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terça-feira, 25 de janeiro de 2022

 não consegues respirar:


          gritos silenciosos   

                  invadem o peito

                      cheio de lugares ocos.


não queres ouvir os ruídos 

                  que se propagam.


encontrar a luz: 

                               onde?


onde guardas os gritos 

                  que falam por ti,


junto às portas das gárgulas 

               que desenhaste nos ossos?


Susana Duarte


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

 Caminhos

(ouvindo Laura Fygi, “Les feuilles mortes”)


da raiz à pedra, constrói-se um caminho,          semelhante ao percurso entre as mãos e o peito,

entre as folhas dos dedos e as grutas da boca,                                     e entre os desejos e o corpo.


os caminhos do desejo são construídos nas mãos,     e nos olhos,     e no cruzamento das peles.


entre mim e ti, a presença etérea da volatilidade das palavras.          escreveste-as onde não sei,

e acedes a elas através de memórias que não partilho.            o caminho é o do inevitável adeus

às lágrimas sussurradas nas noites vãs.   o caminho é o das névoas azuis dos sorrisos roubados,

entre as raízes dos jardins das mãos,                                      e as noites sublinhadas pela viagem. 


somos mónadas, e o caminho da evolução das folhas.


Susana Duarte

do livro Pangeia, não publicado


Caminho rente ao chão

 caminho rente ao chão

e não movo o tempo


ou as aves paradas cujos ossos

determinam o movimento 

do mundo.


caminho. destino-me ao tempo,

ao mundo e à incerteza 

dos passos.


Susana Duarte

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

 a invenção das aves 

nada ensinou sobre o desapego.


trouxe consigo a lucidez das águas,

a trégua entre a nascente e a foz. 


nada disse sobre a vida anaeróbia

dos sobreviventes.  


nada disse sobre a perda da voz. 


as aves são 

entidades abstractas: nomeiam

as ilusões e apegam-se


às rochas erodidas, onde o vôo


é abismo, interdito, drama


e redenção.


Susana Duarte

2019

sábado, 6 de novembro de 2021

 a impossibilidade de ser água


anuncia as mãos apartadas 

dos braços, antecipando 


madrugadas de raiva e suor.


eis as mãos onde as águas

despertam  lágrimas ocultas

que se prolongam, manhãs

de chuva que nos devolvem 


ao mar.


Susana Duarte




domingo, 24 de outubro de 2021


quero de ti um poema de osso
e de asas, de rémiges 
escritas nos dedos

e de navegação da pele
sobre as mágoas antigas.

do voo, nada digas:

sobrevoa as costas 
das memórias, e transforma 
o poema na escrita da carne.

Susana Duarte

sábado, 2 de outubro de 2021

Destino


 há um destino em cada palavra.


evidenciado pelas manhãs rubras

das vozes antigas,


encerra uma novena,

uma prece dirigida aos cadavres-exquis

que povoam a mente lúcida.


houvesse apenas desconhecimento,

e o riso sobressaltaria a noite.


há um destino em cada palavra,

e nenhuma me conduz a ti.



Susana Duarte


Susana Duarte




 esquece o mundo e acomoda a respiração no seio da noite     que perdura. esquece a noite, desfaz os nós      do silêncio com que passaste e...