nada te resta, senão olhar-me de longe. sabes que habito outro plano, o do dia e da luz com que prossigo, todavia, sobre as flores submarinas. nada te resta, senão as lágrimas e o arrependimento. talvez possas ressurgir, noutras vestes, noutros seixos. mas serás sempre a sombra, a vida incompleta que se declina nos lugares que já não procuro.
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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Fosfenas
Os olhos florescem nas encruzilhadas da noite.
Claros, celestes, enrubescem nas asas cerradas do voo.
As palavras soltam-se dali, do reino de todos os cantos.
Livres-soltas como águias alienadas da terra
(como se o espaço universal fosse todo teu)
Os olhos vagueiam nas horas em que a incerteza se faz luz.
Luminescentes, encandeiam as flores com que te abraço.
…cristalino desatento às sombras. Teus olhos são luz.
As fosfenas (imagens luminosas que a pressão dos dedos deixanos olhos)
São caleidoscópios de sol que atravessa o caminho.
( ... o dia regressa e será tempo de Olhar; a noite desce sobre ti
e, de dentro do teu olhar,
Magna noite, Magno Dia,
será tempo de cerejas e de o Tempo regressar).
Susana Duarte
.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Diáspora
Levantas as asas num voo rasante de alma vulcânica; transbordas de aromas de terra; em ondas sísmicas, atravessas o rio que engole a indiferença e a efabulação.
Unes o vento e o mar num terremoto anímico onde voam sereias silenciosas e Orfeu canta.Mas não olhas para trás. Sabes que é à tua frente que o caule inflorescerá. Invocas as deusas, e serenas a dualidade da alma.
Insinuas a noite na desfolhada da pele que sintetiza o canto, que se fez manhã, e celebrou a paixão. Deixas a claridade da dor invadir-te a alma e reconstróis, assim, a nuvem que se volatilizou.
Sabes onde fica um deserto onde flores secretas desabrocham à noite. Flores, flores, flores descobertas, antes ocultas domundo, em casas fechadas- refúgio, anel, papoila rubra,animal, noite, sofreguidão,solidão. Refúgio. Ali, onde alumias as noites, é o sítio onde nasces e fazes nascer, onde tornas clara a profundidade da palavra – amor amor amor.
...
Letras. Soletras cada escama num peixe dos mares do sul. Soletras cada onda num sismo
tentacular que não te tolhe de mim. Sabes onde fica cada movimento, cada passo, cada
letra do nome que me deram. Ouves as aves em ilhas perdidas que ecoam a ausência.
Uno e indiviso, clamas por uma flor, que não queres encontrar. Dualidade. Ó onda, maré, ave perdida no mar. Koa’é kea. Flor do saldo sal do sal, flor do sal que cai fina, na rede solta que abriste aqui. Desata este nó, desata. Puxa a corda que estendeste e leva-me pela penumbra do teu braço.
Iça-me. Leva-me. As velas são brancas, e tu és aqui. Marinheiro de mim, corredor de
distâncias, passeias a noite pelas mãos e ergues o dia com os olhos. Lava quente que
preenche a fenda na terra por lavrar.Pó, cascalho, pedra. A forma a começar. A escultura que sai dos dedos.
Sabes, não sabes? Esculpes cada desejo num torno universal. Pulsões de vida. Eros e Tânatos.Pequena morte. E tanta vida…Conchas.Sou concha na tua mão. A erosão do tempo que nos trouxe aqui. Salvífica. Pedra escultórica. Animal. Lobo. Tigre. Águia em voo. Ave . Ave.
Ave.
…
Lava-me os olhos com a humidade transparente da tua voz. Metamorfoseia-me o ombro em
que fazes descer a luz. A luz, anoite. Tu e eu, eu e a atomização do ser. Despidos de
pudor, de pânico e de nós-seres-individuais, metamorfoseando-nos no ser indivisível que o amor procura.
Unidade. Ser. Índio que dança na altura das rochas emanadoras de apego ao Universo.
Expectante. Dorido. As Moiras procuram-te. Mas é com Hermes que caminhas. Nos ventos
alíseos procuras o sopro da vida que permaneceu algures na linha temporal que o Cosmos
criou. Nos ventos solares, um raio deluz queima a terra onde navegam almas solitárias. A diferença é a Procura. A Procura não da completude, mas da epifania do olhar-outro. Cosmicidade. Passar além do Self. Lutar pelo outro. Descobres que amas. Que crias o sonho do encontro. Encontro.
