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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

AMOR

a mulher desnuda a alma luzente,

semeadora de luzes

onde a luz poente

se detém...abismo

...
de onde se levantam as luzes do ventre,

e se vislumbram transparências

na lucidez

das águas; nela, crescem e se afundam mágoas,

e as esguias margens de um rio.

a mulher desnuda-se nos braços amados,

plantadores de sementes

onde as névoas se dissipam

e as quedas acontecem no seio dos abraços

devolutos à sua eterna condição

de Ser em outrém,

na bravura das ondas que são corpos,

movimentos sincopados

de um oceano vivo

dentro dos olhos,
ágape dos cristalinos,
melopeia coralina
das imagens dos amantes.


amar acontece no espaço do corpo

onde tempo e distância se tornam

universo inexistente.

primavera de giestas vivas
onde a lava incandescente

são folhadas caídas da pele,

escamas vivas de sermos Um,

na imensa amálgama do universo.
 

 susana duarte
 
(foto Google)

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

.entretece-me as malhas das veias na urdidura de um tear antigo.

.na claridade entrevista nos poros, escrevi a sangue a tua presença.

.destinei-me às linhas das tuas mãos, como as cerejas são da primavera.


.agora, na noite que me espera, compro linhas onde fio mantas de retalho,

inscrevendo nelas as estórias vividas e aquelas que, em fio invisível,

aguardam ainda o novelo que lhes desenhará o futuro.

 susana duarte

sexta-feira, 28 de setembro de 2012


 
 
 
somos aves. somos flores. somos mágoas.somos névoas dissipadas. somos fráguas. densas rendas desenhadas sobre o vento. densas lendas desenhadas no desalento. densas aves desenhadas no papel. suaves flores. suave mel. somos ausência. somos dúvida. somos dor. somos obra vasta, penhor das nuvens, borboleta. somos a renda escavada numa gruta. desenho leve das águas. lenta dúvida que se desfaz. trégua na noite. suave onda. somos estrela alva na aurora desfolhada. breve canção, montanha escalada. somos a folha e a gota de orvalho, a fada etérea e a rocha e o galho. somos teixo, égua, albatroz. somos fruta. somos noz. somos deserto nas noites coalhadas. somos água e bico e sede. somos tudo. somos nada. somos vida. somos morte. somos acaso, destino, sorte. somos deuses e maçãs. ruas. estradas. manhãs. somos eu, e somos tu, e somos um e outro, cada um do outro. somos a vida. somos a morte. somos cítara e somos sorte. música, fuga, escarpada. somos tudo. somos nada. somos a soma de todos os outros, antes de nós. a voz das fontes, a voz da voz. somos um, e somos outro. e descobrimos a fonte da vida, na água que jorra da boca de cada um. somos infindos. somos unos. somos, sobretudo, quando somos juntos. abraço o teu infinito. somos aves. somos flores. somos céu. desdobra-te em mim. despoja-me de mim. sejamos o começo. e o fim.

susana duarte
(imagem: google)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

as aves solitárias
moram na bainha das folhas,
e migram através das nervuras,
e desfolham-se no limbo;
atravessam pecíolos, e navegam ondas de som desfocado.
as aves solitárias
moram nos espinhos achatados,
mas almejam a endoderme do sonho.

moram na endoderme do sonho.

as aves solitárias têm a forma obcordata do amor,
e desenham cores variegadas na confluência dos toques

das mãos.

susana duarte
 
foto de ivano cetta
 

domingo, 23 de setembro de 2012

sauda-me a tristeza, a partir das janelas de onde, antes, brilharam estrelas de vida, ante a visão de ti e das tuas carícias. sauda-me, e eu deixo. sauda-me a saudade, e eu deixo. sauda-me a vida que tive dentro, quando contigo sonhava. e eu deixo. saudas-me tu, no abraço demorado que me deste e, todavia, me prometes. e eu deixo. sauda-me a tristeza, mas não te deixo partir. sauda-me a vida antes de mim própria. e eu deixo. sauda-me o brilho dos teus olhos. e eu deixo. neles vivo. neles morro. e eu deixo que a vida me preencha de vida. e eu deixo que a vida me preencha de morte. e eu deixo. mas deixo sobretudo que o sonho não morra. deixo que me vivas. deixo que me habites cada movimento das pálpebras. deixo que me sonhes. deixo que tenhas saudades de mim. mesmo quando a tristeza me habita. mesmo quando a saudade me desespera. habitas-me. não sei ser sem ti.
 


susana duarte
 
foto de Ivano Cetta
 

 

domingo, 16 de setembro de 2012

Um poema meu, traduzido pela querida amiga Tiziana Calcagno (gracias, Tiziana!)

NOMBRE

Te imprimo en el borde de mis sentidos
donde el limbo apenas es un camino

salto de hoja en hoja y en la naturaleza viva de tus manos
abro mi boca sedienta del agua que sale de tu cuerpo

...
Ondeo las líneas de tu tallo y
me nutro con tu vida:

semilla,
fuente,
flor nocturna
y durazno rosado;
luz naciente
ángulo inexistente de una curva,
cuarto creciente
de mi luna.

te imprimo en el rincón ambiguo de los sueños
a la espera del sol naciente, cortante de mis venas

amplitud de navegación de las flores, en la cala
donde vestí las flores al mirarlas,

luz

cueva de lobos de una nueva montaña
donde imprimimos la especie, en los ojos azules de tu boca

te imprimo en el borde de mis sentidos
donde el limbo es el margen de la vida

por medio de encrucijadas y ligaciones extrañas
pero donde siempre reina tu nombre…

susana duarte
Tradução: Tiziana Calcagno
POEMA

todos os dias, o poema
de ser poema todos os dias.

todos os dias o poema de seres poema
nas minhas veias. todos os dias, o poema

de seres verdade. todos os dias, a verdade de seres
Verdade absoluta dissolvida nas margens das artérias
e inegável Poema dos capilares do sentir. todos os dias.

susana duarte

 sei das rosas que amavas e da delicadeza do toque, ainda que as memórias  obnibuladas pela dor, se ausentem ...