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quarta-feira, 4 de outubro de 2023

 adormeço as palavras 

sobre a lua indigente,


sôfrega de céus e de lavras.


durmo eu, sobre as noites de outrora,

inventando palavras de noite

e de espanto 


-onde a lua cai sobre mim

e me invento barro, distância

e canto.


sou um esquisso,

noite inacabada, movimento de águas

revoltas sob uma lua ao mesmo tempo tudo,

ao mesmo tempo nada,


tão indigente quanto os gatos 

na estrada,


ou as mulheres desertas.


Susana Duarte

2022





sexta-feira, 7 de julho de 2023

 passamos pela terra como borboletas finitas,

cavalos de fogo em terras inclementes,

flores do deserto em chão quente, 

de sáfaras e dores.


deixamos as cores e os olhares onde mágoas

se plantam nos pequenos cactos, 

onde vivemos,


procurando a luz que nos cobre

e nem sempre colhemos.


Susana Duarte


domingo, 5 de fevereiro de 2023

 descubro o silêncio             onde  as aves 

                            rompem       madrugadas

debatendo-se,  sonoras,          com a noite


(e as almas apaziguadas com a redenção).


mergulho no teu rosto            descoberto,

vôo seguro            sobrevoando as vagas

onde os meus silêncios                 atrozes

condenam o olhar         o ver         o sentir

e os espaços      entre          mim   e mim,

e  entre a tua pele             e a minha pele.


descubro o silêncio     nas noites vívidas

     da tua presença,                      definida

            como  as plúmulas,    sonora

como a maré                        que me colhe,


         transformando-me em algaço,

                                gota,


          ave sem asas, maré que me és.


Susana Duarte





terça-feira, 31 de janeiro de 2023

 digo-te adeus

antes que a estrada 

           desuna os braços


e me obscureça 

            os latidos,           os gritos      e os vôos.


digo o que sei:

não existe mais do que a voz 

        com que calo           o que pressinto.


a estrada lenta das árvores

onde o sabor do absinto            me desnudou,

será a mesma                           que te abraçará


no regresso ao norte.       


as mãos que levaste       contigo,         aladas

e inseguras,            etéreas,

                 sobrevoadas pelas linhas do sangue,


dir-te-ão da impossibilidade 

                     e da ausência.        digo-te adeus,


      onde os cruzamentos  das palavras 

                  não permitem a voz 

                  ou o balanço suave


         das águas inertes sobre os corpos.


Susana Duarte


domingo, 18 de dezembro de 2022

 um dia, esquecer-te-ás do meu nome:

talvez te lembres que nos conhecemos

no lado solar de uma estação de comboios,

por entre passos soletrados e a imensidão

das solidões que passavam por nós.


chamarás o nome antigo das horas passadas

no silêncio cúmplice dos corpos, e serás triste

como os olhos que deixaste. um dia,


esquecerás que fomos um, tropeçando

nos dedos como quem ri, nos corpos 

como quem tem fome e sede e desespero

e a impressão digital das lutas antigas.

ainda te lembrarás das palavras, mas nada

terá o sal, o sangue e o fogo dos dias 

tornados perenes num seio frio.


partiste, e como quem parte, deixaste 

os lábios de outrora, interditos como amoras;

serás sombra, e pó, e o piar de aves 

sem sonhos, ou o vôo de plúmulas perdidas;

serás a sombra do sonho e o uivo negro 

dos olhos que fechaste na tarde setembrina,


naquelas linhas escritas a ferro,

onde as lágrimas não bastaram.


Susana Duarte


terça-feira, 13 de dezembro de 2022

 construída pelas dissonâncias,

sento-me  só e navego ondas 

de nada.


sou a antítese,

a matéria intrínseca do silêncio,


e as noites do nada onde me sento 


e sou.


Susana Duarte




terça-feira, 6 de dezembro de 2022

 o silêncio determina as vozes 

com que as memórias se perpetuam.


as palavras aniquilam a possibilidade

de regresso ao tempo das uvas.


é na forma como te colho o olhar, 

que renasço dos vôos passados:


são as quimeras que içam as vozes

ao lugar das auroras suavizadas 

pela presença das mãos, tão eternas

quanto os olhos, tão estranhas como eles-


tão díspares como as noites vívidas

e as outras, pó e nada e resistência e solidão.


Susana Duarte


 esquece o mundo e acomoda a respiração no seio da noite     que perdura. esquece a noite, desfaz os nós      do silêncio com que passaste e...