Insinuei-me na tua voz. Ouviste as vibrações das cordas vocais. Resistes ao apelo de Eros? É a tua bela Helena? Ela, que ao espelho,se reflecte e teme? Que se olha, mas se não vê? Que procura, no teu olhar, a magia da descoberta? Quem dera fosse visível o arrepio anímico. Descobrir-te os recantos escondidos sob os braços genesíacos. Cobre-me o rosto com o teu peito. Enche-me de ti.Respira-me a pele e deixa-me viver no teu olhar.
Sabedoria. Saber e não saber. Não saber e querer descobrir. Por momentos, a noite que se levanta da alma. Um bater de asas de borboleta invoca a Criação. Génesis em mim. Renasço em ti. Soluças um choro de sonho e conhecimento. Deixas de lado as coisas
gastas. Usas a vida para seresinteiro. Insondáveis desígnios universais, átomos que se congregam. Odores voláteis que tetrouxeram aqui. A imagem lávica da claridade solar na curva dos olhos. Ficas? Fica…dissipa o nevoeiro e despe-me de pudor. Tira-me das asas o fio invisível que lhes pus. Fica. Lobo. Ave. Ave. Ave. Rumamos ao centro do mundo, para nos fundirmos com a Origem.
.
Unes o vento e o mar num terremoto anímico onde voam sereias silenciosas e Orfeu canta.Mas não olhas para trás. Sabes que é à tua frente que o caule inflorescerá. Invocas as deusas, e serenas a dualidade da alma.
Insinuas a noite na desfolhada da pele que sintetiza o canto, que se fez manhã, e celebrou a paixão. Deixas a claridade da dor invadir-te a alma e reconstróis, assim, a nuvem que se volatilizou.
Sabes onde fica um deserto onde flores secretas desabrocham à noite. Flores, flores, flores descobertas, antes ocultas domundo, em casas fechadas- refúgio, anel, papoila rubra,animal, noite, sofreguidão,solidão. Refúgio. Ali, onde alumias as noites, é o sítio onde nasces e fazes nascer, onde tornas clara a profundidade da palavra – amor amor amor.
...
Letras. Soletras cada escama num peixe dos mares do sul. Soletras cada onda num sismo
tentacular que não te tolhe de mim. Sabes onde fica cada movimento, cada passo, cada
letra do nome que me deram. Ouves as aves em ilhas perdidas que ecoam a ausência.
Uno e indiviso, clamas por uma flor, que não queres encontrar. Dualidade. Ó onda, maré, ave perdida no mar. Koa’é kea. Flor do saldo sal do sal, flor do sal que cai fina, na rede solta que abriste aqui. Desata este nó, desata. Puxa a corda que estendeste e leva-me pela penumbra do teu braço.
Iça-me. Leva-me. As velas são brancas, e tu és aqui. Marinheiro de mim, corredor de
distâncias, passeias a noite pelas mãos e ergues o dia com os olhos. Lava quente que
preenche a fenda na terra por lavrar.Pó, cascalho, pedra. A forma a começar. A escultura que sai dos dedos.
Sabes, não sabes? Esculpes cada desejo num torno universal. Pulsões de vida. Eros e Tânatos.Pequena morte. E tanta vida…Conchas.Sou concha na tua mão. A erosão do tempo que nos trouxe aqui. Salvífica. Pedra escultórica. Animal. Lobo. Tigre. Águia em voo. Ave . Ave.
Ave.
…
Lava-me os olhos com a humidade transparente da tua voz. Metamorfoseia-me o ombro em
que fazes descer a luz. A luz, anoite. Tu e eu, eu e a atomização do ser. Despidos de
pudor, de pânico e de nós-seres-individuais, metamorfoseando-nos no ser indivisível que o amor procura.
Unidade. Ser. Índio que dança na altura das rochas emanadoras de apego ao Universo.
Expectante. Dorido. As Moiras procuram-te. Mas é com Hermes que caminhas. Nos ventos
alíseos procuras o sopro da vida que permaneceu algures na linha temporal que o Cosmos
criou. Nos ventos solares, um raio deluz queima a terra onde navegam almas solitárias. A diferença é a Procura. A Procura não da completude, mas da epifania do olhar-outro. Cosmicidade. Passar além do Self. Lutar pelo outro. Descobres que amas. Que crias o sonho do encontro. Encontro.
