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sábado, 2 de janeiro de 2021





 roubo à chuva

o sol que me pertence:

a clandestinidade da rua

permanece indistinta,


à sombra das palavras 

negadas,


interditas,


ditas onde os terrenos

aguardam a chegada

do beijo.


roubo ao sol o calor

do vôo, onde aves soletram

manhãs de inverno


e separam as letras 

de cada rumo ao sul.


roubo, enfim, o nome

decalcado na terra,

onde sou norte e sou sul


e não sei para onde vou.


Susana Duarte

domingo, 13 de dezembro de 2020

Dissonâncias

 construída pelas dissonâncias,

onde me sento só
e navego ondas 
de nada,

 

sou a antítese,

 

a matéria intrínseca do silêncio,
e as noites do nada onde me sento 

 

e sou.

 



 

Susana Duarte

sábado, 12 de dezembro de 2020

Desencontros










 

 as manhãs dos desencontros 
são as mesmas das expectativas:
suaves rugas da existência
ou vôos rasgados na névoa
branca de uma manhã

inesperada

como as nozes e o vinho
com que derretemos a noite 
gélida e falamos a uma só voz.

Susana Duarte

domingo, 29 de novembro de 2020

Há um nome


 há um nome 

para todas as coisas.

há um nome para os voos errantes,

e para as aves trepadoras,

e para as mulheres aladas.


há um nome

para as ondas sobressaltadas,

e para as névoas. há um nome

para as coisas cujo nome

não creio saber, e para ti.


tu, cujo nome não pronuncio, 

existes, todavia, onde as marés 

alcançam a solenidade do sol,

derrotando as angústias calcificadas 


nas vertentes incorpóreas

das palavras [e dos nomes

que não ouso dizer].


Susana Duarte

sábado, 7 de novembro de 2020


a asa pesa, no vôo

disperso

da ave esmaecida,



sempre que a fractura

da plúmula é superior

à elevação da mente.



a disforia dos olhos
desmente a flor branca

da expectativa:

 

delirante o poema,
obtusa a pele

[fracturada a alma]



Susana Duarte



os dedos percorrem sílabas
onde o verbo, exilado,
anuncia o tempo


e o tempo, silente,
revê nervuras
e as mãos.


são folhas de romã, os dias,
e palavras perdidas
onde o tempo se esgota.


nunca mais os dias de verão
serão as searas douradas de antigamente.
o restolhar das folhas,
e a palavra


decadente
perdem os sentidos,
onde o verbo descreve as curvas
e a idade amontoa frases
e ilumina memórias.


Susana Duarte

sábado, 3 de outubro de 2020

Procura

 procuro-te nos lugares 

improváveis, sossegando 

o olhar nos gatos da rua,


tão improváveis como as aves;

tão céleres como as noites 

ávidas;


tão estranhos como nós.


Susana Duarte

 esquece o mundo e acomoda a respiração no seio da noite     que perdura. esquece a noite, desfaz os nós      do silêncio com que passaste e...