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domingo, 2 de agosto de 2020



espero por ti, 

como se espera por um fantasma,

e caminho na noite 

como se as esquinas me devolvessem 

o sorriso de outrora.




espero pelo teu regresso

e não alcanço senão o dedo esticado

(por mim) a oriente.




não sei onde moram os beijos

prometidos, ou a sensação latente

do teu regresso. partiram contigo




e, todavia, espero ainda pelas mãos,

as tuas, 

pelo toque das palavras,




e pelos dias da mansidão clara

das quimeras.




espero, ainda, que tragas contigo

a suavidade das maçãs rubras

do desenho dos corpos,




a metafísica das águas,

e a iluminada crença

na paixão com que delimitas




os meus passos, me cerceias 

as asas

e destróis os beijos.




melhor seria ver-te desfazer

os espectros com que me rodeias

e dar lugar ao vôo largo

de outras chegadas.




Susana Duarte




sexta-feira, 29 de maio de 2020



perdeu-se a poesia
nos passos descalços
da tua ida para o oriente


-salvando-se, todavia,
as asas do nome 


que não digo.


apesar das palavras,
a noite foi a feiticeira 
possível das águas do rio


-o mesmo que me resgatou
para, de seguida,
me afundar


onde me olhas.


(iça-me)

Susana Duarte

quarta-feira, 6 de maio de 2020

vou com o vento



vou com o vento.


sobrevoo as águas 
lamacentas
e os sonhos,


destapando as asas
com que me escondo 
das aves


e resgato a noite
oculta nos olhos


vou contigo, 
deixando para trás as fontes
frescas onde as asas

amainaram o voo.


vou com o vento-
a água desfaz as névoas
e as asas são algaço


sobre os ombros
onde surge a aurora


Susana Duarte

segunda-feira, 30 de março de 2020


és translúcido, 
uma fina camada de nada 
sobre a pele.

vives entre a pele e a dor,
navegando o suor
e as noites desenhadas
sobre os dedos, ou
sob a camada fina da alma.

és translúcido,
e deixas desertos de nada
onde outrora pousou
uma borboleta.

a impossibilidade é um oceano
de espuma e algaço,
debicado por uma gaivota
sem uma asa.

Susana Duarte
30/03/2019



domingo, 8 de março de 2020



o poema desorganiza-se,
observando o voo das aves trémulas.

é um poema-ave, o que se fractura
nas encostas das manhãs
seguras.


Susana Duarte

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020




há um poema que não foi escrito,
e uma flor por nascer

entre mil olhos sem palavras,
o rosto ambíguo da vida
devolve os sentidos

e as palavras sem eco

ficam, então, por dizer, os rostos
dos amantes e os dedos
das mulheres- tão ambíguas
como a vida cujo rosto
escreve poemas



Susana Duarte


domingo, 29 de dezembro de 2019

Mágoa
(ouvindo «Corpse Bride, piano duet»)

acendeste mágoas                onde os seios descansam

amas como as metáforas          das romãs,   
e sabes ainda a noite,

e sabes a dia,        e sabes às manhãs ígneas
da abertura dos olhos                 e das nuvens brancas.
acendeste mágoas, e por isso, sabes aos dias
de antes,                 e ao esquecimento, depois.

sabes às dores do peito,          incendiado pela solidão  das noites,         onde as sacerdotisas nasciam,            fluxos de terra,         e de seiva, e de luz.                               sabes a tudo,
e sabes a mágoas        acesas          pelo fluxo 
                                                   da noite.

acendeste as águas do ventre,      que depois calaste                            amas como as rubras
manhãs do desejo,              e sabes às maçãs colhidas no arco da primavera;             

revejo-te,                   obelisco erigido em mim,               

                    culto das manhãs onde te espero.

Susana Duarte


 esquece o mundo e acomoda a respiração no seio da noite     que perdura. esquece a noite, desfaz os nós      do silêncio com que passaste e...