Insinuei-me na tua voz. Ouviste as vibrações das cordas vocais. Resistes ao apelo de Eros? É a tua bela Helena? Ela, que ao espelho,se reflecte e teme? Que se olha, mas se não vê? Que procura, no teu olhar, a magia da descoberta? Quem dera fosse visível o arrepio anímico. Descobrir-te os recantos escondidos sob os braços genesíacos. Cobre-me o rosto com o teu peito. Enche-me de ti.Respira-me a pele e deixa-me viver no teu olhar.
Sabedoria. Saber e não saber. Não saber e querer descobrir. Por momentos, a noite que se levanta da alma. Um bater de asas de borboleta invoca a Criação. Génesis em mim. Renasço em ti. Soluças um choro de sonho e conhecimento. Deixas de lado as coisas
gastas. Usas a vida para seresinteiro. Insondáveis desígnios universais, átomos que se congregam. Odores voláteis que tetrouxeram aqui. A imagem lávica da claridade solar na curva dos olhos. Ficas? Fica…dissipa o nevoeiro e despe-me de pudor. Tira-me das asas o fio invisível que lhes pus. Fica. Lobo. Ave. Ave. Ave. Rumamos ao centro do mundo, para nos fundirmos com a Origem.
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domingo, 7 de novembro de 2010
Há um cavalo alado, de asas pretas na noite de fogo, que teima em não se fazer dia. A noite de fogo é uma miragem no deserto, perdido na vertigem de ser e não-ser.
O precipício que chama e repele e o medo abomina, é o cavalo alado que chama e fecunda a terra que o sublima.
Sabem a sal, a noite, o deserto, os grilhões. São pesados, os grilhões de ferro, ferro da raiz que não desponta. A semente. O grilhão.
A caneta escreve sem rumo, sem direcção.
Voou um grão de areia para o universo, e no universo se perdeu. Um grão de areia, mícron no cosmos…o caos. Do caos emerge o cavalo que prendeu as asas. Suas crinas negras clamam pelo caos. Sugam as estrelas e a luz, que desaparecem no buraco negro de pó universal, verdadeiro colapso de Oppenheimer-Snyder.
No buraco negro não há lei nem ordem, apenas ausência de luz. Existe como o mais absoluto não-lugar. É lá que o cavalo alado queria ficar.
A partícula de sonho que o domina, quer um sítio onde morar. Um lugar que não existe, a Utopia. Utopia é o real por concretizar, um mundo paralelo: viver debaixo do mar. Encontrar uma sereia que canta o cavalo alado e o faz alucinar.
Impressões, vozes, delírios, na noite de fogo que se fez breu. Onde fica o real, se o Real se perdeu?
A Utopia, a alucinação, a realidade paralela. Ora perdida, ora encontrada, feita de areia, ou feita de nada.
É violento o silêncio que se impôs. É a ave que se solta e tem que voar. Uma asa de cera que derrete, outra com força para voar. Rémiges. Escrevem o voo numa folha de cartão, onde desenho o universo cabendo numa mão. A mão solta-se do braço que prende as asas do cavalo.
O cavalo agita-se, feroz. Já foi rio, agora é foz.
Desaguou no mar profundo e encontrou a Utopia, o seu real fantasmático.
Dorme.
Dorme.
Dorme.
Um grito: Ham-sa.
O precipício que chama e repele e o medo abomina, é o cavalo alado que chama e fecunda a terra que o sublima.
Sabem a sal, a noite, o deserto, os grilhões. São pesados, os grilhões de ferro, ferro da raiz que não desponta. A semente. O grilhão.
A caneta escreve sem rumo, sem direcção.
Voou um grão de areia para o universo, e no universo se perdeu. Um grão de areia, mícron no cosmos…o caos. Do caos emerge o cavalo que prendeu as asas. Suas crinas negras clamam pelo caos. Sugam as estrelas e a luz, que desaparecem no buraco negro de pó universal, verdadeiro colapso de Oppenheimer-Snyder.
No buraco negro não há lei nem ordem, apenas ausência de luz. Existe como o mais absoluto não-lugar. É lá que o cavalo alado queria ficar.
A partícula de sonho que o domina, quer um sítio onde morar. Um lugar que não existe, a Utopia. Utopia é o real por concretizar, um mundo paralelo: viver debaixo do mar. Encontrar uma sereia que canta o cavalo alado e o faz alucinar.
Impressões, vozes, delírios, na noite de fogo que se fez breu. Onde fica o real, se o Real se perdeu?
A Utopia, a alucinação, a realidade paralela. Ora perdida, ora encontrada, feita de areia, ou feita de nada.
