quando chegares, não acendas a luz:
ilumina-me com o futuro liquefeito dos teus dedos
e olha-me, com a vertente solar
dos teus olhos.
quando chegares, avisa as aves:
soletra cada uma das plúmulas com que desenhaste
as ausências, essas, que fizeram de ti
o sonho apátrida
das noites.
ilumina-me, então, com o voo abrupto
dos desejos sobre os lábios;
com a sombra ambígua
das manhãs
e com o eco vago das quimeras.
quando chegares, não acendas senão o peito,
e olha em redor das mágoas:
saberás que as noites
apátridas
têm recantos onde as aves
se iluminam; onde as plúmulas desenham círculos
na madrugada, e as mulheres se entregam às brumas.
talvez saibas, então, qual dos caminhos
trilhar. no voo abrupto das aves
sem nome.
Susana Duarte
nada te resta, senão olhar-me de longe. sabes que habito outro plano, o do dia e da luz com que prossigo, todavia, sobre as flores submarinas. nada te resta, senão as lágrimas e o arrependimento. talvez possas ressurgir, noutras vestes, noutros seixos. mas serás sempre a sombra, a vida incompleta que se declina nos lugares que já não procuro.
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terça-feira, 19 de julho de 2016
segunda-feira, 18 de julho de 2016
sábado, 16 de julho de 2016
procura.
trago-te em mim, como trago as nódoas das outras vidas e as partidas todas, de todos os portos do mundo.
revejo-te, como a uma mirabolante caminhada sobre as traves de madeira dos ossos, e neles inscrevo a tua presença, anónima, arqueada e inocente.
trago-te em mim, todas as noites, aceso como as luzes e os sons que já povoaram a terra, castanha e húmida como as nozes da existência feminina.
és, de todos os motivos, o mais perecível, e o mais eterno, como as maçãs perpetuadas numa tela. as maçãs, são os seios que seguras na linha que antecede a noite, e o perímetro dos sonhos onde encontrarás, de novo, a realidade e o ser.
perdes-te, tragicamente, onde se agitam as nuvens. a nesga de céu que abominas é a mesma onde me passeio, despida, sôfrega de sol e de vento, aurora desfolhada de todas as luas que me nascem dentro.
e permaneces cera, e permaneces voo antecipado, Ícaro naufragado com a força das asas sepultas.
procura. serás a mão que antecipa as marés.
trago-te em mim, como trago as nódoas das outras vidas e as partidas todas, de todos os portos do mundo.
revejo-te, como a uma mirabolante caminhada sobre as traves de madeira dos ossos, e neles inscrevo a tua presença, anónima, arqueada e inocente.
trago-te em mim, todas as noites, aceso como as luzes e os sons que já povoaram a terra, castanha e húmida como as nozes da existência feminina.
és, de todos os motivos, o mais perecível, e o mais eterno, como as maçãs perpetuadas numa tela. as maçãs, são os seios que seguras na linha que antecede a noite, e o perímetro dos sonhos onde encontrarás, de novo, a realidade e o ser.
perdes-te, tragicamente, onde se agitam as nuvens. a nesga de céu que abominas é a mesma onde me passeio, despida, sôfrega de sol e de vento, aurora desfolhada de todas as luas que me nascem dentro.
e permaneces cera, e permaneces voo antecipado, Ícaro naufragado com a força das asas sepultas.
procura. serás a mão que antecipa as marés.
susana duarte
segunda-feira, 11 de julho de 2016
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