. A justiça social espera a sua hora, e não pode ser mais adiada. Mas tem de ser obra dos de baixo, dos que a fartura ainda não preverteu.(...) Não me quero iludir, mas sou um homem de esperança. E teimo em continuar a sê-lo e acreditar no que sempre acreditei : (...) (N)um socialismo de homens de boa vontade, realmente fraternos, e não em funcionários afobados de uma organização partidária."