É violento o silêncio que se impôs. É a ave que se solta e tem que voar. Uma asa de cera que derrete, outra com força para voar. Rémiges. Escrevem o voo numa folha de cartão, onde desenho o universo cabendo numa mão. A mão solta-se do braço que prende as asas do cavalo.
O cavalo agita-se, feroz. Já foi rio, agora é foz.
Desaguou no mar profundo e encontrou a Utopia, o seu real fantasmático.
Dorme.
Dorme.
Dorme.
Um grito: Ham-sa.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
no dia em que te vi
correr
correr o mundo para te ver
saltar as pontes
e
tornar- te
seda
sob o toque das minhas mãos
saltaria sobre o arco-íris
só para alcançar
o horizonte
alcançar a voz
que me aquieta as noites
sonharia um sonho de neve
só para poder ter frio
e aquecer-me depois
no toque do teu olhar
olharia
a terra
de onde vim
para encontrar as folhas de outono
com que cubro os cabelos
e no mar imenso,
lágrimas
ardentes
de sal, de maresia
deixaria o baú
das coisas velhas
gastas
que gastaram os sonhos
até ao dia quente
em que te vi
transportado por um Fado
de alegria e encontro
cantado nas vielas
passou um gato por ali...
a solidão espreita atrás da janela
velhos sorrisos
em velhas ruas
da cidade onde te conheci
é nessa cidade
que se fez o dia e a noite
no dia em que te vi
.
correr o mundo para te ver
saltar as pontes
e
tornar- te
seda
sob o toque das minhas mãos
saltaria sobre o arco-íris
só para alcançar
o horizonte
alcançar a voz
que me aquieta as noites
sonharia um sonho de neve
só para poder ter frio
e aquecer-me depois
no toque do teu olhar
olharia
a terra
de onde vim
para encontrar as folhas de outono
com que cubro os cabelos
e no mar imenso,
lágrimas
ardentes
de sal, de maresia
deixaria o baú
das coisas velhas
gastas
que gastaram os sonhos
até ao dia quente
em que te vi
transportado por um Fado
de alegria e encontro
cantado nas vielas
passou um gato por ali...
a solidão espreita atrás da janela
velhos sorrisos
em velhas ruas
da cidade onde te conheci
é nessa cidade
que se fez o dia e a noite
no dia em que te vi
.
domingo, 29 de agosto de 2010
És...visível...
És
como um manto transparente
que cobre a borboleta
nocturna
que voa em mim.
Percorres
a noite silenciosa
que rasga o ventre do sono
e me faz acordar.
Ténue fio de vento
que transforma em tempestade
a outrora serena maré.
Vejo-te, agora
...como um voo nocturno, de asas escondidas.
Como um sonho sereno, quando rompe a manhã.
És uma estrela em mim.
Saboreio o odor do sonho
num porto de mar,
num chá de jasmim,
numa aurora a despontar.
És o sonho em mim.
A noite e o dia, quando o sonho começa.
como um manto transparente
que cobre a borboleta
nocturna
que voa em mim.
Percorres
a noite silenciosa
que rasga o ventre do sono
e me faz acordar.
Ténue fio de vento
que transforma em tempestade
a outrora serena maré.
Vejo-te, agora
...como um voo nocturno, de asas escondidas.
Como um sonho sereno, quando rompe a manhã.
És uma estrela em mim.
Saboreio o odor do sonho
num porto de mar,
num chá de jasmim,
numa aurora a despontar.
És o sonho em mim.
A noite e o dia, quando o sonho começa.
És invisível...
És invisível.
Como um manto transparente
que cobre a borboleta
nocturna
que voa em mim.
És invisível.
Percorres a noite silenciosa
que rasga o ventre do sono
e me faz acordar.
És invisível.
Ténue fio de vento
que transforma em tempestade
a outrora serena maré.
Quer ver-te, agora.
...como um voo nocturno, de asas escondidas.
Como um sonho sereno, quando rompe a manhã.
Onde quer que estejas,
és uma estrela em mim.
Saboreio o odor do sonho
num porto de mar,
num chá de jasmim,
numa aurora a despontar.
És o sonho em mim.
A noite e o dia, quando o sonho começa.
domingo, 15 de agosto de 2010
Ilha
Há, no horizonte, uma ilha.
Na ilha, a voz distante de um clamor.
É de verde que se veste o coração. Expectante.
(Fechas os olhos e
encerras, no seu eixo,
o segredo de que ainda só
suspeitas.
Não sabes. Mas esperas.
E a luz, dentro deles,
revela o sonho que te conduz.)
No horizonte, uma ilha.
Nos teus olhos, o horizonte.
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