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domingo, 2 de outubro de 2022

 há um destino em cada palavra:


evidenciado pelas manhãs rubras

das vozes antigas,


encerra uma novena,

uma prece dirigida aos cadavres-exquis

que povoam a mente lúcida.


houvesse apenas desconhecimento,

e o riso sobressaltaria a noite.


há um destino em cada palavra,

e nenhuma me conduz a ti.


Susana Duarte


sábado, 1 de outubro de 2022

 trago o silêncio nas veias,

como uma veste antiga


sobre o lado do avesso 

dos ossos.


visto-o,  tão sagrado 

como outra veste qualquer,

como outro corpo qualquer.


espelho os lugares

onde o sangue se demora


e pergunto quem sou.


Susana Duarte

sábado, 24 de setembro de 2022

 Melancolia 

(ouvindo “Possibility” – Lykke Li)


a melancolia das nuvens           transforma (se),                   mulher-peito-ventre obscuro                 de rosas,

renascendo ela ( a mulher)      das implausíveis


expectativas:          as que residem nas estrelas,

e mais não são             do que sonhos antigos              das feiticeiras.        a melancolia das mulheres

é a transformação do ventre do mundo,                   a morfologia das dores        e dos momentos,

           parto irresoluto dos amores das aves nos beirais de casas desabitadas.  


                         as rochas

são as estrelas transformadas na dor da partida.   e da sabedoria da razão: o adeus aos sonhos.  


Susana Duarte


domingo, 4 de setembro de 2022

 bastar-me-ia o mar,

se soubesses onde estou: ave perdida 

no sargaço


-talvez ave, talvez alga, talvez asa

             apodrecida por sobre a orla costeira-


talvez saibas onde reside a pluma solta,

a nave desmaiada, ou a areia adormecida

sobre o meu ventre nú


-nao saberás, nunca, da dor do silêncio

       em que pronuncio o teu nome, tão indizível

como o futuro esmaecido e o ar rarefeito


       em que me movo.


Susana Duarte


segunda-feira, 29 de agosto de 2022

 as pessoas são estranhas, entranhas de coisa nenhuma, cheias de vento


onde as mãos se acobardam. as pessoas são assim: uvas apodrecidas


pelas chuvas de verão, inconstantes e incoerentes como as nuvens e os gestos


que dizem ser, mas de que nunca são capazes. as pessoas são assim, estranhos


movimentos em redor das luzes, das quais fogem quando alguém as acende


e, por dentro, as incendeia de um fulgor que temem. são apenas pessoas,


e as pessoas nada são, senão as sementes do que, um dia, na infância, sonharam 


ser. e não são. são apenas pessoas, híbridos de luz e escuridão, de palavras 


sem corpo, e de corpos de nada. de nenhures. de coisa nenhuma. porque são


finitas, ao contrário das pedras, elas próprias erodidas pelo vento. as pessoas, não,


são apenas isso: pessoas, finitas e frágeis e receosas das intempéries que residem


nos olhos dos outros. protegem-se atrás das palavras, e nada são, senão 


o que sonharam ser, num tempo longínquo de amoras bravias colhidas pelas mãos


pequenas, de cerejas tiradas do alto, mais maduras e grandes, sem medo de cair,


e de dedos-de-bruxa colados aos dedos, encantadores e roxos na sua simplicidade.




as pessoas são estranhas, entranhas de coisa nenhuma, cheias de vento


onde os gestos se acobardam. são assim: coisa nenhuma. são medo e fuga.


as pessoas são apenas isso, e por isso, nada são.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

 falta  a voz 

            e o sonho.

                          

                    

             sobra a melancolia


e o arder 

da noite.


Susana Duarte

domingo, 5 de junho de 2022

 dispo o corpo das palavras

e sigo o caminho da pele:


pele, poema, poema-pele onde

as ondas se abatem sobre o algaço.


sereno as asas onde os vôos

(onde?) não bastam para aquietar a sede

dispersa pelos anos perdidos,

oblíquos, obtusos,


situados onde não me reconheço

pele de ser pele, palavra de ser pessoa,

ou viagem, ou norte.

Susana Duarte




perdi o corpo 

onde as ondas apagaram as palavras

ou, talvez, onde os ossos rarefeitos


iluminaram os dias de ontem.


Susana Duarte

 esquece o mundo e acomoda a respiração no seio da noite     que perdura. esquece a noite, desfaz os nós      do silêncio com que passaste e...