(sobre uma foto do amigo William Bigorna, e sem autorização prévia), escrevo:
há aves que pousam, silentes,
nos ombros da madrugada
(tão ensimesmados quanto eu,
tão capazes de voar, ou de ficar, quanto eu,
ou tão perdidos, quanto eu ou as casas
derrubadas
das aldeias onde cresci).
crescer foi a criação do sol, ave solta
sobre os braços dos seres que me elevavam
à divina aspiração do futuro
(onde aves piavam, solares umas,
nocturnas outras, solenes todas,
onde o compasso da procissão
transfigurava os rostos de fé,
ou de dúvida).
o amor não era solene,
era apenas e só amor, vôo, direcção,
caminho seguro e chão de uvas maduras,
o mosto e a vida pisada no lagar
da minha infância.
a infância não era solene,
ainda que cheia de solenidades (era só um lugar
seguro, onde aves soltas
e bandos de estorninhos
sobrevoavam a quinta de Horta
ou a ribeira da Curia ou a casa da Ti Ana
ou a loja dos avós). crescer foi a ave solta
sobre as madrugadas, todas as madrugadas,
que me conduziram aqui. amanhecer
menos povoada de abraços antigos
(amanhecer nas memórias dos rostos
e dos caminhos e dos corações, dos latidos
e dos sons e das vozes guardadas
e das pessoas que recordo e queria ter).
de aves belas e livres
e de aves lúgubres sentadas sobre os ombros
das madrugadas, se fez manhã, hoje,
por entre névoas e o desconhecido.
Susana Duarte
Aldeia de Horta
(podia ser a Curia)
10/12/2025
Autor da fotografia: William Bigorna



