Visualizações de página na última semana

quinta-feira, 22 de novembro de 2018



  • escreverei à meia noite do poema, 
    onde se desfazem as pedras das calçadas
    e os teus passos.

    escolheste seguir as pedras de ontem,
    e os caminhos levantaram o pó 
    dos teus passos.

    escreverei à meia noite do poema,
    onde o vento desfez a noite, ela própria
    uma ave assustada ante a imensidão
    do desejo.

    morrem os corpos na espera,
    enquanto a meia noite do poema se declina
    na cor das cerejas.

    é na confluência dos dedos
    que se desocultam as noites dos corpos,
    entidades desejantes, meia noite das vidas
    nuas, encontro sobre o leito,
    ventos-sul do peito,
    quando a meia noite do poema
    se escreve nas peles.

    Susana Duarte

quinta-feira, 15 de novembro de 2018



eras tu, a árvore da minha vontade
de voar para onde as aves
falam de naufrágios 
e de arribas 
escondidas


pela erosão fácil da alma.

perdi os dias a falar com as ondas,


e as noites à procura do ar
lento que as aves
soletram,

apátridas

como as almas que deambulam
ao largo, onde o sargaço se move
e a praia é um lugar longe.

longe de ti, longe de mim 
e do mundo das pessoas,
procurei ainda a sombra
azul das águas

entristecidas

pelas marés estranhas do ser.

não soube ir além da foz e, todavia,
eis o sorriso fácil da árvore
da vida, nascido
dos teus olhos
e derramado
como luz sobre a maré

onde, outrora, me uni 
às arribas fósseis da vontade
de navegar,

para, em ti, ser soluço,
voz de ave,

maré indissolúvel.

Susana Duarte


sábado, 3 de novembro de 2018

quando vieres, traz os dedos
 da aurora,

e amanhece nas dobras cegas 
do pescoço
onde, ontem, navegaste 
os trevos 
do dia longo
[anterior às mágoas]

florescidos dos teus dedos,
esquecidos dos segredos

[onde as horas não chegam
e os teus olhos me faltam]

Susana Duarte
2017


sexta-feira, 12 de outubro de 2018



aconchego o silêncio
nas palavras sossegadas
pelas lágrimas da noite

encontro-o, cartografado
nas linhas vorazes do voo
sempre que escreves


vozes sobre a pele

Susana Duarte
2015




entre os muros e as heras,
escolho os silêncios 
com que norteias as gárgulas.

entre os muros e os dias, 
antes as marés vazias de palavras.


Susana Duarte

segunda-feira, 24 de setembro de 2018





há um poema por escrever 
onde a vida alucina e uiva,

onde as ondas são marés 
ruivas de desalento, e o poema


decadente
se inscreve nas veias 
azuis de todos os dias.

onde mora o poema, 
demoram-se as aves

apátridas
e os sonhos dúbios
das mulheres. são sempre dúbios,
os sonhos das mulheres.
são azuis e são negros 
e são brancos 
e vermelhos,

os sonhos das mulheres.
como os poemas por escrever,
as mulheres demoram-se
nos beirais dos dias. esperam

pelas aves, pelas palavras, 
pelos filhos, e por serem apenas

isso: mulheres, poemas por escrever,
apátridas como as noites
onde gatos ciciam diálogos

incompreensíveis, e caminham 
sós pelas ruas de antes.

Susana Duarte 

terça-feira, 14 de agosto de 2018

há ondas devassadas
pelo silêncio
das areias,

onde as vertentes úmbrias
derrotam as névoas
e as mulheres
içam memórias

à altura dos seios
inanimados.

as ondas devassadas
falam de gaivotas
perdidas,

voo disperso,
fendido
pelas rochas,

salgada a procura, e
longínquas as asas.

Susana Duarte

 sei das rosas que amavas e da delicadeza do toque, ainda que as memórias  obnibuladas pela dor, se ausentem ...