olho para trás
e não te vejo.
olho em redor e não te vejo,
apenas a Primavera canta
desassombrada
(assombrada eu pela ausência).
olho para trás
e não te vejo.
quisera saber do sorriso
que te sorria
quando me vias chegar,
ou quando o café se enchia de luz
com a presença do teu filho
da tua neta, do teu neto
e das flores que lhes nasceram.
mas olho para trás
e não te vejo. olho para a frente
e não tenho o teu braço para apoiar,
ou o teu olhar para me amparar
a queda, esta queda, este cair desmedido
de quem olha ao redor
e não vê abrir -se
o sorriso.
quisera olhar para o lado
e ver a tua mão pronta, a tua mão
minha Mãe
e saber-te ali, mesmo nos silêncios
de noites rotineiras
e cuja medida eu cria saber de cor.
a orfandade é um lugar
estranho
que não aceito
e não aceito
e vivo contrariada,
como contrariada vejo as flores
que já não vês.
havia frésias, hoje, no café do mercado
onde parei por instantes.
havia frésias.
olho para trás
e não te vejo.
pudesses tu estar aqui,
onde as frésias ombreiam
com a minha orfandade, neste olhar
em redor
e não te ver.
Susana Duarte
