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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025


 tenho a idade de todas as idades, 

de todas as cidades,

contente no descontentamento 

de ser invisível


enquanto desenho  noites

nas esquinas da alma.


escrevo sons no ar,

na sonora imensidão dos peixes.


na terra, abro as mãos

e perfumo de incerteza o dia

e leio 

-nas entrelinhas

silabadas de um jornal antigo-


a palavra-sabor, 

a palavra-abrigo.


Susana Duarte



quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

 Tenho nos olhos 

a veia côncava da vontade

de erguer sóis


ainda que o nada se agigante.


Susana Duarte


quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

 beija-me os olhos marejados 

de ausências


e ausenta-te de ti, 


navegante flávio

dos meus cabelos negros


e das sombras 

que me habitam.


estou onde não estás

(tento respirar)


Susana Duarte




segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

 roubo à rua 

o sol que me pertence:


a clandestinidade indistinta,

a sombra das palavras 

negadas,


interditas,


ditas onde os terrenos

aguardavam a chegada

       do beijo.


roubo ao sol o calor

do vôo, quando as aves soletram

      manhãs de inverno,


separando as letras 

de cada rumo

          ao sul.


roubo o nome

decalcado na terra,


onde sou norte e sou sul


e decido para onde vou.


Susana Duarte

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

 sobre o silêncio 

pesam as almas das aves,

das mulheres sós e da amálgama de peles


ao relento


em terreno nú


nas escadas paridas pelas dores

de alguma desconhecida 


só 


sobre o monte úmbrio

dos sonhos


e os braços das mulheres 


(fortes e redondos e duros e içados ao vento

como os mastros das naus e as asas 

de um qualquer deus que rumou ao sol)


sob o silêncio 

(ou dele)

nascem rochas perenes devassadas 

pelos ventos do norte


ou pelas pernas caminhantes das mulheres 

(outrora véu negro sobre os cabelos)


e elas caminham e caminham e caminham


rumo a um deus qualquer,

embutido de um qualquer orgulho nado-vivo


ecce homo

ecce mulier


quem somos? o que somos, quando a mágoa

enche os redutos do pensamento 

e os poros 


e os dedos nascidos dos trevos

e as poções declinadas ao relento


e as mulheres caminham e caminham

e caminham por sobre o silêncio 

e as aves

e as peles


e o sangue que perdura

ou se perde


por entre pernas doridas paridas pelos dias


ecce femina


e os sobressaltos

não são mais do que noites de sono 

sem fundo


e vozes antigas

e pele


e nada.


(talvez)


Susana Duarte


sexta-feira, 29 de novembro de 2024

 metade de mim é silêncio.


onde o silêncio habita as margens

das veias, habita igualmente o mar


tempestuoso 

dos meus pensamentos.


metade de mim é silêncio,

e mais não sei. sei apenas 


da inexistência


dos nomes que não visito,

dos rostos de que apenas

guardo memória,


da solidão que me mora no sangue,


e da metade de mim que é silêncio.


outra metade, são as quimeras,

as viagens que demoram,


e a demora da tua pele. 


metade 

de mim seriam as águas perdidas

e os voos picados 


por sobre as ondas.


metade de mim é silêncio;

metade de mim é o que não sei.


Susana Duarte

2020




terça-feira, 26 de novembro de 2024

 Identidade


são etéreas, as memórias. talvez apenas ilusões, talvez apenas estórias

de abraços desabituados dos corpos.

são névoas, as canções. talvez fossem sorrisos,memórias de abrigos e de corações interrompidos, navegados, ou...mortos.

a morte da memória é o esquecimento,

e o apagamento da sombra das mãos:

aquelas que, outrora, foram tuas, impressas

num ventre oculto, navegadas elas pelo ventre,

demente, talvez. esquecido. doente de 

abandono.

[quem és? quem foste?]


Susana Duarte

2016

 esquece o mundo e acomoda a respiração no seio da noite     que perdura. esquece a noite, desfaz os nós      do silêncio com que passaste e...