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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019



a invenção das aves
nada ensinou sobre o desapego.

trouxe consigo a lucidez das águas,
a trégua entre a nascente e a foz.
nada disse sobre a vida anaeróbia
dos sobreviventes. nada disse
sobre a perda da voz. as aves são
entidades abstractas: nomeiam
as ilusões e apegam-se


às rochas erodidas, onde o vôo
é abismo, interdito, drama
e redenção.

Susana Duarte

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

cabem todas as vozes
no peito ávido dos olhares
trilhados pelos caminhos longínquos
                                        e pelas ondas.

cabem todas as mágoas
nos olhares das aves, e todas as aves
nos olhares                      das mulheres.

no desassossego do voo,
existes tu, folha caída de uma árvore
sem raízes. existes onde as águas
desassossegam o mar líquido
do ventre, e as folhas
perenes agitam
                                              as sombras.

não existe nada, para além das aves,
e das ondas, e das sombras...
talvez existam                   as memórias,

as folhas caídas e
o que fomos ontem:.         um homem,

e uma mulher -         atraídos pelo vôo
das palavras que, por serem ditas,
soavam a                             eternidade.

Susana Duarte

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

um dia, esquecer-te-ás do meu nome:
lembrar-te-ás que nos conhecemos
no lado solar de uma estação de comboios,
 por entre passos soletrando a solidão. clamarás o nome antigo das horas passadas
no silêncio dos corpos, e serás triste
como os olhos que deixaste.

um dia, esquecer-te-ás de que fomos
um, tropeçando nos dedos como quem ri,
e nos corpos como quem tem fome 
e sede e desespero, ou a impressão 
digital de lutas antigas; ainda te lembrarás
das palavras, mas nada terá o sal e o sangue 
e o fogo dos dias tornados perenes 
num seio frio.

partiste e, como quem parte,
deixarás para sempre os lábios de outrora,
interditos como as auroras que viste
nascer; serás sombra, e pó, e o piar das aves
sem sonhos, ou um vôo sem plúmulas.

serás, enfim, a sombra do sonho e o uivo
negros dos olhos-os meus- que fechaste
numa tarde inícua, naquelas linhas escritas
a ferro, onde as lágrimas não bastaram. 

Susana Duarte

domingo, 27 de outubro de 2019



o corpo pobre em poemas
desfaz a água caída
sobre o ventre,
conduz as luas à queda


abrupta

sobre as vertentes úmbrias,

e liquefaz as certezas,
transformando-se em algoz

de si mesmo,
isolado, desolado, perdido
e naufragado nas palavras
ausentes

Susana Duarte

sábado, 28 de setembro de 2019

és como as flores ausentes
de todas as primaveras 
anteriores: o mar de pétalas 
que desconheço. és, ainda,
a vaga impressão digital
sobre os ombros - a trémula
navegação do frio sobre
a pele incerta que me cobre
os dias. és a névoa húmida
que percorre os olhos, nos dias
ávidos de saber o nome
das entranhas, dos poros
e da celeridade das noites.

Susana Duarte


segunda-feira, 23 de setembro de 2019

i felt like you threw me
so far from myself
i've been trying to find my way back ever since

Rupi Kaur


domingo, 1 de setembro de 2019



o poeta é o silêncio 

com que ele próprio se escreve

diante de um espelho,


a alteração à norma

e o anátema com que descreve

a palavra proibida:


lúmen.






Susana Duarte

 esquece o mundo e acomoda a respiração no seio da noite     que perdura. esquece a noite, desfaz os nós      do silêncio com que passaste e...