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domingo, 4 de maio de 2025

 "se alguma vez me vires em sonhos

sacode-me a terra ao coração"

valter hugo mãe 





         visita-me,          ora por mim,

visita o meu rosto,  ora por mim,   ouve 

           os meus gritos,  ora por mim.


            dá som aos meus silêncios.

           (quero tanto ouvir a tua voz)


prometo estar atenta, 

        olhar na tua direcção

e derramar os meus olhos

                            sobre o teu coração 


débil 


outrora tão forte,    presente (ora por mim)

amante das rosas 


e das gotas de chuva 


e dos idos

        de Outubro do teu aniversário.


ora por mim,                   ora por nós 

    "Avé Maria que estais nos céus"


e deixa que a tua presença me sorria,

    diluindo as névoas que passaram a habitar 

                -me os olhos ausentes 


porque não estás aqui,

perto de mim,


   onde poderia ver-te.   ora por mim.


      o abraço perdeu -se no silêncio

da eternidade onde esperas.   ora por mim. 


           ouve-me. ouve o meu grito silente.


"Ave Maria, cheia de graça.". Maria. Mãe.


               ora por mim. ora por nós.


Susana Duarte 

Para ti, minha mãe, Maria Elisa Rodrigues Ribeiro 

quinta-feira, 1 de maio de 2025

 o tempo desfolhou as flores


que, outrora, trazia no peito.




desfolhou-as


num instante, quando os olhos 


se moveram ao encontro 




das mãos


    e do peito


           e da voz




desfalecidas num segundo,


o segundo breve de o tempo 




deixar de o ser,




de a ave que em nós havia


ser levada pelas ondas sonoras 


daquela madrugada em que as mãos 




partiram




deixando as flores 


desfolhadas 


no peito do imenso desalento




         da tua enorme ausência




sem que o Tempo volte a ser


tempo de escreveres pétalas das flores




em mim.




Susana Duarte com Maria Elisa Ribeiro, minha mãe ✨🤍🌌🙏


 


domingo, 27 de abril de 2025

 deixaste as flores que, agora, 

crescem sem ti

      (ou morrem, sem ti):


assim o meu coração, 

feito de pétalas soltas, 


        murchas 


imperfeitas como os dias do luto


dias de chuva incessante

em que o vento em nada move 

as folhas secas 

     do meu sangue.


eis a dor 

e a ira 

e a raiva 


e a fé, o absurdo da morte

e a crença na alma,

a lágrima que não posso entregar ao teu colo


e o braço que me falta


nos dias comuns

e nas noites vazias do teu quarto.


não sei onde estás 

não sei onde estás 


queria ter-te aqui e aqui me faltas,

onde o coração bate


com dor

e ira

e a raiva


e a fé 

pelo absurdo da morte,

pelo absurdo da vida que me falta,


a tua, 


mãe, minha mãe,

meu grito silencioso no peito

deixado seco pelo sangue que não te corre

nas veias.


Maria Elisa Ribeiro, minha mãe 🤍✨


sábado, 5 de abril de 2025

 passei a ser uma ave solitária

          desde que os teus olhos...


..desde que os teus olhos...


sou uma ave perdida no vôo 

      onde a primavera tarda e as horas


                  são horas de não te ouvir


és as flores que amas e o sorriso 

     eternizado nas imagens. és. 


és, em mim, todas as palavras

        que nos ensinaste,

que nos deste, que calaste 


e todas as que calei e não deveria ter calado,

todas as que disse, e não deveria ter dito,

              e mesmo as palavras por que anseio


ainda que os teus olhos...


Maria Elisa Ribeiro, minha querida mãezinha, ainda que os teus olhos.





domingo, 23 de março de 2025

Mamã.

 existias 

muito antes de me dares à luz,

   talvez desde o tempo das cerejas 

      ou dos invernos que preferias à canícula de Agosto.


existias muito antes do tempo 

 em que passei a existir no ventre, 

              nos braços 

   ou nas caminhadas lentas dos tempos recentes.


existo através de ti, por ti, 


-mulher, professora, mãe, 

     emigrante, cátedra, defensora 

 da Liberdade e da Democracia 

                e do Saber.


  existias como as rosas: viço e perfume, 

beleza e suavidade, 

        decidida e segura,


antes das tonturas

                 e da lentidão dos passos.

  


sabes, minha mãe, 

que não soube nunca 

ser sem ti,               sem te saber por perto, 

        sem poder olhar nos teus olhos 

               agora dolorosamente ausentes.


era simples. 


       estavas lá, à minha espera.


sabes que as aves cantam na nossa rua,

                  e que as rosas dos vizinhos voltarão     

   a desabrochar 

            naquele canto do caminho 

que fizemos juntas:


olho para tudo para que vejas,

     através dos meus olhos, 

         tudo aquilo que te corria nas veias:


    desejo de simplicidade,  

       de natureza 

            e de lealdade


e, vendo, 

acredito que os teus olhos vivem

         através de mim,

por mim,


para me aquietar o coração triste


         onde a tua ausência se demora 

 e sou menos, infinitamente menos, 


do que era,

do que podia ter sido, 

do que queria ser


aos teus olhos, 

 os únicos olhos onde fui imensa, maior


do que eu mesma, 



      maior do que a promessa,


         e infinitamente menor 

                         do que o teu amor.


Susana Duarte, tua filha.

A Senhora Professora Maria Elisa Rodrigues Ribeiro, minha amada mãe 🙏 




quarta-feira, 5 de março de 2025

...a descoberta de que nada sabia sobre a tristeza...

 não sei se a tristeza colhe 

as nuvens, onde vivem

os espectros das noites 

antigas. não sei,


sequer, se as noites

continuam no mesmo lugar. talvez

tenham partido para o sítio onde 

as lágrimas colheram cerejas, e 

as depositaram num vale antigo.


não sei se as noites voltarão

a ser lugares de interdito,


ou antes os desertos

por onde se escoam as aves

fugidias


(talvez fantasmas, 

                     talvez apátridas)


onde escondo os nomes e


                                         fujo de mim.


Susana Duarte

2016

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025


 tenho a idade de todas as idades, 

de todas as cidades,

contente no descontentamento 

de ser invisível


enquanto desenho  noites

nas esquinas da alma.


escrevo sons no ar,

na sonora imensidão dos peixes.


na terra, abro as mãos

e perfumo de incerteza o dia

e leio 

-nas entrelinhas

silabadas de um jornal antigo-


a palavra-sabor, 

a palavra-abrigo.


Susana Duarte



 esquece o mundo e acomoda a respiração no seio da noite     que perdura. esquece a noite, desfaz os nós      do silêncio com que passaste e...