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sábado, 2 de outubro de 2021

Destino


 há um destino em cada palavra.


evidenciado pelas manhãs rubras

das vozes antigas,


encerra uma novena,

uma prece dirigida aos cadavres-exquis

que povoam a mente lúcida.


houvesse apenas desconhecimento,

e o riso sobressaltaria a noite.


há um destino em cada palavra,

e nenhuma me conduz a ti.



Susana Duarte


Susana Duarte




sexta-feira, 2 de abril de 2021

A aldeia

 a aldeia permanece-

      muda como dantes,

      e como dantes, cheia de vida

                  nas sombras verdes das ruas


antigas. são empedradas e duras,

      como as rugas antigas das vidas 

              que conheci, quando as luas por viver 


eram suaves e tantas.


a aldeia suaviza as memórias,

             antecedendo as perdas

        e guardando, nas pedras, os diálogos


das caminhadas, 

            e das dores,

                e da lembrança dos baloiços

                         no adro da igreja.


são antigos, os meus pés,

    como os salgueiros e as ruínas

outrora vivas, outrora albergue de risos


e de misérias, ambos parte dos sons

    com que se viviam as Páscoas


madrugadoras,

     os risos das crianças,

           o compasso dos milagres 


e a idade que não parecia existir.


talvez, afinal, eu saiba

   de onde sou. sou das ruas 

                    e das ameixoeiras,


da casa antiga e da fonte,

      dos cântaros e dos sabugueiros,

             dos jarros  em flor e da terra,


talvez tão finita como a aldeia,

                   e tão infinita como ela.


Susana Duarte

2/03/21


segunda-feira, 1 de março de 2021

 as flores nascidas

do teu rosto, semeiam

expectativas 


em olhos translúcidos


(os meus)


 

Susana Duarte





quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

 a tua voz ergueu-se 

do cinzento       dos dias chuvosos


(deixando-me              suspensa

                   nas horas).


suspensa pelas palavras 

                         que não digo,


tornei-me silêncio.


         sussurro o silêncio

                    que me percorre,


incapaz de traduzir


                           o teu nome.


Susana Duarte




terça-feira, 23 de fevereiro de 2021



a vida solta 
extingue as lágrimas

e a vaga sensação de futuro.
 
 

possam as flores renascer,
e as aves navegar olhos humanos,

e os olhos marejarão de expectativa
as noites onde, vazias, 
 
 

as janelas escutam fantasmas.

Susana Duarte

sábado, 6 de fevereiro de 2021

 o amor.


acontece nas horas cimeiras,

              antecipando os vôos 

                                     do     sangue.


inesperado como as águas

           que irrompem,       abruptas,   

                                    onde as geadas

 

ignoram a tardia floração do peito,


            o amor trespassa os cabelos

                                revolvidos

                                     por dedos ágeis.


              o amor. inesperado e inseguro

                          como uma ave lenta.


Susana Duarte


domingo, 31 de janeiro de 2021

digo-te adeus

 





digo-te adeus

antes que a estrada 

           desuna os braços


e me obscureça 

            os latidos,           os gritos      e os vôos.


digo o que sei:

não existe mais do que a voz 

        com que calo           o que pressinto.


a estrada lenta das árvores

onde o sabor do absinto            me desnudou,

será a mesma                           que te abraçará


no regresso ao norte.       


as mãos que levaste       contigo,         aladas

e inseguras,            etéreas,

                 sobrevoadas pelas linhas do sangue,


dir-te-ão da impossibilidade 

                     e da ausência.        digo-te adeus,


      onde os cruzamentos  das palavras 

                  não permitem a voz 

                  ou o balanço suave


         das águas inertes sobre os corpos.


Susana Duarte



 esquece o mundo e acomoda a respiração no seio da noite     que perdura. esquece a noite, desfaz os nós      do silêncio com que passaste e...